2011-02-17

A1.2 A Palestina antes do nascimento de Jesus Cristo (/ ; / ; / ; /)

O Segundo Livro dos Macabeus termina com a pessoa de João Hircano, como chefe da Judeia. Para entendermos o contexto histórico dos evangelhos, torna-se necessário compreender a evolução política da Palestina desde aquela altura – de facto, a narração de Lucas começa «No tempo de Herodes, rei da Judeia».
A dinastia dos Hasmoneus, a que João Hircano pertencia, continuou com o seu filho, Aristóbulo I, e depois com Alexandre Janeu, irmão deste. Após a morte de Alexandre, simultaneamente rei da Judeia e Sumo Sacerdote, estes cargos foram separados, passando a sua esposa, Salomé Alexandra, a ser rainha, enquanto o seu filho Hircano II foi sagrado Sumo Sacerdote, herdando o reino, apenas, após a morte da sua mãe. Contudo, pouco tempo depois, o seu irmão Aristóbulo revoltou-se contra ele, vencendo-o numa batalha perto de Jericó, e sucedendo-lhe no trono como Aristóbulo II. Na base desta revolta está o facto Hircano, tal como sua mãe Salomé, ser apoiante da corrente dos Fariseus, enquanto Aristóbulo, seguindo a opinião do seu pai, apoiava os Saduceus. Isto permitiu que Aristóbulo recrutasse apoios entre os Saduceus e se revoltasse contra o irmão.
Cabe aqui, então, abordar de forma geral os grupos religiosos e sociais judeus mais relevantes por altura do nascimento de Cristo. Conforme podemos recordar das origens do povo israelita, das doze tribos que migraram do Egito, só três se conservaram e deram origem ao povo judeu: as tribos do Sul — Judá e Benjamim — e a tribo de Levi, sobretudo os levitas que habitavam na Judeia, a região daquelas duas tribos. Ora, dentro da tribo dos levitas, existia a linhagem dos aaronitas, descendentes de Aarão; estes tinham a seu cargo a parte mais importante do culto, nomeadamente a oferta de sacrifícios, tendo os restantes (i) levitas como auxiliares. Os aaronitas eram, então, os (ii) sacerdotes (kohen) dos judeus. Por sua vez, os sacerdotes que descendiam do sumo sacerdote Sadoc, do tempo de David, formavam o partido dos (iii) saduceus. Este grupo era particularmente influente na sociedade judaica, quer pelas suas origens aristocráticas, quer por durante longo tempo deterem o cargo de sumo sacerdote, quer por constituírem parte significativa do Grande Sinédrio. Cabe referir que o Grande Sinédrio era uma assembleia judicial de setenta e um judeus, presidida inicialmente pelo sumo sacerdote, e que passou a exercer a generalidade das funções políticas após a conquista de Jerusalém pelos romanos.
Ora, os saduceus eram politicamente abertos à autoridade romana, que aceitavam duma forma geral. Contudo, em termos religiosos, eram fortemente conservadores, já que apenas admitiam como autoridade os livros do Pentateuco, negando o restante Antigo Testamento (Tanakh) e a lei oral; desta forma, rejeitavam a existência de anjos, a imortalidade da alma e a ressurreição. Tinham, naturalmente, como referência religiosa o templo de Jerusalém.
Um pouco em oposição aos saduceus, existia um grupo mais numeroso, e frequentemente referido nos evangelhos: os (iv) fariseus. A sua origem é, habitualmente, associada ao período do exílio na Babilínia; de facto, privados do templo, os judeus reuniam-se em casas – sinagogas – para fazer orações e leituras das escrituras sagradas. Depois do regresso à Judeia, este costume manteve-se, sobretudo para as populações mais afastadas de Jerusalém. Seriam aqueles que explicavam as leituras e dirigiam a oração que foram, posteriormente, dar origem ao partido dos fariseus. Assim, os fariseus provinham, habitualmente, de classes mais baixas e, por força da sua pregação, exerciam uma influência considerável na opinião do povo. Em termos políticos eram frontalmente contra a autoridade romana. Religiosamente, eram progressistas quanto ao que acreditavam, mas muito estritos quanto ao cumprimento dos preceitos legais. Ao contrário dos saduceus, admitiam como sagrados os restantes livros do Antigo Testamento (Profetas e Escritos), além do Pentateuco; isto explica a sua fé na ressurreição e na existência de anjos. Por outro lado, já que se consideravam herdeiros da tradição profética, davam uma grande importância à Lei Oral, um conjunto de princípios não codificados, mas que eram por eles ensinados e transmitidos. Foi a partir destes princípios que, séculos mais tarde, foi escrito o Talmude; os rabinos atuais provêm desta tradição. Como já foi referido, os fariseus atribuíam uma importância considerável às minudências legais, sobretudo àquelas que diziam respeito à pureza / purificação de pessoas e bens; a sua pregação centrava-se bastante em torno deste aspeto, o que explica a atitude de Jesus a seu respeito.
É importante, também, referir o grupo dos (v) escribas ou doutores da lei. Embora existissem escribas tanto do grupo dos fariseus como dos saduceus, a verdade é que na generalidade eram fariseu. Como o nome indica, eram responsáveis pela cópia dos livros sagrados, cuja interpretação também faziam.
Outro grupo numeroso, referido frequentemente nos evangelhos, é o dos (vi) samaritanos. A respeito da sua origem existem, pelo menos, duas correntes de opinião. De acordo com os próprios samaritanos, eles são descendentes das tribos do norte de Israel, nomeadamente de Efraim e Manasés; ou seja, são o grupo dessas tribos que resistiu às deportações após a conquista dos assírios. Possuíam o seu próprio sumo sacerdote, bem como um santuário no monte Garizim, e admitiam como sagrado apenas o Pentateuco. Contudo, para os judeus, os samaritanos resultavam do cruzamento dos descendentes daquelas tribos, que resistiram às deportações, com as populações que os assírios moveram para a região. Desta forma, além de infiéis, por não reconheceram o templo de Jerusalém e por manterem práticas pagãs, eram vistos também como impuros, por descenderem de populações gentias; isso explica o desprezo a que eram votados pelos judeus.
Um terceiro grupo religioso importante, além dos saduceus e dos fariseus, era o dos (vii) essénios. No que respeita a este grupo, as suas origens são ainda menos conhecidas do que as dos anteriores. De qualquer forma, seguiam um estilo de vida ascético, vivendo em pequenas comunidades afastadas dos centros urbanos; a propriedade era comunitária, vivendo daquilo que produziam, e não possuíam escravos. Religiosamente, cultivavam bastante a espiritualidade, não fazendo sacrifícios nem juramentos; acreditavam na ressurreição e eram particularmente atentos à pureza. Podemos, então, dizer que partilhavam algumas características comuns à tradição do nazirato, descrita em Números 6 – e que foram um exemplo precursor do primitivo monaquismo cristão.
Importa falar, finalmente, de dois grupos, com atividade essencialmente política: o dos zelotas e o dos herodianos. Os (viii) zelotas eram um grupo nacionalista, fortemente contra a presença romana e de helenistas. Sobretudo em meados do século I d. C, praticavam uma luta de guerrilha contra os romanos, e mesmo contra os judeus que toleravam aquela presença.
Finalmente, e um pouco como oposto dos zelotas, o grupo dos (ix) herodianos era constituído, logicamente, pelos apoiantes do rei Herodes, de quem se falará posteriormente. Como tal, apoiavam também a presença romana.
Retomando os acontecimentos históricos, Hircano, receando pela sua vida, fugiu para Petra, capital do reino dos Nabateus. Lá, com o auxílio do seu conselheiro Antipater, o Idumeu, aliou-se ao rei Aretas III, prometendo-lhe a devolução das cidades que os judeus conquistaram aos nabateus. Desta forma, montaram cerco à cidade de Jerusalém, em cujo interior reinava Aristóbulo II.
Durante este cerco, tanto Aristóbulo como Hircano, sendo aliados dos romanos, pediram o seu auxílio militar. Ora, por esta altura o general Pompeu, o Grande, acabara de conquistar as regiões limítrofes, e enviou o seu subordinado Marco Emílio Escauro para resolver a questão. Este, movido por uma oferta maior, decidiu em favor de Aristóbulo, o que levou Aretas a retirar com os nabateus. No entanto, quando Pompeu chegou, este optou por apoiar Hircano, por julgar que seria melhor contar com um aliado fraco. Assim, os romanos conquistaram a cidade de Jerusalém (63 a. C.), restaurando Hircano apenas na sua posição de Sumo Sacerdote e tornando-o Etnarca; desta forma embora nominalmente independente, o reino dos Judeus passou a ser um protetorado romano. Antipater, conselheiro de Hircano, ficou a representar os interesses de Roma e, na prática, a governar. Aproveitando-se da fraqueza de Hircano e com o apoio dos romanos, Antipater foi sucessivamente adquirindo, para si e para o seu filho Herodes, mais poder e a simpatia daqueles.
A consequência dos eventos que se seguiram à morte de Júlio César, ditador romano, e de Antipater, em 44 a. C., foi que o Senado Romano nomeasse Herodes Rei dos Judeus, em 40 a. C. Ora, um dos filhos de Aristóbulo II, Antígono, que fora levado preso para Roma, conseguiu libertar-se. Aliando-se aos Partos, conseguiu reconquistar Jerusalém, onde foi proclamado rei e onde governou durante três anos; expulsou também Hircano II para a Babilónia, o qual, por ter sido mutilado por Antígono, deixara de ser adequado para o cargo de Sumo Sacerdote.
Antígono conseguiu governar durante três anos até que, em 37 a. C, e com o auxílio dos romanos, Herodes reconquistou Jerusalém. Para o cargo de Sumo Sacerdote foi nomeado Aristóbulo (III), neto de Hircano II, que no entanto foi mandado matar por Herodes no ano seguinte; Herodes casou, entretanto com Mariana, irmã de Aristóbulo. Desta forma, apesar de ter origens pagãs, conseguiu introduzir-se na linhagem dos reis Hasmoneus.
Assim, temos que de 37 a. C. em diante, até ao início da narração dos Evangelhos, a Palestina foi governada por Herodes, o Grande, formando um reino dependente da República Romana a qual, com a nomeação de Octávio Augusto pelo Senado, em 27 a. C, passou a ser um Império. (1)

