2009-12-01

Intervenção de Ester e morte de Haman (5 - D - 7)

Depois de três dias de oração, Ester apresentou-se ao rei Assuero, «formosa como uma flor, de rosto rosado, alegre e atraente, mas com o coração angustiado pelo temor». Neste ponto, o texto grego apresenta uma narrativa de maior intensidade dramática, indicando que o rei a recebeu, em primeiro lugar, encolerizado, levando a que Ester desmaiasse várias vezes. Isto é ocasião para uma intervenção de Deus, que «mudou em doçura a cólera do rei», o que permitiu a este tomá-la nos braços e reconfortá-la - desde logo, dizendo-lhe «não morrerás, porque a minha ordem é para o comum do povo». Mas o texto grego, para dar maior grandeza à figura do rei, associa-o a um anjo - diz Ester: «Meu senhor, eu vi-te como um anjo de Deus».
Depois deste episódio, bastante dramático, da aproximação ao rei, Ester pôs em prática o seu plano. Em primeiro lugar, tirando partido da proposta que Assuero várias vezes repete («Que tens, rainha Ester, e que queres? Mesmo que pedisses metade do meu reino, isso te daria»), a rainha convidou o rei para um banquete que estava a organizar, pedindo que levasse também Haman. Depois, nesse banquete, a rainha convidou-os para um novo banquete no dia seguinte, de forma a dar maior ênfase à narração. Para compor o retrato de malvadez de Haman, o texto mostra como ele foi para casa, após o primeiro banquete, e contou à mulher os seus verdadeiros planos: «Fui o único a quem a rainha Ester admitiu com o rei ao banquete, mas tudo isso não é nada para mim, enquanto vir esse judeu Mardoqueu sentado à porta do rei». Por sugestão dos seus familiares, Haman construiu uma forca, e decidiu que no dia seguinte pediria ao rei que mandasse enforcar Mardoqueu.
Ora, na noite entre os dois banquetes, Assuero teve insónia, e pediu que lhe lessem o livro das crónicas reais; nesse livro, vinha referido o episódio em que Mardoqueu denunciara a conspiração contra o rei. Desta forma, decidiu chamar Haman para o aconselhar sobre «o que se deve fazer a um homem a quem o rei quer honrar». Haman, que vinha pedir a cabeça de Mardoqueu, e que pensava que o rei queria honrá-lo a si próprio, disse que tal homem merecia usar «as vestes, o cavalo e a coroa» do rei, sendo aclamado por um príncipe ao longo das ruas da cidade. Ironicamente, Assuero mandou que Haman fizesse isso mesmo a Mardoqueu. Coberto de vergonha, Haman cumpriu as ordens e regressou a casa, onde a sua mulher predisse o seu destino: «se Mardoqueu, diante o qual começaste a cair, é judeu, não o conseguirás vencer, mas socumbirás diante dele».
Enfim, durante o segundo banquete, Ester revelou o seu pedido: «conceda-me a vida, eis o meu pedido; e salve o meu povo, eis o meu desejo. É que eu e o meu povo fomos votados ao extermínio, à morte, ao aniquilamento». Este facto surpreendeu o rei; é provável que, quando acedeu ao pedido de Haman, o tivesse feito quase sem pensar. Por isso, a rainha Ester afirmou: «o opressor, o inimigo, é Haman, esse malvado». Naturalmente, o rei ficou escandalizado, e condenou imediatamente Haman à morte - de facto, quando um dos eunucos lhe diz que aquele construíra uma forca junto a sua casa, a reacção do rei é clara: «Que o suspendam nela».
Neste episódio temos, portanto, um ponto de viragem na narrativa. Graças à intervenção de Ester, a conspiração de Haman é revelada e este é castigado. Desde logo, é impossível não ver aqui a intervenção divina no auxílio ao seu povo; por outro lado, é também um exemplo claro da forma como a retribuição funciona nos termos do Antigo Testamento: à prática do bem e do mal segue-se imediatamente a respectiva recompensa ou castigo.