A encerrar o Antigo Testamento, a profecia de Malaquias aponta alguns caminhos a respeito da novidade que será o Novo Testamento. O livro começa por recordar a escolha de Jacob em detrimento de Esaú, como prova do amor de Deus pelo Seu povo; a respeito desta escolha, é importante recordar as circunstâncias aparentemente misteriosas em que foi feita. De facto, seria Esaú quem teria direito às principais bênçãos de Isaac, mas por interferência de Deus seria Jacob quem as obteria. Segundo o texto, não cabendo discutir as razões do que acontecera, isto seria uma prova do amor de Deus pelo Seu povo. Mas um pouco em contraste com esta ideia, é também referido que «o Senhor é grande, mesmo para além do território de Israel» - neste caso, já a apontar para a futura universalidade cristã.
Esta mesma ideia é desenvolvida mais à frente, de forma mais evidente: «o Meu nome é grande entre as nações, e em todos os lugares é oferecido ao Meu nome um sacrifício de incenso e uma oferenda pura». Neste caso, surge como resposta ao desempenho irregular dos sacerdotes; não abordando directamente o ritualismo judaico, o texto critica de forma severa a hipocrisia dos sacerdotes, que ofereciam sacrifícios irregulares, desonrando desta forma o nome do Senhor. Por isso, a «oferenda pura» é apontada como o inverso daquela prática. Não é difícil ver nesta oferenda uma prefiguração do sacrifício de Jesus Cristo.
No capítulo 2, o livro prossegue criticando o comportamento dos sacerdotes, desta vez a sua incapacidade de proclamar a Lei do Senhor, o que comprometia a aliança de Deus. Assim, a acção recta de Levi - «os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca espera-se a Lei» - é utilizada como contraponto à dos sacerdotes da altura, e dada como exemplo para os sacerdotes de todos os tempos. Generalizando as críticas, o texto condena os casamentos mistos, recuperando um tema frequente do pós-exílio, nomeadamente em Esdras e Neemias. Por outro lado, e neste caso mostrando uma visão bem menos frequente, condena também os divórcios que, recorde-se, eram permitidos pela Lei de Moisés - «o Senhor constituiu-Se testemunha entre ti e a esposa da tua juventude, aquela que tu atraiçoaste, embora ela fosse a tua companheira e aquela com quem fizeste aliança». Na sua argumentação, que há-de ser retomada por Jesus, o texto fala de «um só ser que é carne com um sopro de vida», que procura, afinal, «uma posteridade dada por Deus». Ainda dentro das críticas ao comportamento do povo, vem novamente o incumprimento da Lei, nomeadamente nos aspectos ligados ao culto, que o Senhor está disposto a perdoar («ponde-Me à prova e vereis se não vos abro os reservatórios do céu e não espalho em vosso favor a bênção em abundância»), dando como prova os benefícios já concedidos no passado.
No final do livro, e já numa perspectiva escatológica, é traçado um quadro do «Dia do Senhor», que começa com a vinda dum «mensageiro» para «preparar o caminho à frente do Senhor». Este mensageiro, nos últimos versículos, é associado a Elias («vou enviar-vos o profeta Elias antes que chegue o Dia do Senhor, dia grande e terrível»), com a missão de mover o coração dos homens para que o castigo de Deus se torne desnecessário. Contudo, como se verá no Novo Testamento, esta missão de Precursor poderá ser atribuída a São João Baptista, que Cristo, aliás, associa ao profeta Elias.
Depois dele, entrará no santuário «o Senhor, que vós procurais, e o mensageiro da aliança, que vós desejais» - «Quem suportará o dia da Sua chegada?». E este Senhor é caracterizado por dois atributos fundamentais: fundidor e purificador, pois será precisamente essa a sua função em relação aos sacerdotes. Além disso, a figura de justo juiz assume também um papel fundamental na protecção dos «operários, órfãos, viúvas e estrangeiros». É curioso como já aqui o Senhor se identifica com os mais fracos, fazendo depender o respeito por Si do respeito por aqueles.
Finalmente, o livro termina com uma mensagem de esperança para os justos que têm visto os ímpios prosperar, a quem Deus promete justiça, precisamente, no tal «Dia do Senhor». Assim, enquanto os maus serão castigados, para os justos «brilhará o sol de justiça, trazendo a cura nos seus raios». Esta imagem belíssima, que é impossível não associarmos a Cristo, quase que encerra o livro, deixando para o Novo Testamento essa expectativa de justiça e esperança.
Abrantes, 27 de Julho de 2010