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1. várias fontes.

2010-07-28

A1.1 Prólogos (/ ; 1,1 ; 1,1-1,4 ; 1,1-1-18)

«Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus.»
O Evangelho segundo São Marcos começa com estas palavras. Na sua aparência sintética, exclusivamente descritiva, este início apresenta no entanto alguns conceitos que serão essenciais para o estudo posterior. Assim, começa por definir o livro: é um Evangelho. Etimologicamente, evangelho vem do grego euaggelion (euaggelion); Por sua vez, este termo é composto por eu-(bom/boa) e -aggello (possuo uma mensagem), o que, inicialmente, poderia significar «recompensa dada pela boa notícia» e, mais tarde, simplesmente «boa nova / boa notícia / boa novidade». (1)
Mais especificamente, em referência aos textos sagrados, «evangelho» poderá significar «a boa nova do reino» (Mt4,23) ou, mais concretamente, as «boas notícias da salvação»; generalizando, «evangelho» será o conjunto de toda a revelação da Redenção operada por Cristo. Este era, aliás, o único significado da palavra enquanto não existiam registos escritos sobre a vida de Jesus. Mais tarde, quando estes foram redigidos, a palavra «evangelho» passou, por metonímia, a denotar esses escritos em si – e foi São Justino Mártir o primeiro a escrever a palavra com esse significado. Apesar disso, como só pode haver um Evangelho, no sentido de revelação, também não faz sentido que cada um desses escritos seja visto como um evangelho diferente, mas apenas como várias versões do mesmo Evangelho. É por essa razão que, na sua designação, se utiliza a expressão «segundo» (do grego kata kata), seguindo-se-lhe o nome de quem, presumivelmente, redigiu a versão. (1)
Isto é corroborado pela sequência: «evangelho de Jesus Cristo», clarificando quem foi a causa de tais boas notícias. Por isso, também é importante saber o quem é «Jesus Cristo»; deixando de parte a Pessoa, cinjamo-nos aos significados destas duas palavras. Jesus é um nome próprio. Deriva do nominativo latino Iesus, o qual é baseado no grego Ἰησοῦς (Iēsoûs); por sua vez, este corresponde à helenização do nome próprio hebraico e aramaico Yeshua (יֵשׁוּעַ), forma mais recente do hebraico bíblico Yehoshua (יְהוֹשֻׁעַ). (2)
É, portanto, aqui que devemos procurar o seu significado. Ora, «Yehoshua» é composto por «Yeho-» (forma teófora do nome de Deus YHWH) e «-shua» («um grito por ajuda», «um grito que salva», ou seja, um grito dado quando se precisa de ajuda). Assim, em termos literais, o nome significa «Deus é um grito que salva», ou «clama por Deus quando precisares de ajuda». Por isso, não é difícil ler em Jesus algo como «Deus é a salvação», o que estaria de acordo com Mt1,21 («Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados»). (2) (3)
Por sua vez, Cristo vem do grego Khristós (Χριστός) via o latim Christus, significando exatamente «o ungido»; desta forma, é a tradução do hebraico Māšîaḥ (מָשִׁיחַ). Ora, da leitura do Antigo Testamento resulta que «o ungido» é um atributo com uma importância considerável. Com efeito, ungidos eram os sacerdotes, profetas e reis, para marcar o início das suas funções com uma sagração pela parte de Deus. Não é nosso propósito apresentar o conjunto das inúmeras referências bíblicas que fundamentam estas afirmações; de qualquer forma, faz sentido que aquele atributo tenha sido atribuído a Jesus, já que Ele concentrou na Sua pessoa aquelas três missões. Por isso, o ponto a reter é que Cristo começou por ser um título, um atributo, e não um nome próprio ou apelido. Contudo, com a adesão ao Cristianismo de um número cada vez maiores de cristãos, provenientes do mundo greco-latino, a noção de ungido foi perdendo o seu significado inicial. É assim que Cristo passou a ser um segundo nome de Jesus. Contudo, isto também mostra que os cristãos identificaram realmente a Pessoa de Jesus com as três funções referidas, e com o cumprimento das promessas messiânicas. (3)
Finalmente, «Filho de Deus» também é um título com profundas raízes no Antigo Testamento. Contudo, para os hebreus, a expressão «filho de» era relativamente comum; não implicando necessariamente filiação, esta expressão também podia significar uma ligação próxima ou uma relação íntima. Assim, no Antigo Testamento «filhos de Deus» eram todos os que tinham uma relação especial com Deus, como anjos, homens justos ou a própria nação de Israel. Esta primeira abordagem ajuda-nos a perceber a relação de Jesus Cristo com Deus – mais propriamente, com o Pai. Não sendo nosso propósito distinguir os princípios que definem a Santíssima Trindade, importa, no entanto, ter em conta esta realidade.
Assim, a introdução ao Evangelho segundo São Marcos, depois de definir o livro e nomear a Pessoa a que se refere, indica, também, a natureza dessa Pessoa. Além disso, também é um excelente exemplo do estilo sintético deste escrito.

