2010-07-28

A1.1 Prólogos (/ ; 1,1 ; 1,1-1,4 ; 1,1-1-18)

«Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus.»
O Evangelho segundo São Marcos começa com estas palavras. Na sua aparência sintética, exclusivamente descritiva, este início apresenta no entanto alguns conceitos que serão essenciais para o estudo posterior. Assim, começa por definir o livro: é um Evangelho. Etimologicamente, evangelho vem do grego euaggelion (euaggelion); Por sua vez, este termo é composto por eu-(bom/boa) e -aggello (possuo uma mensagem), o que, inicialmente, poderia significar «recompensa dada pela boa notícia» e, mais tarde, simplesmente «boa nova / boa notícia / boa novidade». (1)
Mais especificamente, em referência aos textos sagrados, «evangelho» poderá significar «a boa nova do reino» (Mt4,23) ou, mais concretamente, as «boas notícias da salvação»; generalizando, «evangelho» será o conjunto de toda a revelação da Redenção operada por Cristo. Este era, aliás, o único significado da palavra enquanto não existiam registos escritos sobre a vida de Jesus. Mais tarde, quando estes foram redigidos, a palavra «evangelho» passou, por metonímia, a denotar esses escritos em si – e foi São Justino Mártir o primeiro a escrever a palavra com esse significado. Apesar disso, como só pode haver um Evangelho, no sentido de revelação, também não faz sentido que cada um desses escritos seja visto como um evangelho diferente, mas apenas como várias versões do mesmo Evangelho. É por essa razão que, na sua designação, se utiliza a expressão «segundo» (do grego kata kata), seguindo-se-lhe o nome de quem, presumivelmente, redigiu a versão. (1)
Isto é corroborado pela sequência: «evangelho de Jesus Cristo», clarificando quem foi a causa de tais boas notícias. Por isso, também é importante saber o quem é «Jesus Cristo»; deixando de parte a Pessoa, cinjamo-nos aos significados destas duas palavras. Jesus é um nome próprio. Deriva do nominativo latino Iesus, o qual é baseado no grego Ἰησοῦς (Iēsoûs); por sua vez, este corresponde à helenização do nome próprio hebraico e aramaico Yeshua (יֵשׁוּעַ), forma mais recente do hebraico bíblico Yehoshua (יְהוֹשֻׁעַ). (2)
É, portanto, aqui que devemos procurar o seu significado. Ora, «Yehoshua» é composto por «Yeho-» (forma teófora do nome de Deus YHWH) e «-shua» («um grito por ajuda», «um grito que salva», ou seja, um grito dado quando se precisa de ajuda). Assim, em termos literais, o nome significa «Deus é um grito que salva», ou «clama por Deus quando precisares de ajuda». Por isso, não é difícil ler em Jesus algo como «Deus é a salvação», o que estaria de acordo com Mt1,21 («Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados»). (2) (3)
Por sua vez, Cristo vem do grego Khristós (Χριστός) via o latim Christus, significando exatamente «o ungido»; desta forma, é a tradução do hebraico Māšîaḥ (מָשִׁיחַ). Ora, da leitura do Antigo Testamento resulta que «o ungido» é um atributo com uma importância considerável. Com efeito, ungidos eram os sacerdotes, profetas e reis, para marcar o início das suas funções com uma sagração pela parte de Deus. Não é nosso propósito apresentar o conjunto das inúmeras referências bíblicas que fundamentam estas afirmações; de qualquer forma, faz sentido que aquele atributo tenha sido atribuído a Jesus, já que Ele concentrou na Sua pessoa aquelas três missões. Por isso, o ponto a reter é que Cristo começou por ser um título, um atributo, e não um nome próprio ou apelido. Contudo, com a adesão ao Cristianismo de um número cada vez maiores de cristãos, provenientes do mundo greco-latino, a noção de ungido foi perdendo o seu significado inicial. É assim que Cristo passou a ser um segundo nome de Jesus. Contudo, isto também mostra que os cristãos identificaram realmente a Pessoa de Jesus com as três funções referidas, e com o cumprimento das promessas messiânicas. (3)
Finalmente, «Filho de Deus» também é um título com profundas raízes no Antigo Testamento. Contudo, para os hebreus, a expressão «filho de» era relativamente comum; não implicando necessariamente filiação, esta expressão também podia significar uma ligação próxima ou uma relação íntima. Assim, no Antigo Testamento «filhos de Deus» eram todos os que tinham uma relação especial com Deus, como anjos, homens justos ou a própria nação de Israel. Esta primeira abordagem ajuda-nos a perceber a relação de Jesus Cristo com Deus – mais propriamente, com o Pai. Não sendo nosso propósito distinguir os princípios que definem a Santíssima Trindade, importa, no entanto, ter em conta esta realidade.
Assim, a introdução ao Evangelho segundo São Marcos, depois de definir o livro e nomear a Pessoa a que se refere, indica, também, a natureza dessa Pessoa. Além disso, também é um excelente exemplo do estilo sintético deste escrito.

