2009-11-20

Conspiração contra os judeus (A,12 - A,17 . 2,19 - 4 - C)

Para reforçar a importância de Mardoqueu, o livro descreve como ele denunciou uma conspiração de dois eunucos, Bigtan e Teres, contra o rei. Descobrindo-se que eles de facto preparavam essa conspiração, o rei Assuero condenou-os à morte, e atribuiu a Mardoqueu uma função na sua corte.
Estes factos, associados à escolha de Ester para rainha, bem como à recusa de Mardoqueu se prostrar perante Haman, levaram este funcionário do rei a tentar vingar-se dos judeus. Por isso, Haman falou ao rei Assuero da existência de «um povo, disperso e separado dos outros, cujas leis são diferentes das dos outros povos e que não observa a lei do rei». Assim, recomendava a Assuero que «desse ordens para o extreminar», oferecendo-se para fazer uma doação ao tesouro real caso o rei aceitasse; este acedeu, e expediu um édito para as províncias do império.
Nesse édito, depois de salvaguardar que «queria estabelecer um governo de moderação e de justiça, e procurar a quietude e a segurança, garantia da paz», Assuero afirmou que a melhor forma de o conseguir, segundo o conselho de Haman, seria «extreminar radicamente» todos os judeus. Como justificação, apenas se apontam a unicidade do povo judeu, «nação que vive totalmente isolada» e os seus costumes próprios, que poderiam «ameaçar a concórdia que reina no império». Na verdade, é bastante evidente que as principais causas desta intenção eram o ódio e a inveja de Haman.
Muito embora guerras contra israelitas e judeus sejam uma constante ao longo do Antigo Testamento, este será o primeiro registo de uma animosidade dirigida contra os judeus em particular. De facto, se as lutas contra o povo eleito eram frequentes como parte dos planos bélicos de nações vizinhas, nunca antes se empreendera a eliminação selectiva dos judeus. Este é, talvez, um infeliz pronúncio do que seria a sua história futura. Como apontamento quase irónico, «enquanto o rei bebia na companhia da Haman, a cidade de Susa estava consternada».
O capítulo 4 mostra a acção de Mardoqueu durante estes acontecimentos. «Rasgando as vestes e vestindo-se de saco, percorreu a cidade dando fortes gemidos de dor», e assim chegou ao palácio real. Ora, segundo o texto, ninguém podia estar vestido daquela forma junto ao palácio, o que chamou a atenção de alguns funcionários, que o foram contar a Ester. Esta soube, além disso, que Mardoqueu lhe pedia que intercedesse junto do rei, ao que respondeu que não teria autorização de se apresentar na sua presença sem ser chamada. Após a insistência de Mardoqueu, Ester dispôs-se a fazer o que aquele lhe sugeria, pedindo, ainda, que jejuassem por ela durante três dias.
Finalmente, a parte grega do texto apresenta duas orações, uma de Mardoqueu e outra de Ester, que permitem interpretar os acontecimentos segundo um ponto de vista mais religioso. Começando por enaltecer a omnipotência divina, Mardoqueu recorda o êxodo dos israelitas, tomando este momento de glória como ponto de partida para o seu pedido: «sê propício para com a Tua herança e transforma em alegria a nossa dor, a fim de vivermos para celebrar o Teu nome, Senhor». De facto, além de depositário das promessas messiânicas de Deus, o povo eleito fora escolhido para O louvar - «não feches a boca daqueles que Te louvam».
Já Ester, «possuída de uma angústia mortal» e coberta de luto, começa por afirmar a justiça de Deus, que castigava o povo pela sua infidelidade. Contudo, recorda que esse castigo, levado ao extremo pelos gentios, permiti-los-ia «proclamar o poder dos seus ídolos e exaltar para sempre um rei de carne». Dessa forma, além de repudiar as dignidades que o seu cargo lhe conferia, pede a Deus: «manifesta-Te no dia da nossa tribulação e dá-me coragem». Nesta última parte da oração, Ester utiliza uma linguagem salmódica para implorar a bênção de Deus e a Sua atenção para com o povo judeu, bem como sucesso para a sua missão.