A contrastar, precisamente, com aquele estilo, temos o prólogo ao Evangelho segundo São Lucas. O autor começa por enquadrar temporalmente o seu trabalho: «Visto que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram». Isto permite, desde já, verificar que este Evangelho será uma obra mais tardia que o Evangelho segundo S. Marcos, no qual S. Lucas se poderá ter inspirado; além disso, mostra também uma característica comum aos evangelhos – não ambicionarem ser a versão verdadeira dos factos, mas apenas uma versão desses factos. E é precisamente uma «narração de factos que entre nós se consumaram» que o autor se propõe fazer. Estes factos, como decorrerá da leitura do livro, serão precisamente os da boa-nova da salvação operada por Jesus Cristo; isto é, o Evangelho.
Em seguida, o autor indica a fonte que aceita como verdadeira para essa narração – é aquilo que foi transmitido pelos «que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram “Servidores da Palavra”». Aqui, há dois pontos importantes a reter: em primeiro lugar, que os Apóstolos de Cristo são aceites como autoridade na transmissão do Evangelho, não só por Lucas mas por todos os que o precederam na sua tarefa; é notório que o livro não se propõe ser apenas uma descrição dos feitos e palavras de Jesus, mas antes o que resulta já da elaboração de uma tradição, ainda que embrionária. Em segundo lugar, a dupla qualificação dos Apóstolos: «testemunhas oculares» e «Servidores da Palavra». Temos, portanto, que, para um testemunho ser reconhecido como verdadeiro, é necessário que seja proferido por alguém que tenha convivido com Jesus e que, além disso, tenha também começado a trabalhar em favor da Igreja de Cristo, espalhando o Seu Evangelho.
Então, o autor indica o seu método: «depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem», o autor expôs os factos «por escrito e pela sua ordem». Esta preocupação de base científica enquadra-se na composição tardia deste evangelho, interessada em sistematizar e conferir coerência aos dois anteriores; em conjunto com a natureza da sua fonte, é também uma forma de comprovar a sua verdade.
A respeito do nome Teófilo, ao qual Lucas dedica o livro, a Edição que utilizamos (Bíblia Sagrada, vários, coord.: Alves, H., 4.ª edição revista, Difusora Bíblica; Lisboa / Fátima: 2002) indica que seria um cristão ou até um pagão, a quem Lucas apresentaria uma defesa e justificação da fé cristã. De qualquer forma, a etimologia do nome (do grego θεό - theo, «Deus», e φιλος - philos, «amigo») pode levar a supor que se trata dum personagem fictício, simbolizando todos os cristãos e aqueles que se querem aproximar de Deus. (5)
Finalmente, vem o objectivo do livro: «reconheceres a solidez da doutrina em que foste instruído». Aqui, mais uma vez, são evidentes aquelas preocupações de coerência e síntese que levaram o autor a empreender uma investigação «desde a origem». É notório, portanto, que este livro reunirá à elegância das narrações uma procura pela eficácia e credibilidade das mesmas.

Contrastando com o início descritivo dos outros Evangelhos, este segundo São João abre com uma afirmação soleníssima: «No princípio existia o Verbo». Desta forma, somos imediatamente remetidos para o início da Sagrada Escritura, «No princípio, quando Deus criou o céu e a terra»; portanto, conhecemos que, mesmo antes da criação, o Verbo já existia. Ora, de Quem Se trata este Verbo? A resposta surge mais adiante; por agora, importa reter que é a tradução do grego Logos (Logos), com toda a tradição e construção filosófica que lhe está associada. Ficamos portanto, para já, com Verbo enquanto Palavra de Deus.
Esta ideia é desenvolvida ainda no primeiro versículo, quando é referido «o Verbo estava em Deus; o Verbo era Deus». Vemos, assim, uma gradação que nos leva ao ponto principal: que o Verbo, além de estar em Deus, é ele próprio Deus. Se se atender logo ao versículo 14, fica mais claro: «E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco. E nós contemplámos (…) a glória que possui como Filho Unigénito do Pai». Contudo, este prólogo faz uma gradação que se vai aproximando, daquela conclusão; aliás, como se verá adiante, esta gradação corresponde, precisamente, às etapas da revelação presentes no livro.
Desta forma, faz-nos sentido que, depois de se apresentar a Sua relação com Deus, o terceiro versículo apresente o Verbo como princípio da criação, por um lado, e como Aquele que confere sentido a essa criação, por outro: «Por ele é que tudo começou a existir, e sem Ele nada veio à existência». E explica-se por que foi Ele Quem criou: «n’Ele é que estava a Vida de tudo o que veio a existir»; portanto, o Verbo seria o detentor da vida – e na verdade vemos que isto se repete e recapitula com a Sua ressurreição: por ela, o Verbo deu uma nova vida à Sua criação.
Em associação com a ideia de Vida, vem a ideia de Luz: «E a Vida era a Luz dos homens. A Luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a receberam». E, assim, é clarificado mais um atributo do Verbo: é Luz, ou seja, guia dos homens; continuando a analogia, ilumina-lhes a mente e, dessa forma, permite-lhes compreender as suas acções («O Verbo era a Luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina»). Mais uma vez, que confere sentido à sua existência. Contudo, luz é também sinónimo de Bem, e isso é evidente quando se faz o contraste com as trevas; neste caso, é óbvio que as trevas representam o mal ou, mais concretamente, aqueles que rejeitam («não recebem») o chamamento da Luz («…o mundo não O reconheceu. Veio para o que era Seu, mas os Seus não O receberam»). Este aspecto, de uma mensagem anunciada primariamente aos judeus, mas a que são os pagãos a aderir, é central no Evangelho. Ora, a recompensa dos que acreditaram é, naturalmente, a salvação: «aos que n’Ele crêem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus»; e isto aconteceu, não «por laços de sangue», mas da vontade de Deus.
O prólogo deste Evangelho ainda introduz a pessoa de São João Baptista, «enviado por Deus (…) que vinha para dar testemunho da Luz e todos crerem por meio dele. Ele não era a Luz, mas vinha para dar testemunho de Luz», que era Cristo. Mais adiante, há-de abordar-se detalhadamente a sua pregação precursora.
Finalmente, este prólogo faz como que uma profissão de fé: «todos nós participamos da Sua plenitude, recebendo graças sobre graças», para concluir com a súmula de toda a mensagem de Cristo: «a Lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram-nos por Jesus Cristo. (…) O Filho Unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele que O deu a conhecer».

