2009-11-04

Vitória dos israelitas e cântico de Judite (14 - 16)

Ainda na madrugada em que decapitara Holofernes, Judite mandou que chamassem Aquior, para que este reconhecesse a cabeça. Ao confirmar o que Judite fizera, Aquior «acreditou firmemente em Deus, fez-se circuncidar e aderiu à casa de Israel até aos dias de hoje». No Antigo Testamento, é bastante raro virem referidas conversões - talvez o exemplo mais conhecido seja o de Rute. Por isso, a conversão de Aquior assume uma importância particular, nomeadamente se tivermos em conta que o livro a apresenta com naturalidade, sem juízos de valor. Isto mostra, de facto, que o sangue não era o único critério de pertença ao povo israelita.
Ao amanhecer, seguindo o conselho de Judite, os israelitas saíram como se fossem atacar os babilónios. Estes, ao tentarem acordar Holofernes, descobriram que ele estava morto, e que Judite fugira. Como resultado, o exército dispersou rapidamente, deixando uma grande quantidade de despojos, de que os israelitas se aproveitaram. Naturalmente, isto é mais uma vez ocasião para se dar conta da enorme estima em que o povo tinha Judite - «tu és a glorificação de Jerusalém, a grande satisfação de Israel; tu és o grande orgulho do nosso povo». É, também, motivo para se introduzir um belo cântico atribuído a Judite. Começa-se por se apresentar Deus como «o Senhor que esmaga as guerras», ou seja, um Deus de paz; de facto, Ele deu a vitória ao Seu povo sem que este tivesse de combater. Em vez disso, «fez-lhes frente pela mão de uma mulher», que «o derrotou com a beleza do seu rosto». É de uma enorme expressividade esta última metáfora; efectivamente, consiste numa valoração do sexo feminino e dos seus atributos que só encontram paralelo, possivelmente, no Cântico dos Cânticos. Na mesma linha, vem o papel dos «humildes» e do «povo fraco», que fez o inimigo retroceder; isto prenuncia os «pequeninos» do Novo Testamento. O cântico termina elogiando o poder e misericórdia de Deus.
Finalmente, o livro mostra, uma última vez, a bondade de Judite: os bens de Holofernes, que lhe couberam no saque, foram dedicados por ela a Deus; por outro lado, em memória do seu marido, Judite decidiu «permanecer viúva todos os dias da sua vida». Sem que seja demasiado forçado, a fidelidade de Judite à sua viuvez poderá ser interpretada como uma antecipação da virgindade de Maria.
Lisboa, 7 de Novembro de 2009.