2011-02-17

A1.2 A Palestina antes do nascimento de Jesus Cristo (/ ; / ; / ; /)

O Segundo Livro dos Macabeus termina com a pessoa de João Hircano, como chefe da Judeia. Para entendermos o contexto histórico dos evangelhos, torna-se necessário compreender a evolução política da Palestina desde aquela altura – de facto, a narração de Lucas começa «No tempo de Herodes, rei da Judeia».
A dinastia dos Hasmoneus, a que João Hircano pertencia, continuou com o seu filho, Aristóbulo I, e depois com Alexandre Janeu, irmão deste. Após a morte de Alexandre, simultaneamente rei da Judeia e Sumo Sacerdote, estes cargos foram separados, passando a sua esposa, Salomé Alexandra, a ser rainha, enquanto o seu filho Hircano II foi sagrado Sumo Sacerdote, herdando o reino, apenas, após a morte da sua mãe. Contudo, pouco tempo depois, o seu irmão Aristóbulo revoltou-se contra ele, vencendo-o numa batalha perto de Jericó, e sucedendo-lhe no trono como Aristóbulo II. Na base desta revolta está o facto Hircano, tal como sua mãe Salomé, ser apoiante da corrente dos Fariseus, enquanto Aristóbulo, seguindo a opinião do seu pai, apoiava os Saduceus. Isto permitiu que Aristóbulo recrutasse apoios entre os Saduceus e se revoltasse contra o irmão.
Cabe aqui, então, abordar de forma geral os grupos religiosos e sociais judeus mais relevantes por altura do nascimento de Cristo. Conforme podemos recordar das origens do povo israelita, das doze tribos que migraram do Egito, só três se conservaram e deram origem ao povo judeu: as tribos do Sul — Judá e Benjamim — e a tribo de Levi, sobretudo os levitas que habitavam na Judeia, a região daquelas duas tribos. Ora, dentro da tribo dos levitas, existia a linhagem dos aaronitas, descendentes de Aarão; estes tinham a seu cargo a parte mais importante do culto, nomeadamente a oferta de sacrifícios, tendo os restantes (i) levitas como auxiliares. Os aaronitas eram, então, os (ii) sacerdotes (kohen) dos judeus. Por sua vez, os sacerdotes que descendiam do sumo sacerdote Sadoc, do tempo de David, formavam o partido dos (iii) saduceus. Este grupo era particularmente influente na sociedade judaica, quer pelas suas origens aristocráticas, quer por durante longo tempo deterem o cargo de sumo sacerdote, quer por constituírem parte significativa do Grande Sinédrio. Cabe referir que o Grande Sinédrio era uma assembleia judicial de setenta e um judeus, presidida inicialmente pelo sumo sacerdote, e que passou a exercer a generalidade das funções políticas após a conquista de Jerusalém pelos romanos.
Ora, os saduceus eram politicamente abertos à autoridade romana, que aceitavam duma forma geral. Contudo, em termos religiosos, eram fortemente conservadores, já que apenas admitiam como autoridade os livros do Pentateuco, negando o restante Antigo Testamento (Tanakh) e a lei oral; desta forma, rejeitavam a existência de anjos, a imortalidade da alma e a ressurreição. Tinham, naturalmente, como referência religiosa o templo de Jerusalém.
Um pouco em oposição aos saduceus, existia um grupo mais numeroso, e frequentemente referido nos evangelhos: os (iv) fariseus. A sua origem é, habitualmente, associada ao período do exílio na Babilínia; de facto, privados do templo, os judeus reuniam-se em casas – sinagogas – para fazer orações e leituras das escrituras sagradas. Depois do regresso à Judeia, este costume manteve-se, sobretudo para as populações mais afastadas de Jerusalém. Seriam aqueles que explicavam as leituras e dirigiam a oração que foram, posteriormente, dar origem ao partido dos fariseus. Assim, os fariseus provinham, habitualmente, de classes mais baixas e, por força da sua pregação, exerciam uma influência considerável na opinião do povo. Em termos políticos eram frontalmente contra a autoridade romana. Religiosamente, eram progressistas quanto ao que acreditavam, mas muito estritos quanto ao cumprimento dos preceitos legais. Ao contrário dos saduceus, admitiam como sagrados os restantes livros do Antigo Testamento (Profetas e Escritos), além do Pentateuco; isto explica a sua fé na ressurreição e na existência de anjos. Por outro lado, já que se consideravam herdeiros da tradição profética, davam uma grande importância à Lei Oral, um conjunto de princípios não codificados, mas que eram por eles ensinados e transmitidos. Foi a partir destes princípios que, séculos mais tarde, foi escrito o Talmude; os rabinos atuais provêm desta tradição. Como já foi referido, os fariseus atribuíam uma importância considerável às minudências legais, sobretudo àquelas que diziam respeito à pureza / purificação de pessoas e bens; a sua pregação centrava-se bastante em torno deste aspeto, o que explica a atitude de Jesus a seu respeito.
É importante, também, referir o grupo dos (v) escribas ou doutores da lei. Embora existissem escribas tanto do grupo dos fariseus como dos saduceus, a verdade é que na generalidade eram fariseu. Como o nome indica, eram responsáveis pela cópia dos livros sagrados, cuja interpretação também faziam.