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1. CE «Gospel and Gospels»
2. WI «Yeshua (name)», 2010-10-09
3. CE «Origin of the Name of Jesus Christ»
4. CE «Son of God»
5. WI «Theophilus (Biblical)», 2010-11-05

2010-07-10

Malaquias (1 - 3)

A encerrar o Antigo Testamento, a profecia de Malaquias aponta alguns caminhos a respeito da novidade que será o Novo Testamento. O livro começa por recordar a escolha de Jacob em detrimento de Esaú, como prova do amor de Deus pelo Seu povo; a respeito desta escolha, é importante recordar as circunstâncias aparentemente misteriosas em que foi feita. De facto, seria Esaú quem teria direito às principais bênçãos de Isaac, mas por interferência de Deus seria Jacob quem as obteria. Segundo o texto, não cabendo discutir as razões do que acontecera, isto seria uma prova do amor de Deus pelo Seu povo. Mas um pouco em contraste com esta ideia, é também referido que «o Senhor é grande, mesmo para além do território de Israel» - neste caso, já a apontar para a futura universalidade cristã.
Esta mesma ideia é desenvolvida mais à frente, de forma mais evidente: «o Meu nome é grande entre as nações, e em todos os lugares é oferecido ao Meu nome um sacrifício de incenso e uma oferenda pura». Neste caso, surge como resposta ao desempenho irregular dos sacerdotes; não abordando directamente o ritualismo judaico, o texto critica de forma severa a hipocrisia dos sacerdotes, que ofereciam sacrifícios irregulares, desonrando desta forma o nome do Senhor. Por isso, a «oferenda pura» é apontada como o inverso daquela prática. Não é difícil ver nesta oferenda uma prefiguração do sacrifício de Jesus Cristo.
No capítulo 2, o livro prossegue criticando o comportamento dos sacerdotes, desta vez a sua incapacidade de proclamar a Lei do Senhor, o que comprometia a aliança de Deus. Assim, a acção recta de Levi - «os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca espera-se a Lei» - é utilizada como contraponto à dos sacerdotes da altura, e dada como exemplo para os sacerdotes de todos os tempos. Generalizando as críticas, o texto condena os casamentos mistos, recuperando um tema frequente do pós-exílio, nomeadamente em Esdras e Neemias. Por outro lado, e neste caso mostrando uma visão bem menos frequente, condena também os divórcios que, recorde-se, eram permitidos pela Lei de Moisés - «o Senhor constituiu-Se testemunha entre ti e a esposa da tua juventude, aquela que tu atraiçoaste, embora ela fosse a tua companheira e aquela com quem fizeste aliança». Na sua argumentação, que há-de ser retomada por Jesus, o texto fala de «um só ser que é carne com um sopro de vida», que procura, afinal, «uma posteridade dada por Deus». Ainda dentro das críticas ao comportamento do povo, vem novamente o incumprimento da Lei, nomeadamente nos aspectos ligados ao culto, que o Senhor está disposto a perdoar («ponde-Me à prova e vereis se não vos abro os reservatórios do céu e não espalho em vosso favor a bênção em abundância»), dando como prova os benefícios já concedidos no passado.
No final do livro, e já numa perspectiva escatológica, é traçado um quadro do «Dia do Senhor», que começa com a vinda dum «mensageiro» para «preparar o caminho à frente do Senhor». Este mensageiro, nos últimos versículos, é associado a Elias («vou enviar-vos o profeta Elias antes que chegue o Dia do Senhor, dia grande e terrível»), com a missão de mover o coração dos homens para que o castigo de Deus se torne desnecessário. Contudo, como se verá no Novo Testamento, esta missão de Precursor poderá ser atribuída a São João Baptista, que Cristo, aliás, associa ao profeta Elias.
Depois dele, entrará no santuário «o Senhor, que vós procurais, e o mensageiro da aliança, que vós desejais» - «Quem suportará o dia da Sua chegada?». E este Senhor é caracterizado por dois atributos fundamentais: fundidor e purificador, pois será precisamente essa a sua função em relação aos sacerdotes. Além disso, a figura de justo juiz assume também um papel fundamental na protecção dos «operários, órfãos, viúvas e estrangeiros». É curioso como já aqui o Senhor se identifica com os mais fracos, fazendo depender o respeito por Si do respeito por aqueles.
Finalmente, o livro termina com uma mensagem de esperança para os justos que têm visto os ímpios prosperar, a quem Deus promete justiça, precisamente, no tal «Dia do Senhor». Assim, enquanto os maus serão castigados, para os justos «brilhará o sol de justiça, trazendo a cura nos seus raios». Esta imagem belíssima, que é impossível não associarmos a Cristo, quase que encerra o livro, deixando para o Novo Testamento essa expectativa de justiça e esperança.
Abrantes, 27 de Julho de 2010

2010-06-27

Simão (13 - 16)

