O reino dos Selêucidas permaneceu com uma grande instabilidade dinástica; assim, Demétrio, filho do rei Seleuco IV, por sua vez irmão de Antíoco Epifânio, e que governara antes deste, veio de Roma, onde estava exilado, e tomou o trono, mandando matar Antíoco V. Quando isto aconteceu, o judeu Alcimo, que ambicionava ser Sumo Sacerdote, denunciou os judeus, pedindo que Demétrio o nomeasse para aquele cargo. Em recompensa pelo seu apoio, Demétrio nomeou-o, e enviou um exército, comandado por Báquides, para o apoiar. Ora Judas, nos combates que empreendeu, derrotou Báquides e castigou os judeus que o apoiavam, o que levou Demétrio a enviar novo chefe: Nicanor.
Segundo o Segundo Livro, Nicanor temeu o poder de Judas, razão pela qual tentou a conciliação com ele. Esta foi aceite, e durante algum tempo Nicanor viveu em Jerusalém, como delegado do rei, durante o qual «procurava constantemente a companhia de Judas, com uma amizade sincera». Movido pela inveja, Alcimo pediu a Demétrio que tomasse medidas, e este insistiu com Nicanor para que prendesse Judas. Apesar de aquele tentar ser discreto, Judas notou a mudança das suas atitudes e escondeu-se; por sua vez, Nicanor mostrou abertamente aos judeus que queria prender Judas e, como os sacerdotes do templo não lhe revelaram o seu paradeiro, amaldiçoou o templo, ameaçando destruí-lo. Os sacerdotes invocaram ao Senhor numa bonita oração.
Como é seu timbre, este livro inclui o exemplo de um herói judeu, Razis, ancião fiel que Nicanor queria prender, para desmotivar os judeus. Para o evitar, Razis tentou suicidar-se, o que teve de fazer por três vezes, em grande sofrimento; na última, «já exangue, arrancou as estranhas com as próprias mãos e lançou-as sobre os inimigos, pedindo àquele que manda na vida e no espírito que lhas restituísse um dia». Mais uma vez, e completando aquele texto que falava da fé na ressurreição, este confirma uma ressurreição carnal, de um corpo que volta à vida.
O texto mostra, depois, as disposições dos judeus e dos sírios antes do combate. Nicanor, com o seu exército e alguns judeus «que eram obrigados a segui-lo», estava excitado com o combate, e imaginava o troféu que ia construir com os despojos dos judeus. Estes, por sua vez eram encorajados por Judas a recordarem-se das graças que Deus já lhes tinha concedido; além disso, Judas conta-lhes uma visão que tivera: está com o sumo sacerdote Onias e com o profeta Jeremias, ambos já falecidos, e Jeremias deu-lhe «uma santa espada, dom de Deus, com a qual triunfaria dos inimigos». Depois de uma oração, que se prolongou durante a batalha, os judeus conseguiram vencer os Sírios, matando Nicanor. Como castigo das suas ameaças, os judeus cortaram-lhe a cabeça e a mão que utilizara para ameaçar o templo, expondo-os à vista de todos. O Segundo Livro termina precisamente neste ponto, «porque, a partir deste dia, Jerusalém permaneceu em poder dos hebreus».
Aproveitando a estabilidade que se sucedeu a esta vitória, Judas procurou consolidar o estado judaico; para tanto, enviou uma embaixada à República Romana, procurando uma aliança para o caso de ser atacado novamente pelos sírios. O texto faz um grande elogio aos romanos, exaltando-se os seus feitos militares e elogiando o facto de «conservarem a sua fidelidade aos seus amigos e aliados». Assim, é assinada uma aliança entre judeus e romanos; esta aliança, contudo, mostra desde logo a supremacia que Roma teria de exercer, já que o apoio militar dos romanos aos judeus, ou o apoio que os judeus dariam aos romanos, dependiam os dois daquilo que Roma determinasse. Isso é visível no tom despreocupado com que os romanos se dirigem a Demétrio, apesar dos pedidos dos judeus. Aliás, não nos devemos esquecer que os romanos viriam a conquistar a Judeia e que, mais tarde, deportariam mesmo os judeus.
Finalmente, o texto narra a morte de Judas, no contexto de novo combate contra Báquides e Alcimo. Assim, mostrando uma atípica falta de confiança em Deus, «se chegou a nossa hora, morramos corajosamente pelos nossos irmãos, mas não manchemos a nossa honra», Judas deu início ao combate. Este foi muito violento, e Judas viria a perder a vida; foi enterrado pelos seus irmãos Jónatas e Simão. Assim, os judeus perderam um grande líder, que reuniu as motivações religiosas e nacionalistas para lutar pela liberdade do povo.
Lisboa, 11 de Maio de 2010