A contrastar, precisamente, com aquele estilo, temos o prólogo ao Evangelho segundo São Lucas. O autor começa por enquadrar temporalmente o seu trabalho: «Visto que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram». Isto permite, desde já, verificar que este Evangelho será uma obra mais tardia que o Evangelho segundo S. Marcos, no qual S. Lucas se poderá ter inspirado; além disso, mostra também uma característica comum aos evangelhos – não ambicionarem ser a versão verdadeira dos factos, mas apenas uma versão desses factos. E é precisamente uma «narração de factos que entre nós se consumaram» que o autor se propõe fazer. Estes factos, como decorrerá da leitura do livro, serão precisamente os da boa-nova da salvação operada por Jesus Cristo; isto é, o Evangelho.
Em seguida, o autor indica a fonte que aceita como verdadeira para essa narração – é aquilo que foi transmitido pelos «que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram “Servidores da Palavra”». Aqui, há dois pontos importantes a reter: em primeiro lugar, que os Apóstolos de Cristo são aceites como autoridade na transmissão do Evangelho, não só por Lucas mas por todos os que o precederam na sua tarefa; é notório que o livro não se propõe ser apenas uma descrição dos feitos e palavras de Jesus, mas antes o que resulta já da elaboração de uma tradição, ainda que embrionária. Em segundo lugar, a dupla qualificação dos Apóstolos: «testemunhas oculares» e «Servidores da Palavra». Temos, portanto, que, para um testemunho ser reconhecido como verdadeiro, é necessário que seja proferido por alguém que tenha convivido com Jesus e que, além disso, tenha também começado a trabalhar em favor da Igreja de Cristo, espalhando o Seu Evangelho.
Então, o autor indica o seu método: «depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem», o autor expôs os factos «por escrito e pela sua ordem». Esta preocupação de base científica enquadra-se na composição tardia deste evangelho, interessada em sistematizar e conferir coerência aos dois anteriores; em conjunto com a natureza da sua fonte, é também uma forma de comprovar a sua verdade.
A respeito do nome Teófilo, ao qual Lucas dedica o livro, a Edição que utilizamos (Bíblia Sagrada, vários, coord.: Alves, H., 4.ª edição revista, Difusora Bíblica; Lisboa / Fátima: 2002) indica que seria um cristão ou até um pagão, a quem Lucas apresentaria uma defesa e justificação da fé cristã. De qualquer forma, a etimologia do nome (do grego θεό - theo, «Deus», e φιλος - philos, «amigo») pode levar a supor que se trata dum personagem fictício, simbolizando todos os cristãos e aqueles que se querem aproximar de Deus. (5)
Finalmente, vem o objectivo do livro: «reconheceres a solidez da doutrina em que foste instruído». Aqui, mais uma vez, são evidentes aquelas preocupações de coerência e síntese que levaram o autor a empreender uma investigação «desde a origem». É notório, portanto, que este livro reunirá à elegância das narrações uma procura pela eficácia e credibilidade das mesmas.