Privados de Jónatas, os judeus encheram-se de medo do que haveria de suceder; contudo, depois de um discurso exaltado de Simão, seu irmão, o povo nomeou-o chefe em seu lugar. Apesar de não conseguir concluir a sua primeira missão, que seria recuperar Jónatas - já que Trifon acabou por matá-lo -, Simão quis prestar homenagem aos seus antecessores. Para tal, construiu sobre os seus túmulos «um monumento grandioso, com pedras polidas nas duas faces», composto por sete pirâmides.
Nas suas primeiras acções como chefe do povo, Simão continuou o trabalho do seu irmão; para tal, mais uma vez tirando partido dos conflitos dinásticos entre os Selêucidas, Simão conseguiu que Demétrio II, que entretanto voltara a reinar, lhe concedesse mais benefícios e isenções. Mais importante, Simão reconquistou a cidadela grega de Jerusalém - recorde-se que Judas tentara fazê-lo mas acabou por não ter sucesso. Simão teve e, após montar cerco, conseguiu expulsar todos os gregos que lá estavam, «purificando» a cidadela em seguida. O texto confere uma elevada importância a esta reconquista, já que a cidadela era a última presença grega na cidade de Jerusalém.
Simão também renovou a aliança com Esparta e Roma, oferecendo valiosos presentes, e voltou a imiscuir-se nas lutas dinásticas dos Selêucidas - desta feita, aliou-se a Antíoco VII, filho de Demétrio II, contra Trifon, que entretanto matara este último. Repetindo as acções dos seus antepassados, e já não precisando do apoio dos judeus, Antíoco VII voltou-se contra eles. De forma a preparar a defesa, e por já não ser novo, Simão confiou a defesa do exército a dois dos seus filhos, João (mais tarde, o rei João Hircano) e Jónatas. Num discurso na linha do que Matatias fizera aos seus filhos, Simão recordou como os Macabeus sempre lograram combater contra os estrangeiros, e implorou a ajuda de Deus para os seus descendentes.
Estes conseguiram vencer um importante combate contra o governador Cendebeu, mostrando que a chefia do povo continuava bem entregue. Contudo, Ptolomeu, um outro chefe militar que sendo judeu resolveu combater pelo rei, conseguiu trair Simão, tal como Jónatas já tinha sido traído. Para tal, ofereceu-lhe um banquete; quando este «ficou ébrio», Ptolomeu matou-o. Aproveitando-se desta fraqueza, a sua intenção seria matar também João; este, contudo, foi informado que o perseguiam, pelo que se refugiou. Viria a reinar no lugar de seu pai, como João Hircano, dando continuidade à dinastia dos Hasmoneus, como passou a ser intitulada .
Quanto a Simão, o texto deixa-o com um excelente elogio, na linha daquele feito a Judas Macabeu - «procurou o bem-estar do seu povo, o seu governo agradou a todos e foi grande a sua fama». E isto resume bem as linhas principais do seu reinado. De facto, além das relevantes conquistas militares, que firmaram as fronteiras do reino, Simão também teve uma importante acção a nível civil, «protegendo os humildes do seu povo, zelando sempre pela lei». Isto permitiu que Israel alcançasse paz e prosperidade, mostrando que a revolta dos Macabeus fora perfeitamente bem sucedida: «cada um trabalhava em paz a sua terra (...) os anciãos assentavam-se nas praças e falavam da prosperidade do país; os jovens vestiam-se de ricos vestidos e uniformes militares».
Lisboa, 10 de Julho de 2010

2010-05-30

Jónatas (9,23 - 12)

Após a morte de Judas Macabeu, o seu irmão Jónatas foi escolhido para continuar a liderar os judeus, já que a obra de Judas não estava terminada - basta pensar que Báquides e Alcimo o tinham vencido. Assim, após algumas lutas inconclusivas, Alcimo veio a morrer, e Jónatas conseguiu vencer definitivamente Báquides, que se retirou da vida judaica.
Jónatas revelou-se um bom chefe político, sabendo tirar partido dos conflitos dinásticos dos selêucidas. Assim, quando Alexandre Balas, supostamente filho de Antíoco IV Epifânio, veio disputar o trono a Demétrio I, Jónatas apoiou-o, apesar de Demétrio lhe ter concedido o cargo de Sumo Sacerdote. Desta forma, quando Alexandre conquistou o reino, concedeu também cargos a Jónatas, nomeadamente o de chefe militar; assim, Jónatas reuniu em si os poderes civil, religioso e militar dos judeus. Esta aliança com Jónatas foi também útil a Alexandre, nomeadamente nos seus primeiros combates contra o futuro Demétrio II, filho de Demétrio I, que lhe disputava o trono.
Traído por Ptolomeu VI Filometor, do Egipto, com quem fizera uma aliança, Alexandre viria mesmo a perder o trono para Demétrio II, que também aceitou o poder de Jónatas. É visível como este chefe político sabia tirar partido das lutas dinásticas; nesta ocasião, conseguiu, em troca do apoio ao novo rei, que o território da Judeia fosse aumentado. Quando Antíoco VI Dioniso, filho de Alexandre, foi proclamado rei contra Demétrio II, Jónatas apoiou-o, combatendo este último, que entretanto o começara a tratar com inimizade.
O texto descreve, ainda, as alianças que Jónatas reforçou com Roma e Esparta, não deixando de esclarecer que a sua segurança residia, sobretudo, no Senhor, que conhecia dos «livros santos». No entanto, como verificámos, Jónatas era um homem ambicioso e, de certa forma, oportunista. É por isso que veio a perder a liberdade, quando um tal de Trifon, que planeava apoderar-se do trono de Antíoco, o enganou. De facto, aliciando-o com terras e honrarias, conseguiu que Jónatas o seguisse com poucos homens; ao entrarem na cidade de Ptolemaida, Trifon traiu-o, prendendo-o e mandando matar os seus companheiros.
Temos assim que Jónatas prosseguiu a obra do seu irmão, conquistando para os judeus um lugar de relevo na política internacional da altura, por entender que seria a melhor forma de garantir a autonomia e liberdade do seu povo.

2010-05-02

Judas Macabeu: combates até à sua morte (7,1 - 9,22 ; 14 - 15)

