2010-02-16

Helenização e rivalidades entre os judeus (1,11 - 1,15 ; 3 - 4)

As narrativa, propriamente dita, do Segundo Livro dos Macabeus começa com um episódio em que é possível observar os conflitos e as rivalidades que já existiam entre os judeus. De facto, «no tempo em que a cidade santa gozava de perfeita paz», isto é, no reinado de Seleuco III Filopator, pai de Antíoco Epifânio, Onias III era Sumo Sacerdote, e o santuário de Jerusalém era bem aceite pelos sírios, gozando de uma isenção especial. No entanto, «um certo Simão, intendente do templo», homem ambicioso, tentava enfraquecer Onias, e para isso ia criando várias intrigas contra ele. Uma delas levou o rei Seleuco a enviar o seu intendente Heliodoro para se apoderar das riquezas do templo. Não obstante as explicações de Onias, segundo o qual os tesouros se tratavam das ofertas dos mais pobres, Heliodoro, protegido por homens armados, manteve-se no seu propósito. Enquanto isso, Onias e os judeus fiéis entoavam grandes preces a Deus, para que «conservasse invioláveis os depósitos aos seus depositantes».
No entanto, Deus quis intervir em favor do Seu povo. Assim, fez aparecer «um cavaleiro de terrível aspecto, que atirava as patas dianteiras do cavalo sobre Heliodoro». Para reforçar a força desta teofania, «o cavaleiro parecia ter uma armadura de ouro» e, ao mesmo tempo, «apareceram outros dois jovens fortes, cheios de majestade, ricamente vestidos». Esta é, provavelmente, a última teofania narrada no Antigo Testamento; talvez por isso, apareça com este aspecto de síntese, reunindo os aspectos mais relevantes das outras descrições. Em resultado, de qualquer forma, Heliodoro foi retirado do templo «incapaz de se ajudar a si mesmo».
Ainda assim, por compaixão ou, como o próprio texto refere, «temendo que o rei suspeitasse de uma conspiração», Onias ofereceu um sacrifício, para que Deus mantivesse Heliodoro vivo. Foi isso mesmo que aconteceu, e Heliodoro, aparentemente, converteu-se ao Senhor, oferecendo-Lhe um sacrifício antes de regressar à corte. Quando o fez, segundo mais um apontamento de ironia deste livro, disse ao rei, «se tens algum inimigo, envia-o lá. Se conseguir escapar, regressará bem castigado».
Depois, ambos os livros deixam claro o interesse que os costumes gregos causavam nalguns judeus. O Primeiro Livro sintetiza: «Edificaram em Jerusalém um ginásio, dissimularam os sinais da circuncisão, afastaram-se da aliança com Deus, coligaram-se com os estrangeiros e tornaram-se escravos do pecado». O Segundo Livro dos Macabeus atribui a Jasão, irmão de Onias, a principal responsabilidade por estes factos. Assim, quando Antíoco IV Epifânio, filho de Seleuco, subiu ao trono, Jasão subornou-o para que o nomeasse sumo sacerdote em lugar de Onias. Além disso, propôs-lhe também «fundar um ginásio e uma escola para os jovens, e inscrever os moradores de Jerusalém como cidadãos de Antioquia». Assim, Jasão «arrastou os seus concidadãos para o helenismo».
Neste ponto, o texto é bastante crítico, não só em relação à construção daqueles edifícios mas também aos seus efeitos. Na verdade, o estilo de vida judeu, bem como a centralidade assumida pelo templo, foram completamente ameaçados por esta helenização - «os sacerdotes menosprezavam o templo (...) a tomar parte na ginástica e nos jogos proibidos». É interessante, aqui, verificar o fascínio que o modo de vida grego despertou nos judeus; o livro analisa bem a questão: «aqueles mesmos, cuja forma de vida invejavam e tentaram imitar em tudo, voltaram-se contra eles».
Entretanto, as disputas entre judeus continuaram. Menelau, irmão de Simão, ofereceu suborno ao rei, para que o nomeasse Sumo Sacerdote em lugar de Jasão; contudo, como não conseguiu reunir a quantia necessária, abdicou do sacerdócio e nomeou Lisímaco em seu lugar. Este, por sua vez, depois de cometer vários actos de corrupção, foi morto pelo próprio povo. Entretanto, Menelau conseguiu o perdão real e voltou a ser Sumo Sacerdote, «permanecendo no poder e crescendo em malícia, convertido em feroz perseguidor dos seus concidadãos».
Para terminar, e como exemplo desta malvadez, o texto apresenta o assassinato do sacerdote Onias: aproveitando-se da ausência temporária do rei, Menelau convenceu o regente Andrónico a assassiná-lo, o que efectivamente veio a acontecer. O próprio rei ficou comovido com este crime, mandando matar Andrónico.