2009-11-07

Ester e Mardoqueu (A,1 - A,11 . 1 - 2,18)

O livro de Ester tem a particularidade de ser formado a partir duma camada de texto hebraico e de outra de texto grego, que a edição junta numa sequência lógica; daí a numeração de alguns capítulos (texto grego) por meio de letras.

O capítulo A começa por apresentar Mardoqueu, como um «grande personagem» judeu pertencente à comunidade deportada para Susa, onde integrava a corte do rei Assuero (Xerxes) da Pérsia. Em seguida, apresenta um sonho de Mardoqueu, em que, num cenário escatológico («um dia de escuridão e trevas, tribulação, angústia e terror sobre toda a terra»), este vê dois dragões dispostos a combateram-se; isto causou medo ao «povo dos justos», que clamou a Deus, até que «uma pequena fonte se transformou num grande rio» e «os que estavam na humilhação devoraram os grandes». Este sonho será retomado no final do livro, onde Mardoqueu conseguirá interpretá-lo à luz dos acontecimentos narrados.
Já no texto hebraico, o capítulo 1 descreve um «banquete de sete dias» que o rei Assuero decidiu dar a todos os habitantes da sua capital. Depois de descrever o fausto, tanto do palácio como da bebida, relata-se que o rei mandou chamar a rainha Vásti, sua mulher, que em simultâneo oferecia um banquete às mulheres de Susa. Ora, facto inédito no Antigo Testamento, uma mulher decidiu recusar cumprir as ordens do seu marido, não comparecendo na sua presença. Depois de tomar conselho com os seus sábios, Assuero decidiu que «Vásti não apareça mais diante do rei; e que o rei confira o título de rainha a outra mais digna do que ela». De facto, Vásti estava a por em causa um dos fundamentos daquelas sociedades, o da obediência da mulher ao marido, o que comprometia toda a organização social. De qualquer forma, é importante observar em Vásti um gesto de dignidade actual - optando entre ser exibida pelo marido ébrio ou preservar a sua honra, a rainha decidiu por esta última, mesmo conhecendo as consequências que tal podia ter.
Entretanto, Assuero mandou que «todas as jovens virgens de de belo aspecto» de todo o seu império fossem levadas à sua presença; entre estas incluía-se Ester, parente e filha adoptiva de Mardoqueu, que o livro apresenta como «bela de porte e de formoso aspecto». O texto descreve detalhadamente como decorria o processo de escolha por parte do rei. O que é relevante é que, em relação a Ester, Assuero «amou-a mais que a todas as outras mulheres», tomando-a como esposa e proclamando-a rainha; em seguida, promoveu um grande banquete no seu palácio. Aqui, é de notar este facto duplamente excepcional: por um lado, uma judia tornou-se rainha da Pérsia; por outro, uma judia casou-se com um gentio. Aparentemente, e por se situar num contexto histórico mais recente que os anteriores, este livro privilegia o primeiro aspecto.