O Segundo Livro dos Macabeus, no contexto das perseguições movidas contra os judeus, apresenta dois casos, simultaneamente exemplificativos e edificantes, destes acontecimentos.
Em primeiro lugar, é-nos apresentado Eleazar, um prestigiado ancião «de idade avançada e bela aparência», que se recusava a tomar parte num banquete ritual por este conter carnes proibidas. Como os responsáveis pelo banquete eram seus amigos de longa data, propuseram-lhe que comesse carnes legais, para que, não desrespeitando as suas leis, parecesse que participava no banquete. Contudo, Eleazar, recusou-se a fazê-lo, preferindo ser martirizado - «não é próprio da minha idade usar de tal fingimento; isto seria a minha desonra e a vergonha da minha velhice». Este é um exemplo daquela dignidade dos patriarcas antigos. Mais importante, Eleazar acrescentou que «mesmo que se livrasse então dos castigos dos homens, não poderia escapar, vivo ou morto, das mãos do Omnipotente». É esta a principal mensagem do seu sacrifício. Na verdade, é inequívoco que aqui já está presente uma perspectiva de recompensa / castigo após a morte, facto incomum no Antigo Testamento; de facto, a retribuição pelas acções praticadas, para os mais antigos, seria logo dada em vida. Assim, este livro abre a porta a uma visão da existência que não termina com a morte, mas antes procura a possibilidade de ultrapassá-la. Eleazar, então, mostra desejar ser «um exemplo de fortaleza e um memorial de virtude» para os jovens, e ser posteriormente recompensado por Deus - «podendo eu livrar-me da morte, suporto os tormentos com alma alegre, porque é a Ele que eu temo».
No capítulo 7 narra-se o martírio dos sete irmãos Macabeus; mais uma vez, a causa próxima era a recusa de ingestão de carne de porco. Quando o rei os torturou, para que o fizessem, afirmaram logo que estavam «prontos a morrer antes que violar as leis dos seus pais». Neste caso, o livro dá-nos o relato cru da tortura operada pelo rei, de forma a exaltar a coragem e fidelidade dos irmãos. Depois do primeiro irmão ser morto no fogo, já mutilado, o segundo irmão respondeu às propostas do rei: «o Rei do universo ressuscitar-nos-á para a vida eterna, se morrermos fiéis às Suas leis». No seguimento da afirmação de Eleazar, aqui vem já clara a fé na ressurreição. É a primeira vez que esta vem expressa no Antigo Testamento, encontrando-se um reflexo desta passagem em Daniel, 12. Assume, desta forma, uma enorme relevância, não só pelo carácter revolucionário para a história da salvação, mas também pela forma sintética como é expressa. De facto, a vida eterna como recompensa de uma vida de fé e boas obras é ainda o princípio básico da generalidade das religiões cristãs. Não é inapropriado repetir, então, que os Livros dos Macabeus nos deixam no caminho certo para chegar à mensagem de Jesus Cristo.
Justamente, logo adiante, quando se descreve o martírio do terceiro irmão - a quem fora pedida a língua, para iniciar a tortura -, este responde com um espírito de renúncia muito próximo daquele que Cristo viria a pregar: «do Céu recebi estes membros do corpo mas, agora, desprezo-os por amor das leis de Deus». Compare-se com «se o teu olho for para ti origem de pecado, arranca-o e lança-o fora, pois é melhor perder-se um dos teus membros que todo o teu corpo ser atirado à Geena» (Mateus 5); de facto, muito embora Cristo coloque a questão num outro nível, tomando os membros como imagem de algo que nos é importante, também é verdade que o paralelo entre as duas passagens é bastante evidente. Mais, a passagem mostra inequivocamente a fé na ressurreição carnal, «d'Ele espero recebê-los, de novo, um dia». A ressurreição da carne, e não só a ressurreição espiritual, é um dogma de fé da religião católica.
A narração prossegue com a descrição da tortura e morte dos quarto, quinto e sexto irmãos, sempre com crueldade, e sempre na presença da sua mãe - esta, «cheia de nobres sentimentos, juntava uma coragem varonil à ternura de mulher», exortando os filhos a terem coragem e fé no seu Deus. Chegado ao último irmão, Antíoco tentou que este se convertesse ao helenismo, não pela tortura, mas antes prometendo-lhe riquezas e poder; aparentemente, Antíoco tentava obter desta forma aquilo que não conseguira pela força. Por isso, até pediu o auxílio da mãe, para que exortasse o filho a salvar a sua vida. No entanto, «zombando do cruel tirano», a mãe disse-lhe na sua língua que se entregasse, «para que o encontrasse no meio deles no dia da misericórdia». Aqui, embora não constitua uma novidade do Antigo Testamento, onde são frequentes as referências ao dia da ira divina ou outros similares, não deixa de ser relevante que este dia se encontre associado à ressurreição dos mortos - «após terem suportado um breve tormento, os meus irmãos participam agora da vida eterna». Assim, tal como os restantes, entregou a sua vida, «para que se aplacasse a cólera do Todo-Poderoso» - eles nunca deixaram de reconhecer o motivo do que se estava a passar.
Finalmente, Antíoco mandou matar a mãe, que corajosamente assistiu à tortura dos seus sete filhos. Que Deus os tenha em descanso.