O reino dos Selêucidas permaneceu com uma grande instabilidade dinástica; assim, Demétrio, filho do rei Seleuco IV, por sua vez irmão de Antíoco Epifânio, e que governara antes deste, veio de Roma, onde estava exilado, e tomou o trono, mandando matar Antíoco V. Quando isto aconteceu, o judeu Alcimo, que ambicionava ser Sumo Sacerdote, denunciou os judeus, pedindo que Demétrio o nomeasse para aquele cargo. Em recompensa pelo seu apoio, Demétrio nomeou-o, e enviou um exército, comandado por Báquides, para o apoiar. Ora Judas, nos combates que empreendeu, derrotou Báquides e castigou os judeus que o apoiavam, o que levou Demétrio a enviar novo chefe: Nicanor.
Segundo o Segundo Livro, Nicanor temeu o poder de Judas, razão pela qual tentou a conciliação com ele. Esta foi aceite, e durante algum tempo Nicanor viveu em Jerusalém, como delegado do rei, durante o qual «procurava constantemente a companhia de Judas, com uma amizade sincera». Movido pela inveja, Alcimo pediu a Demétrio que tomasse medidas, e este insistiu com Nicanor para que prendesse Judas. Apesar de aquele tentar ser discreto, Judas notou a mudança das suas atitudes e escondeu-se; por sua vez, Nicanor mostrou abertamente aos judeus que queria prender Judas e, como os sacerdotes do templo não lhe revelaram o seu paradeiro, amaldiçoou o templo, ameaçando destruí-lo. Os sacerdotes invocaram ao Senhor numa bonita oração.
Como é seu timbre, este livro inclui o exemplo de um herói judeu, Razis, ancião fiel que Nicanor queria prender, para desmotivar os judeus. Para o evitar, Razis tentou suicidar-se, o que teve de fazer por três vezes, em grande sofrimento; na última, «já exangue, arrancou as estranhas com as próprias mãos e lançou-as sobre os inimigos, pedindo àquele que manda na vida e no espírito que lhas restituísse um dia». Mais uma vez, e completando aquele texto que falava da fé na ressurreição, este confirma uma ressurreição carnal, de um corpo que volta à vida.
O texto mostra, depois, as disposições dos judeus e dos sírios antes do combate. Nicanor, com o seu exército e alguns judeus «que eram obrigados a segui-lo», estava excitado com o combate, e imaginava o troféu que ia construir com os despojos dos judeus. Estes, por sua vez eram encorajados por Judas a recordarem-se das graças que Deus já lhes tinha concedido; além disso, Judas conta-lhes uma visão que tivera: está com o sumo sacerdote Onias e com o profeta Jeremias, ambos já falecidos, e Jeremias deu-lhe «uma santa espada, dom de Deus, com a qual triunfaria dos inimigos». Depois de uma oração, que se prolongou durante a batalha, os judeus conseguiram vencer os Sírios, matando Nicanor. Como castigo das suas ameaças, os judeus cortaram-lhe a cabeça e a mão que utilizara para ameaçar o templo, expondo-os à vista de todos. O Segundo Livro termina precisamente neste ponto, «porque, a partir deste dia, Jerusalém permaneceu em poder dos hebreus».
Aproveitando a estabilidade que se sucedeu a esta vitória, Judas procurou consolidar o estado judaico; para tanto, enviou uma embaixada à República Romana, procurando uma aliança para o caso de ser atacado novamente pelos sírios. O texto faz um grande elogio aos romanos, exaltando-se os seus feitos militares e elogiando o facto de «conservarem a sua fidelidade aos seus amigos e aliados». Assim, é assinada uma aliança entre judeus e romanos; esta aliança, contudo, mostra desde logo a supremacia que Roma teria de exercer, já que o apoio militar dos romanos aos judeus, ou o apoio que os judeus dariam aos romanos, dependiam os dois daquilo que Roma determinasse. Isso é visível no tom despreocupado com que os romanos se dirigem a Demétrio, apesar dos pedidos dos judeus. Aliás, não nos devemos esquecer que os romanos viriam a conquistar a Judeia e que, mais tarde, deportariam mesmo os judeus.
Finalmente, o texto narra a morte de Judas, no contexto de novo combate contra Báquides e Alcimo. Assim, mostrando uma atípica falta de confiança em Deus, «se chegou a nossa hora, morramos corajosamente pelos nossos irmãos, mas não manchemos a nossa honra», Judas deu início ao combate. Este foi muito violento, e Judas viria a perder a vida; foi enterrado pelos seus irmãos Jónatas e Simão. Assim, os judeus perderam um grande líder, que reuniu as motivações religiosas e nacionalistas para lutar pela liberdade do povo.
Lisboa, 11 de Maio de 2010

2010-04-07

Judas Macabeu: combates até à reconquista de Jerusalém (5 - 6 ; 9 . 10,9-10,38 . 11,13 - 13,26)

