2010-03-30

Purificação e dedicação do templo e sacrifício pelos mortos (4,36 - 4,61 ; 10,1 - 10,8 . 12,38 - 12,45)

Tal como após o exílio na Babilónia (Esdras 3), também os Macabeus decidiram restaurar o templo e dedicá-lo. Desta forma, começaram por contemplar «a desolação do santuário, o altar profanado, as portas queimadas, os átrios cheios de ervas, nascidas como num bosque ou nos montes, e os aposentos demolidos», mostrando a forma clássica de luto em seguida («rasgaram as vestes, lamentaram-se e deitaram cinza sobre a cabeça»). Para a purificação do templo, em primeiro lugar, sacerdotes «irrepreensíveis e zelosos pela lei» derrubaram o altar de Júpiter, com que os gentios o tinham profanado. Estas pedras, símbolo do opróbrio por que passaram, foram depositadas num lugar impuro «até que viesse algum profeta e decidisse o que se lhes devia fazer». É interessante como, numa etapa tão avançada do Antigo Testamento - e já longe das eras proféticas - os sacerdotes ainda esperavam um profeta que interpretasse a vontade de Deus.
Em seguida, os sacerdotes restauraram o templo, começando pelo altar e passando pelas alfaias sagradas. Quando tudo ficou concluído, precisamente um ano após a profanação, o templo foi novamente dedicado. Nesta ocasião, que nos recorda a restauração do templo feita por Esdras e Neemias - ou mesmo a sua sagração inicial por Salomão, os Judeus decidiram que o aniversário da dedicação do templo fosse sempre celebrado. De facto, ainda hoje, os Judeus celebram a festa de Hanuká.
Enfim, sempre que houve um movimento de renovação entre os Judeus, o estabelecimento do culto num espaço digno foi um evento notável, aquele que realmente marcava a reconciliação do povo com Deus e consigo próprio. Este templo, com alguns acrescentos, seria aquele em que Jesus Cristo iria pregar, e o último antes da deportação dos Judeus pelos Romanos.
Alguns capítulos adiante, surge uma passagem de relevância fundamental no Antigo Testamento, e que mostra bem o papel dos Livros dos Macabeus como charneira para o Novo Testamento. Após um combate, são encontrados ídolos junto do corpo de alguns judeus - ao que os outros atribuíram logo a causa da sua morte. Em seguida Judas ordenou que, no templo de Jerusalém, «se oferecesse um sacrifício pelo pecado», «para que os mortos fossem livres das suas faltas». Esta fé na intercessão pelos mortos é notável, porque vem abrir as portas à fé numa vida depois da morte. Aliás, como o texto acrescenta, Judas «agiu dignamente ao pensar na ressurreição, porque, se não esperasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles». Esta é uma enorme novidade em relação ao que todos os textos anteriores ensinam, e oferece um fundamento sobre o qual a pregação de Jesus se poderia basear.