2009-08-19

Histórias de Tobite e Sara (1 - 3)

Após dar conta da restauração de Jerusalém, a sequência dos livros históricos apresenta três narrativas, correspondentes às suas três personagens principais - Tobias, Judite e Ester.
O livro de Tobite começa por caracterizar sua vida, descrevendo um homem profundamente bom e crente. De facto, além de todos os rituais religiosos («Eu era o único que ia muitas vezes a Jerusalém, durante as festas, conforme está ordenado a Israel por preceito eterno»), Tobite desempenhava numerosas obras de misericórdia para com os seus irmãos («... dava muitas esmola aos meus irmãos, fornecendo pão aos esfomeados e vestindo os nus, e se encontrava alguém da minha linhagem, atirado para junto dos muros de Nínive, dava-lhe sepultura»). A respeito desta última acção, é interessante notar que o texto a reforça por várias vezes, apresentando-a como causa de perseguições sofridas por Tobite, que este acabou por conseguir superar.
No capítulo 2, o livro apresenta um episódio que é bem exemplificativo do carácter de Tobite. No dia em que se celebrava a festa do Pentecostes, «ao ver a mesa coberta por tantas comidas finas», Tobite pediu que o seu filho Tobias procurasse «um pobre que fosse de coração fiel», para que «participasse da sua refeição». Isto lembra-nos, embora apenas na forma, da parábola do banquete nupcial (Mateus 22), segundo a qual um rei, ao ver que os convidados faltavam ao banquete que preparara, mandou chamar «todos os que encontrassem às saídas dos caminhos».
De qualquer forma, ao sair para procurar um comensal, Tobias encontrou um cadáver estrangulado; ao comunicá-lo ao seu pai, este refere: «lavei-me e almocei com tristeza, recordando-me das palavras do profeta Amós (...). E eu chorei.» Segundo as regulamentações israelitas, acabou por enterrar o cadáver, apesar do perigo que corria ao fazê-lo. Toda esta atitude de Tobite é profundamente comovente; de facto, tanto na forma como a tristeza é manifestada, como pelo zelo humano ao enterrar o cadáver, Tobite volta a mostrar-se um israelita justo e bom.
Serve todo este contexto para contrastar com o episódio que se segue. De facto, um pouco à semelhança de Job, também Tobite foi submetido a duras provas ao seu bom carácter. Segundo o texto, ao repousar ao ar livre, «os pássaros deixaram cair nos meus olhos excremento quente, dando origem a umas manchas brancas. Procurei os médicos para me tratarem. Contudo, quanto mais me aplicavam medicamentos, mais se me cegavam os olhos por causa das escamas, até que perdi totalmente a vista». Este facto, como é natural, impedia Tobite de trabalhar; além disso, à época, a cegueira era tida socialmente como maldição e, deste modo, os cegos encontravam-se numa posição socialmente criticável; na verdade, o texto acrescenta mesmo que era Ana, a sua mulher, que sustentava Tobite com o seu trabalho.
Numa fantástica e sincera oração, contudo, Tobite volta-se para Deus. Recordando, uma vez mais, certas passagens do livro de Job, a oração começa por reconhecer a infinita justiça de Deus, salvaguardando que o estado contemporâneo de Tobite deveria ter alguma causa: «Agora, trata-me segundo as minhas culpas e as culpas dos meus pais». No entanto, apesar de manifestar confiança em Deus, o autor não resiste a maldizer a sua própria vida, em termos que nos tocam bastante: «Assim, faz comigo o que quiseres. Dá ordem para que a minha vida me seja tirada, de forma que eu desapareça da face da terra e me converta em pó: porque para mim é melhor morrer do que viver, pois tive de ouvir ultrajes e mentiras. (...) Senhor, permite que eu seja libertado desta angústia, faz-me chegar à morada eterna». Nesta parte final, é visível que, mesmo em desespero, o final da vida é sobretudo visto como a passagem para um estado melhor, e não um mero meio de deixar as dificuldades do presente.
Em situação paralela à de Tobite, está a de Sara, outra exilada israelita. De facto, «ela fora dada como esposa a sete maridos. Mas Asmodeu, um demónio maligno, matara-os antes que se pudessem aproximar dela como esposa.» A respeito de Asmodeu, algumas pesquisas informais mostram que este é um demónio associado à Luxúria, o que está de acordo com este episódio. Naturalmente, para Sara, isto foi causa de uma tristeza profunda, não só por impedi-la de dar uma descendência ao seu pai, mas também pelas provocações que tinha de suportar. Isto levou-a, em primeiro lugar, a considerar o suicídio, mas reconsiderou por amor à dignidade do seu pai; assim, tal como Tobite, pede que Deus lhe retire a vida: «Manda que eu seja retirada da terra, para que jamais ouça tais opróbrios»; no entanto, termina a oração com uma prova de confiança - «se, porém, não ma quiseres tirar, Senhor, escuta-me na minha angústia».
O capítulo termina dando conta da resolução de Deus, relacionando as duas histórias anteriores: «Enviar Rafael para os curar: tirar as escamas brancas dos olhos de Tobite (...) e dar Sara como esposa a Tobias, expulsando dela Asmodeu, pois a Tobias competia tomá-la para si». Naturalmente, isto será desenvolvido adiante.