A narrativa prossegue em estilo bélico, em ambos os livros, exaltando os feitos guerreiros de Judas Macabeu. Assim, remete-nos imediatamente para a época da conquista da Palestina após o Êxodo e, tal como nessa altura, é valorizada por numerosas hipérboles. Como motivação inicial, é referido o facto de os povos vizinhos terem ganho inveja dos judeus, facto compreensível atendendo às suas vitórias prévias. Por isso, ter-se-iam reunido para os atacar, o que motivou a resposta dos judeus.
Em primeiro lugar, são referidos os edomitas, ou idumeus, inimigos clássicos do povo judeu e chefiados por Górgias. Num destes combates, alguns judeus deixaram-se subornar pelos gentios, o que motivou um castigo exemplar da parte de Judas Macabeu, que os mandou executar. Em seguida, os judeus combateram os amonitas, também inimigos tradicionais, e chefiados por Timóteo. Durante o combate, «apareceram do céu cinco magníficos guerreiros, montados em cavalos com freios de ouro», que contribuíram decisivamente para a vitória dos judeus. Uma vez mais, nota-se a preocupação do texto em mostrar que estas lutas eram apoiadas por Deus, e que era precisamente isso o que permitia o sucesso do Seu povo.
Guilead foi a região que Judas combateu em seguida; de facto, nesta região, encontravam-se dispersos muitos judeus, que depois dos combates foram reunidos por Judas e reconduzidos a Jerusalém. Era Timóteo quem também chefiava estes exércitos; mais uma vez, sofreu uma grande derrota causada pelos judeus, que conquistaram, entre outras, as cidades de Carnion, Efron e Citópolis. Entretanto, o seu irmão Simão conquistava a Galileia.
No entanto, o texto também dá conta de uma derrota judaica - derrota, no entanto, com uma finalidade educativa: José tinha sido designado por Judas como regente do povo enquanto andava ausente em combates, sem ter no entanto autorização para combater os gentios. Por vaidade, José decidiu desrespeitar a sua ordem, e por isso mesmo foi derrotado por Górgias - derrota que Judas viria a vingar depois. Este venceria, ainda, em Jope e Jâmnia.
A morte de Antíoco Epifânio é narrada de forma algo divergente por cada livro. Assim, ao regressar de uma derrota na Pérsia, segundo o Primeiro Livro, Antíoco «caiu de cama, doente de tristeza, e julgou morrer». O Segundo Livro desenvolve um pouco mais o contexto da morte de Antíoco, de forma a destacar o sofrimento em que esteve envolvida - e desta forma mostrar que o castigo divino não se faz esperar. Desta forma, o Senhor «feriu-o com um mal incurável», caracterizado por «dores atrozes nas entranhas» - que, ainda assim, o inflamava no ódio contra os judeus. Até que uma queda do carro conduziu à fractura dos seus membros; a doença foi piorando até que «dos seus olhos saíam vermes e as carnes caíam aos pedaços entre dores atrozes». É notória a preocupação do livro em mostrar, por um lado o seu sofrimento e, por outro, a situação humilhante em que se encontrava - «incapaz de suportar o seu próprio mau cheiro».
Ora, ambos os livros mostram como Antíoco esboçou um arrependimento e um desejo de conversão - «lembro-me de todos os males que causei a Jerusalém» e «reconheço que foi por causa disto que me sobrevieram todos estes males, e, agora, morro de tristeza numa terra estrangeira». Além disso, Antíoco «rezava ao Senhor, e pretendia dar liberdade à cidade santa; (...) finalmente, ele mesmo se tornaria judeu». Aparentemente, este arrependimento serve para dar mais força ainda ao seu sofrimento e morte. Com efeito, no Antigo Testamento, Antíoco Epifânio é aquele cujas acções anti-semitas são mais minuciosamente descritas. Com a negação da misericórdia divina, o seu castigo torna-se ainda maior - «o justo castigo de Deus pesava sobre ele».
Então, prevendo a sua morte, Antíoco Epifânio designou o seu filho, Antíoco V Eupátor, como seu sucessor, nomeando Filipe como seu perceptor e regente do reino. Ora, outras partes do texto afirmam que era Lísias afinal o regente, o que deixa transparecer um conflito latente entre estes dois homens.
Como nos devemos recordar, em Jerusalém existia uma cidadela grega, que era frequente fonte de conflitos com os judeus. Por isso Judas decidiu cercá-la; contudo, como alguns sitiados conseguiram sair, Antíoco e Lísias puseram-se a caminho de Jerusalém para combater os judeus. Entretanto, o Sumo Sacerdote Menelau juntou-se aos gregos, como forma de tentar obter as boas graças junto do novo rei. Contudo, como estes acabaram por culpá-lo dos males que sucediam, Menelau foi castigado com a morte, depois de lhe ser causado forte sofrimento. Na linha de Jasão e Epifânio, a Escritura mostra que o castigo ou recompensa de Deus não tardam.
Ao ter notícia de que o exército sírio se encontrava a caminho, Judas optou por evitar ser cercado e esperou o exército, para disputar uma batalha em campo aberto. Aqui, os textos são relativamente divergentes. Enquanto o Primeiro Livro, mais realista, afirma que o exército judeu se retirou após conseguir matar alguns sírios, receando o seu enorme número, o Segundo Livro, mais poético, fala do «triunfo» judeu. O Primeiro Livro, ao jeito grego, fala ainda dum herói, Eleázar, que quis «salvar todo o povo e celebrizar o seu nome»; para tanto, colocou-se debaixo do maior elefante dos sírios, pensando que seria o do rei, e matou-o, morrendo com esse gesto.
Em seguida, o rei Antíoco Eupátor e Lísias, que comandavam os sírios, conquistaram Bet-Sur e cercaram Jerusalém, esperando que os judeus se rendessem. De facto, a situação dos judeus era bastante penosa porque, sendo ano sabático, escasseavam as provisões. Os judeus, entretanto, iam resistindo. Como, por outro lado, se soube que Filipe se preparava para tomar o poder, os sírios decidiram retirar-se, fazendo a paz com os judeus. Assim, ficou estabelecido que os «deixariam viver como outrora, segundo as suas próprias leis». Os judeus recuperavam, então, o controlo da sua cidade, conservando a sua autonomia no seio do Reino dos Selêucidas.

2010-03-30

Purificação e dedicação do templo e sacrifício pelos mortos (4,36 - 4,61 ; 10,1 - 10,8 . 12,38 - 12,45)

Tal como após o exílio na Babilónia (Esdras 3), também os Macabeus decidiram restaurar o templo e dedicá-lo. Desta forma, começaram por contemplar «a desolação do santuário, o altar profanado, as portas queimadas, os átrios cheios de ervas, nascidas como num bosque ou nos montes, e os aposentos demolidos», mostrando a forma clássica de luto em seguida («rasgaram as vestes, lamentaram-se e deitaram cinza sobre a cabeça»). Para a purificação do templo, em primeiro lugar, sacerdotes «irrepreensíveis e zelosos pela lei» derrubaram o altar de Júpiter, com que os gentios o tinham profanado. Estas pedras, símbolo do opróbrio por que passaram, foram depositadas num lugar impuro «até que viesse algum profeta e decidisse o que se lhes devia fazer». É interessante como, numa etapa tão avançada do Antigo Testamento - e já longe das eras proféticas - os sacerdotes ainda esperavam um profeta que interpretasse a vontade de Deus.
Em seguida, os sacerdotes restauraram o templo, começando pelo altar e passando pelas alfaias sagradas. Quando tudo ficou concluído, precisamente um ano após a profanação, o templo foi novamente dedicado. Nesta ocasião, que nos recorda a restauração do templo feita por Esdras e Neemias - ou mesmo a sua sagração inicial por Salomão, os Judeus decidiram que o aniversário da dedicação do templo fosse sempre celebrado. De facto, ainda hoje, os Judeus celebram a festa de Hanuká.
Enfim, sempre que houve um movimento de renovação entre os Judeus, o estabelecimento do culto num espaço digno foi um evento notável, aquele que realmente marcava a reconciliação do povo com Deus e consigo próprio. Este templo, com alguns acrescentos, seria aquele em que Jesus Cristo iria pregar, e o último antes da deportação dos Judeus pelos Romanos.
Alguns capítulos adiante, surge uma passagem de relevância fundamental no Antigo Testamento, e que mostra bem o papel dos Livros dos Macabeus como charneira para o Novo Testamento. Após um combate, são encontrados ídolos junto do corpo de alguns judeus - ao que os outros atribuíram logo a causa da sua morte. Em seguida Judas ordenou que, no templo de Jerusalém, «se oferecesse um sacrifício pelo pecado», «para que os mortos fossem livres das suas faltas». Esta fé na intercessão pelos mortos é notável, porque vem abrir as portas à fé numa vida depois da morte. Aliás, como o texto acrescenta, Judas «agiu dignamente ao pensar na ressurreição, porque, se não esperasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles». Esta é uma enorme novidade em relação ao que todos os textos anteriores ensinam, e oferece um fundamento sobre o qual a pregação de Jesus se poderia basear.