Outro grupo numeroso, referido frequentemente nos evangelhos, é o dos (vi) samaritanos. A respeito da sua origem existem, pelo menos, duas correntes de opinião. De acordo com os próprios samaritanos, eles são descendentes das tribos do norte de Israel, nomeadamente de Efraim e Manasés; ou seja, são o grupo dessas tribos que resistiu às deportações após a conquista dos assírios. Possuíam o seu próprio sumo sacerdote, bem como um santuário no monte Garizim, e admitiam como sagrado apenas o Pentateuco. Contudo, para os judeus, os samaritanos resultavam do cruzamento dos descendentes daquelas tribos, que resistiram às deportações, com as populações que os assírios moveram para a região. Desta forma, além de infiéis, por não reconheceram o templo de Jerusalém e por manterem práticas pagãs, eram vistos também como impuros, por descenderem de populações gentias; isso explica o desprezo a que eram votados pelos judeus.
Um terceiro grupo religioso importante, além dos saduceus e dos fariseus, era o dos (vii) essénios. No que respeita a este grupo, as suas origens são ainda menos conhecidas do que as dos anteriores. De qualquer forma, seguiam um estilo de vida ascético, vivendo em pequenas comunidades afastadas dos centros urbanos; a propriedade era comunitária, vivendo daquilo que produziam, e não possuíam escravos. Religiosamente, cultivavam bastante a espiritualidade, não fazendo sacrifícios nem juramentos; acreditavam na ressurreição e eram particularmente atentos à pureza. Podemos, então, dizer que partilhavam algumas características comuns à tradição do nazirato, descrita em Números 6 – e que foram um exemplo precursor do primitivo monaquismo cristão.
Importa falar, finalmente, de dois grupos, com atividade essencialmente política: o dos zelotas e o dos herodianos. Os (viii) zelotas eram um grupo nacionalista, fortemente contra a presença romana e de helenistas. Sobretudo em meados do século I d. C, praticavam uma luta de guerrilha contra os romanos, e mesmo contra os judeus que toleravam aquela presença.
Finalmente, e um pouco como oposto dos zelotas, o grupo dos (ix) herodianos era constituído, logicamente, pelos apoiantes do rei Herodes, de quem se falará posteriormente. Como tal, apoiavam também a presença romana.
Retomando os acontecimentos históricos, Hircano, receando pela sua vida, fugiu para Petra, capital do reino dos Nabateus. Lá, com o auxílio do seu conselheiro Antipater, o Idumeu, aliou-se ao rei Aretas III, prometendo-lhe a devolução das cidades que os judeus conquistaram aos nabateus. Desta forma, montaram cerco à cidade de Jerusalém, em cujo interior reinava Aristóbulo II.
Durante este cerco, tanto Aristóbulo como Hircano, sendo aliados dos romanos, pediram o seu auxílio militar. Ora, por esta altura o general Pompeu, o Grande, acabara de conquistar as regiões limítrofes, e enviou o seu subordinado Marco Emílio Escauro para resolver a questão. Este, movido por uma oferta maior, decidiu em favor de Aristóbulo, o que levou Aretas a retirar com os nabateus. No entanto, quando Pompeu chegou, este optou por apoiar Hircano, por julgar que seria melhor contar com um aliado fraco. Assim, os romanos conquistaram a cidade de Jerusalém (63 a. C.), restaurando Hircano apenas na sua posição de Sumo Sacerdote e tornando-o Etnarca; desta forma embora nominalmente independente, o reino dos Judeus passou a ser um protetorado romano. Antipater, conselheiro de Hircano, ficou a representar os interesses de Roma e, na prática, a governar. Aproveitando-se da fraqueza de Hircano e com o apoio dos romanos, Antipater foi sucessivamente adquirindo, para si e para o seu filho Herodes, mais poder e a simpatia daqueles.
A consequência dos eventos que se seguiram à morte de Júlio César, ditador romano, e de Antipater, em 44 a. C., foi que o Senado Romano nomeasse Herodes Rei dos Judeus, em 40 a. C. Ora, um dos filhos de Aristóbulo II, Antígono, que fora levado preso para Roma, conseguiu libertar-se. Aliando-se aos Partos, conseguiu reconquistar Jerusalém, onde foi proclamado rei e onde governou durante três anos; expulsou também Hircano II para a Babilónia, o qual, por ter sido mutilado por Antígono, deixara de ser adequado para o cargo de Sumo Sacerdote.
Antígono conseguiu governar durante três anos até que, em 37 a. C, e com o auxílio dos romanos, Herodes reconquistou Jerusalém. Para o cargo de Sumo Sacerdote foi nomeado Aristóbulo (III), neto de Hircano II, que no entanto foi mandado matar por Herodes no ano seguinte; Herodes casou, entretanto com Mariana, irmã de Aristóbulo. Desta forma, apesar de ter origens pagãs, conseguiu introduzir-se na linhagem dos reis Hasmoneus.
Assim, temos que de 37 a. C. em diante, até ao início da narração dos Evangelhos, a Palestina foi governada por Herodes, o Grande, formando um reino dependente da República Romana a qual, com a nomeação de Octávio Augusto pelo Senado, em 27 a. C, passou a ser um Império. (1)

__________________________________________________________
1. várias fontes.