2009-09-04

Viagem de Tobias para a Média (4 - 6,9)

Para se propiciar a decisão de Deus expressa na secção anterior, Tobite decidiu pedir a Tobias para levantar «dez talentos de prata que depositara junto de Gabael, na Média», que serviriam para remediar a sua má situação económica. Antes da viagem, porém, Tobite deu a seu filho alguns conselhos, ao estilo de um testamento espiritual. Em primeiro lugar, pediu-lhe que tivesse sempre em atenção a sua mãe Ana - «pelos muitos trabalhos e perigos pelos quais passara por ele». De facto, em todo o livro é evidente o grande amor que envolve este casal; em caso de morte de Tobite, naturalmente, cabia ao seu filho o dever de zelar por ela. Este conselho, tal como os restantes, recorda-nos o estilo sapiencial dos livro dos Provérbios, por exemplo. Em seguida, Tobite exorta o filho à caridade, o que vem resumido na fórmula «a esmola é, aos olhos do Altíssimo, uma dádiva sagrada de grande valor, que aproveita a todos os que a oferecem». Aliás, as acções de Tobite mostram que ele seguia com grande rigor este princípio. Em relação com a caridade, surge a justiça social - «a sua medida mínima», no dizer de Paulo VI; esta vem expressa, por exemplo, quando Tobite aconselha o filho a pagar prontamente o salário dos operários. Nesta secção, vem uma passagem curiosa, de significado obscuro: «Põe o teu pão e o teu vinho sobre a sepultura do justo». Segundo a edição, é improvável que se refira ao culto idolátrico dos pagãos, que ofereciam alimentos junto do cadáver (prática já referida em Deuteronómio 26), sendo mais plausível que se trate dum banquete que, por solidariedade, se oferecia àqueles que choravam um morto; este costume vem referido, por exemplo, em Jeremias 16, «0 banquete para consolar o que chora por um defunto». Enfim, depois de exortar Tobias à endogamia, como princípio identitário do povo israelita desde os antigos patriarcas, Tobite encoraja-o a preparar a viagem, procurando um homem confiável que o pudesse auxiliar.
Este homem de confiança vai ser o arcanjo Rafael, disfarçado de homem, que como vimos anteriormente tinha atribuída a dupla missão de auxiliar a Tobite e a Ana. A respeito do arcanjo Rafael, é importante referir que ele pretence, com Miguel e Gabriel, ao conjunto dos arcanjos que são nomeados na Bíblia católica; no caso de Rafael, este é referido apenas no presente livro de Tobite. De acordo com algumas fontes, e condizendo com a sua acção, encontra-se relacionado com a Medicina, casais e viajantes. Ora, quando Tobias saiu a procurar alguém que o acompanhasse, depara-se com Rafael que, como já foi referido, se encontrava disfarçado de homem. Mostrando-se agradado, Tobias foi apresentar o homem ao seu pai, que procurou saber sobre as suas origens. Por isso, o anjo nomeou-se Azarias, ainda parente de Tobite - que confiou nele e o mandou com o filho. Neste despedida, é notável o desejo que Tobite formula: «que o anjo de Deus vos acompanhe sãos e salvos».
Nesta despedida, é também de notar o medo que Ana tinha de perder o seu filho, e que esta expressa com «Oxalá nunca tivesse existido esse dinheiro, por causa do qual ficamos sem o nosso filho». Tobite, no entanto, conseguiu acalmá-la, referindo novamente a companhia do anjo.
Na viagem para a Média, logo ao final da primeira noite, ocorre um episódio bastante conhecido. De facto, ao aproximar-se do rio Tigre, Tobias viu «um grande peixe emergir da água», e o anjo ordenou-lhe que o apanhasse. Depois, que guardasse «o fel, o coração e o fígado desse peixe», já que «o coração e o fígado, queimados sobre as brasas, afugentarão com o seu fumo toda a espécie de maus espíritos e demónios, e o fel serve para ungir quem sofra de cataratas, pois com ele ficará curado». É óbvio que múltiplas interpretações simbólicas se poderiam extrair dum relato deste tipo; para já, no entanto, fica a observação que está, naturalmente, relacionado com as duas personagens da história, Tobite e Sara.
Enfim, a viagem prosseguiu, sem mais incidentes, até à Média.