Contrastando com o início descritivo dos outros Evangelhos, este segundo São João abre com uma afirmação soleníssima: «No princípio existia o Verbo». Desta forma, somos imediatamente remetidos para o início da Sagrada Escritura, «No princípio, quando Deus criou o céu e a terra»; portanto, conhecemos que, mesmo antes da criação, o Verbo já existia. Ora, de Quem Se trata este Verbo? A resposta surge mais adiante; por agora, importa reter que é a tradução do grego Logos (Logos), com toda a tradição e construção filosófica que lhe está associada. Ficamos portanto, para já, com Verbo enquanto Palavra de Deus.
Esta ideia é desenvolvida ainda no primeiro versículo, quando é referido «o Verbo estava em Deus; o Verbo era Deus». Vemos, assim, uma gradação que nos leva ao ponto principal: que o Verbo, além de estar em Deus, é ele próprio Deus. Se se atender logo ao versículo 14, fica mais claro: «E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco. E nós contemplámos (…) a glória que possui como Filho Unigénito do Pai». Contudo, este prólogo faz uma gradação que se vai aproximando, daquela conclusão; aliás, como se verá adiante, esta gradação corresponde, precisamente, às etapas da revelação presentes no livro.
Desta forma, faz-nos sentido que, depois de se apresentar a Sua relação com Deus, o terceiro versículo apresente o Verbo como princípio da criação, por um lado, e como Aquele que confere sentido a essa criação, por outro: «Por ele é que tudo começou a existir, e sem Ele nada veio à existência». E explica-se por que foi Ele Quem criou: «n’Ele é que estava a Vida de tudo o que veio a existir»; portanto, o Verbo seria o detentor da vida – e na verdade vemos que isto se repete e recapitula com a Sua ressurreição: por ela, o Verbo deu uma nova vida à Sua criação.
Em associação com a ideia de Vida, vem a ideia de Luz: «E a Vida era a Luz dos homens. A Luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a receberam». E, assim, é clarificado mais um atributo do Verbo: é Luz, ou seja, guia dos homens; continuando a analogia, ilumina-lhes a mente e, dessa forma, permite-lhes compreender as suas acções («O Verbo era a Luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina»). Mais uma vez, que confere sentido à sua existência. Contudo, luz é também sinónimo de Bem, e isso é evidente quando se faz o contraste com as trevas; neste caso, é óbvio que as trevas representam o mal ou, mais concretamente, aqueles que rejeitam («não recebem») o chamamento da Luz («…o mundo não O reconheceu. Veio para o que era Seu, mas os Seus não O receberam»). Este aspecto, de uma mensagem anunciada primariamente aos judeus, mas a que são os pagãos a aderir, é central no Evangelho. Ora, a recompensa dos que acreditaram é, naturalmente, a salvação: «aos que n’Ele crêem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus»; e isto aconteceu, não «por laços de sangue», mas da vontade de Deus.
O prólogo deste Evangelho ainda introduz a pessoa de São João Baptista, «enviado por Deus (…) que vinha para dar testemunho da Luz e todos crerem por meio dele. Ele não era a Luz, mas vinha para dar testemunho de Luz», que era Cristo. Mais adiante, há-de abordar-se detalhadamente a sua pregação precursora.
Finalmente, este prólogo faz como que uma profissão de fé: «todos nós participamos da Sua plenitude, recebendo graças sobre graças», para concluir com a súmula de toda a mensagem de Cristo: «a Lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram-nos por Jesus Cristo. (…) O Filho Unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele que O deu a conhecer».

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1. CE «Gospel and Gospels»
2. WI «Yeshua (name)», 2010-10-09
3. CE «Origin of the Name of Jesus Christ»
4. CE «Son of God»
5. WI «Theophilus (Biblical)», 2010-11-05