2009-12-13

Vitória dos judeus (8 - E - 9 - 10 - F)

Depois de cumprida a sua missão no imediato, com a morte de Haman, Ester tratou de colocar o seu povo a salvo das ordens que Haman já tinha expedido - recorde-se que ele marcara um dia para que ocorresse o massacre do povo. A influência que Ester e Mardoqueu adquiriram junto do rei foi tal que este lhes disse: «escrevei, vós mesmos, em favor dos judeus, como bem vos parecer, em nome do rei». Isso mesmo foi feito, e os judeus ganharam o direito de se «reunirem para defender a sua vida, destruir, matar e fazer perecer todos os que estivessem armados para os atacar, e também o direito de se apoderarem dos bens deles». Tal como em ocasiões anteriores, o texto grego contém a transcrição do édito real; neste, é possível observar uma fundamentação bastante extensa desta nova decisão do rei, falando dos que «depois de receberem honras singulares pela grande bondade dos seus benfeitores, se tornaram arrogantes», referindo-se, naturalmente, a Haman. Depois, é reiterada a decisão de permitir aos judeus que se defendessem, acrescentando-se que eles deviam manter as suas leis, ser protegidos pela comunidade e celebrar «o dia memorável», nomeadamente aquele em que se fossem defender dos seus inimigos.
Efectivamente, tudo isto foi realizado. Desde logo, «muitos de entre os povos fizeram-se judeus, tal era o temor que estes lhes inspiravam». Esta afirmação é exemplificativa das outras que se lhe seguem; todas elas procuram relevar a alteração de circunstâncias que colocou os judeus numa posição de domínio e preponderância. Para isso, o texto não se coíbe de exaltar o «temor» e a «terror» para com os judeus, aqui muito personificados em Mardoqueu. Assim, no dia em que Haman determinara que fossem destruídos, os judeus prepararam-se para o combate e, apoiados pela hierarquia persa, venceram os seus inimigos. Curiosamente, nunca se indica concretamente quem são esses inimigos. De qualquer forma, a narração apresenta números elevados de mortos, na tal linha de exaltação do poder judeu. Isto está ainda de acordo com a prorrogação do prazo em que os judeus podiam combater os inimigos, concedida por Assuero a Ester. Contudo, o texto também assegura que eles se «abstiveram de toda a pilhagem», embora possuíssem autorização nesse sentido. Quer com isto mostrar-se que, não obstante eventuais excessos cometidos, a motivação dos judeus acabou por ser sempre a autodefesa que, por outro lado, exaltava o poder do seu Deus.
O texto dá destaque, por último, à festa de Purim, que se instituiu para celebrar estes acontecimentos. De facto, com o incentivo do rei, Mardoqueu determinou que os judeus celebrassem «os dias em que foram postos a salvo dos ataques dos seus inimigos, celebrando o mês em que a sua tristeza se transformou em alegria e o luto em festa». Por isso, deveriam «fazer alegres banquetes, enviar ofertas uns aos outros e distribuir donativos aos pobres». De acordo com várias informações, esta festa foi solidamente instituída na sociedade judaica e continua a fazer parte do respectivo folclore, provavelmente por ser de origem recente e possuir um carácter bastante gozoso, contrastando com o sentido penitencial de varias outras festas.
Finalmente, o texto recupera o elogio a Mardoqueu, com que começa; o sentido do seu sonho, que abre o livro, é aqui revelado. Se nos recordamos, ele vira «dois dragões» que se preparavam para combater entre si, secundados pelas nações que queriam combater «uma nação de justos», bem como uma fonte que «se transformou num grande rio». Ora, a interpretação que o texto faz a respeito deste sonho é bastante inequívoca: os dois dragões eram Mardoqueu e Haman, representando o combate que haveria de dar-se entre os judeus e as outras nações; por sua vez, a pequena fonte era Ester, que se havia de tornar num grande rio ao desposar o rei Assuero. Este sonho, então, além de conferir unidade ao relato, reforça mais uma vez o carácter providencial de todos os acontecimentos.

Abrantes, 23 de Dezembro de 2009