2010-03-11

Judas Macabeu: vitórias sobre os Selêucidas (3,1 - 4,35 ; 8 . 11,1-11,12)

Ambos os livros chegam, enfim, à narração dos feitos daquele que é o seu principal herói: Judas Macabeu. Designado por seu pai, Matatias, como líder da resistência judaica, Judas merece desde logo os melhores elogios do Primeiro Livro, que lhe dedica um poema a louvar os seus feitos.
As primeiras vitórias de Judas foram contra Apolónio, governador da Samaria, e Seron, general sírio; desde o início, e à semelhança do tempo da conquista da Palestina, é posta em relevo a disparidade existente entre os exércitos dos judeus e os dos outros povos; como Judas refere, «a vitória no combate não depende do número, mas da força que vem do céu».
Em seguida, dá-se conta da tentativa dos Sírios controlarem a revolta judaica. Assim, Antíoco Epifânio, que ia à Pérsia cobrar impostos, deixou com Lísias a regência do reino e a responsabilidade de educar o seu filho, futuro Antíoco V Eupator; além disso, deu-lhe ordens para «destruir e aniquilar os restos de Jerusalém». Assim, Lísias nomeou os generais Ptolomeu, Nicanor e Górgias para essa missão. Tirando partido da vantagem numérica, estas tropas acamparam no território dos judeus, e a perspetiva da sua vitória era tão evidente que muitos mercadores se «dirigiram ao acampamento, para comprar os filhos de Israel como escravos». Com uma forma que nos recorda a de muitos salmos, surge aqui uma lamentação, «Jerusalém estava despovoada como um deserto (...) O santuário estava profanado (...) A alegria desaparecera de Jacob, a flauta e a harpa tinham emudecido».
Desta forma, Judas reuniu os judeus em Mispá, um local marcante do Antigo Testamento, desde o pacto que Jacob e Labão lá estabeleceram, passando pelo início do massacre contra os Benjamitas e a apresentação de Saul como rei de Israel. O Primeiro Livro pretende mostrar o contraste entre os pagãos e estes judeus, que lá «abriram o Livro da Lei, para nele lerem as coisas acerca das quais os gentios costumavam consultar as imagens dos seus falsos deuses». Lá, depois de nova lamentação e exortação à coragem, Judas organizou o seu exército e confiou-o à vontade de Deus.
Ambos os livros falam de uma grande vitória dos judeus, mas o Primeiro Livro dá-lhe um maior destaque, fazendo um relato bélico ao estilo dos Livros de Samuel. Assim, ajudados pela astúcia de Judas, os judeus conseguiram apanhar os selêucidas de surpresa que, derrotados, fugiram. Esta vitória foi celebrada de duas formas importantes: primeiro, louvando a Deus - como era sábado, os judeus optaram por não perseguir os inimigos, antes passando o dia a orar no próprio campo de batalha - «Porque Ele é bom e o Seu amor é eterno». Isto marca, então, a reconciliação de Deus com o Seu povo, o início das Suas bênçãos depois de tantos castigos. Por outro lado, os judeus também mostraram a sua solidariedade, ao partilharem os despojos com «os que tinham sofrido perseguição, as viúvas e os órfãos». Quanto a Nicanor, segundo o Segundo Livro, este «apregoava que os judeus tinham um protector, sendo, portanto, invulneráveis».
Finalmente, ambos os livros dão conta do combate de Judas contra Lísias, perceptor do futuro rei Antíoco V. Vencido pelos judeus, este combate é notável, sobretudo, pelo pormenor acrescentado pelo Segundo Livro: vendo-se em inferioridade numérica, os judeus, «entre suspiros e lágrimas», oraram ao Senhor. Este enviou-lhes «um anjo bom», «um cavaleiro vestido de branco brandindo as suas armas de ouro». De facto, desde o início, as acções de Judas eram acompanhadas de acontecimentos sobrenaturais, representativos da acção de Deus em favor do seu povo - e factor de motivação para os judeus, numa altura em que a transcendência já era estranha à sociedade.

2010-03-02

Matatias (2)

É naquele contexto de rivalidades entre judeus, helenização imposta e anti-semitismo que a família dos Macabeus se vai distinguir e liderar as lutas que recuperarão a autonomia dos judeus e, desta forma, a sua liberdade religiosa.
Assim, o capítulo 2 apresenta-nos Matatias, prestigiado descendente duma família de sacerdotes, que, ao ver a decadência do seu povo e da sua cidade, se lamenta em jeito sapiencial, «Porque nasci eu, para ver a ruína do meu povo e a destruição da cidade santa, quando o seu santuário está nas mãos dos estrangeiros?». Precisamente devido ao seu prestígio, Matatias foi desafiado pelos selêucidas para se converter e servir de exemplo, sendo-lhe prometida riqueza e poder. De toda a sua dignidade, Matatias responde que «ainda que todos as nações que formam o império do rei renegassem a fé dos seus pais, eu, os meus filhos, e os meus irmãos obedeceremos à aliança dos nossos antepassados». Como prova disto mesmo, quando um judeu se dispunha a oferecer um sacrifício a uma deidade pagã, Matatias «atirou-se sobre ele e matou-o no mesmo altar». Este acto, que à primeira vista poderá repugnar, determina o início da resistência organizada dos judeus ao domínio estrangeiro - Matatias afirma-se como o seu primeiro chefe: «Aquele que sentir zelo pela lei e permanecer fiel à aliança, venha a siga-me». E aqui ficam evidentes as suas motivações: o domínio estrangeiro é pernicioso e deve ser eliminado na medida em que impede os judeus de serem fiéis à sua lei - lei que, recordemo-nos, é sinónimo de Aliança.
A acção de Matatias é posta em maior evidência ao documentar-se o caso de alguns judeus que foram martirizados. Tendo-se refugiado «no deserto» - lugar bíblico onde toda a renovação e purificação se iniciam -, esses judeus foram perseguidos pelos sírios, que lhes ordenaram que se entregassem. Como não o fizeram, os sírios investiram contra eles e, por ser sábado, os judeus recusaram-se a combater. Tal era a dedicação destes judeus piedosos à sua lei.
Ora, sem pôr em causa o enorme valor desta devoção, Matatias apresenta-se bastante mais pragmático. E, tomando em mãos a responsabilidade da luta «pelas suas vidas e pelas suas leis», afirma que «se alguém nos atacar em dia de sábado, combateremos contra eles». A esta guerrilha, que se começava a organizar, juntou-se um grupo de hassideus, que eram judeus ortodoxos e fidelíssimos às suas leis, e que haveriam de originar, posteriormente, o grupo dos fariseus e o dos essénios. Começaram, então, a combater os invasores, e a destruir os locais de culto pagãos, como faziam os reis fiéis antes do exílio. Além disso, retomando o costume antigo, circuncidaram os israelitas que ainda não o eram.
No termo da sua vida, e à semelhança de Jacob e Moisés, Matatias fez um último discurso aos seus filhos. Neste, ele exorta-os a «defender a lei e dar a vida pela aliança dos seus pais», como forma de combater «o orgulho, o ódio, a desordem e a cólera». Para os motivar, nomeia os grandes homens da história dos israelitas, de Abraão a Daniel, pretendendo mostrar, sobretudo, que «todos os que esperam em Deus não perecem». Além disso, deixa organizada a luta pela autonomia dos judeus, nomeando Judas Macabeu como chefe do exército e Simeão como conselheiro - «escutai-o continuamente e ele será para vós um pai».
Desta forma, a família dos Macabeus assumiu o comando da luta dos judeus, que então entrou numa nova fase.