É naquele contexto de rivalidades entre judeus, helenização imposta e anti-semitismo que a família dos Macabeus se vai distinguir e liderar as lutas que recuperarão a autonomia dos judeus e, desta forma, a sua liberdade religiosa.
Assim, o capítulo 2 apresenta-nos Matatias, prestigiado descendente duma família de sacerdotes, que, ao ver a decadência do seu povo e da sua cidade, se lamenta em jeito sapiencial, «Porque nasci eu, para ver a ruína do meu povo e a destruição da cidade santa, quando o seu santuário está nas mãos dos estrangeiros?». Precisamente devido ao seu prestígio, Matatias foi desafiado pelos selêucidas para se converter e servir de exemplo, sendo-lhe prometida riqueza e poder. De toda a sua dignidade, Matatias responde que «ainda que todos as nações que formam o império do rei renegassem a fé dos seus pais, eu, os meus filhos, e os meus irmãos obedeceremos à aliança dos nossos antepassados». Como prova disto mesmo, quando um judeu se dispunha a oferecer um sacrifício a uma deidade pagã, Matatias «atirou-se sobre ele e matou-o no mesmo altar». Este acto, que à primeira vista poderá repugnar, determina o início da resistência organizada dos judeus ao domínio estrangeiro - Matatias afirma-se como o seu primeiro chefe: «Aquele que sentir zelo pela lei e permanecer fiel à aliança, venha a siga-me». E aqui ficam evidentes as suas motivações: o domínio estrangeiro é pernicioso e deve ser eliminado na medida em que impede os judeus de serem fiéis à sua lei - lei que, recordemo-nos, é sinónimo de Aliança.
A acção de Matatias é posta em maior evidência ao documentar-se o caso de alguns judeus que foram martirizados. Tendo-se refugiado «no deserto» - lugar bíblico onde toda a renovação e purificação se iniciam -, esses judeus foram perseguidos pelos sírios, que lhes ordenaram que se entregassem. Como não o fizeram, os sírios investiram contra eles e, por ser sábado, os judeus recusaram-se a combater. Tal era a dedicação destes judeus piedosos à sua lei.
Ora, sem pôr em causa o enorme valor desta devoção, Matatias apresenta-se bastante mais pragmático. E, tomando em mãos a responsabilidade da luta «pelas suas vidas e pelas suas leis», afirma que «se alguém nos atacar em dia de sábado, combateremos contra eles». A esta guerrilha, que se começava a organizar, juntou-se um grupo de hassideus, que eram judeus ortodoxos e fidelíssimos às suas leis, e que haveriam de originar, posteriormente, o grupo dos fariseus e o dos essénios. Começaram, então, a combater os invasores, e a destruir os locais de culto pagãos, como faziam os reis fiéis antes do exílio. Além disso, retomando o costume antigo, circuncidaram os israelitas que ainda não o eram.
No termo da sua vida, e à semelhança de Jacob e Moisés, Matatias fez um último discurso aos seus filhos. Neste, ele exorta-os a «defender a lei e dar a vida pela aliança dos seus pais», como forma de combater «o orgulho, o ódio, a desordem e a cólera». Para os motivar, nomeia os grandes homens da história dos israelitas, de Abraão a Daniel, pretendendo mostrar, sobretudo, que «todos os que esperam em Deus não perecem». Além disso, deixa organizada a luta pela autonomia dos judeus, nomeando Judas Macabeu como chefe do exército e Simeão como conselheiro - «escutai-o continuamente e ele será para vós um pai».
Desta forma, a família dos Macabeus assumiu o comando da luta dos judeus, que então entrou numa nova fase.