Depois da restauração operada por Esdras, Neemias e Zorobabel, os judeus viveram por alguns séculos em paz, gozando de uma considerável autonomia no interior do Império Persa, que lhes fora outorgada por édito do rei Ciro. Contudo, no século IV a. C., o Império entrou num período de decadência, e viria a ser conquistado por Alexandre, o Grande, da Macedónia. Após a sua morte prematura, o seu grande império acabou por ser dividido por alguns dos seus generais, conhecidos como Diádocos (descendentes): Ptolomeu no Egipto, Seleuco na Pérsia e Síria, Cassandro na Macedónia e Lisímaco na Ásia Menor. Desta forma, a Judeia ficou incluída no reino dos Selêucidas, e a narrativa do livro decorre por altura do reinado do rei Antíoco IV Epifânio.
O Segundo Livro dos Macabeus começa com duas cartas aos judeus do Egipto, que também contextualizam a narração seguinte. Cabe aqui referir que existiam colónias judaicas no Egipto, entre as quais se encontravam a da ilha Elefantina, em Assuão, ou a de Leontópolis, no delta do Nilo, onde o sacerdote Onias IV edificou um templo, como se haverá de ver adiante. Na primeira, os judeus de Jerusalém recomendam aos egípcios que continuassem a celebrar a festa dos Tabernáculos, de forma a celebrarem, conjuntamente, a purificação do Templo após as perseguições de Antíoco Epifânio, de que o livro há-de dar conta.
A segunda carta também incentiva a celebração da festa dos Tabernáculos. A esse respeito, são narrados dois episódios que valorizam a intervenção de Deus. O primeiro conta, de forma algo aproximada de algumas narrativas épicas, como Antíoco veio a perecer na Pérsia - «chegou com um exército aparentemente irresistível, pereceu no templo de Naneia, vítima dum ardil dos sacerdotes da deusa». O segundo, mais desenvolvido, recorda especificamente a legitimidade e continuidade do culto em Jerusalém. Para tal, conta-se que, aquando da deportação para a Babilónia, alguns sacerdotes esconderam o fogo sagrado do altar «no fundo de um poço seco»; Neemias, no tempo da restauração, mandou que fossem buscar o fogo, mas os sacerdotes só encontraram «um líquido espesso». Quando colocaram esse líquido sobre a matéria do sacrifício, «acendeu-se um grande fogo que maravilhou todos os espectadores». Este episódio apresenta uma considerável importância simbólica. De facto, em primeiro lugar, é sinal da continuidade e legitimidade do culto praticado em Jerusalém: um pouco como se o fogo fosse o mesmo, e apenas estivesse oculto naquele poço. Este «esconder» do fogo pode ser associado ao comportamento de Deus que, mesmo quando castiga o seu povo, não o abandona, mas antes fica «escondido» da sua presença. Um apontamento curioso é o nome que os judeus atribuíram àquele líquido - 'nafta', e ainda hoje a palavra portuguesa para este combustível persiste com a mesma raiz.
A segunda carta prossegue relatando alguns episódios que vão no mesmo sentido do precedente. Por exemplo, indicando Jeremias como o responsável por se ter escondido o fogo sagrado; num acto semelhante, segundo o texto, Jeremias também escondeu a arca e o tabernáculo no monte Nebo, onde ficariam «até que Deus reúna o Seu povo e use com ele de misericórdia». Não sendo histórico, também isto entra na linha da unidade do culto, que esta carta se esforça por reforçar.
Finalmente, o Segundo livro dos Macabeus começa com um elegantíssimo prólogo, comparável à proposição das epopeias - «Os acontecimentos que tiveram lugar no tempo de Judas Macabeu e de seus irmãos - a purificação do templo sagrado e a dedicação do altar, assim como as guerras sustentadas contra Antíoco Epifânio e contra o seu filho Eupátor, os sinais celestes aparecidos a favor dos que pelejaram valorosamente pelo judaísmo e que, apesar do seu número reduzido, se tornaram senhores de todo o país e puseram em fuga as hordas bárbaras, recuperaram o templo, famoso em todo o mundo, libertando a cidade e restabelecendo as leis em vias de abolição - tudo isso graças ao Senhor que lhes foi misericordioso, é o que Jasão de Cirene narra em cinco livros, que nós vamos resumir num só livro». Continua afirmando os propósitos do livro - «agradar aos que apenas desejam ler, facilitar aos que procuram conservá-las na memória, e ser úteis a toda a gente» - e termina com um apontamento de ironia: «após tão longo exórdio, comecemos a nossa narração, porque seria absurdo ser difuso antes da história, para depois ser breve ao narrar a mesma história».