Concluída a restauração das muralhas de Jerusalém, e no seguimento da organização da comunidade feita por Esdras, no tempo de Neemias também se fizeram importantes reformas, quer de carácter civil, quer religioso.
Desde logo, Neemias decide por termo à situação de injustiça a que a reconstrução das muralhas conduziu o povo. De facto, a contribuição exigida a todos levou ao empobrecimento dos que já eram os mais pobres, e que se viram numa situação humilhante: «temos que vender os nossos filhos e as nossas filhas, e algumas delas já são escravas». Por esta razão, Neemias ordenou aos mais ricos que devolvessem quer os bens que os pobres lhes tinham vendido, quer o que tinham ganho através de juros; aliás, mais à frente, o texto acrescenta que os mais ricos também fizeram importantes donativos para o templo. Além disso, o próprio Neemias deu o exemplo, prescindindo das subvenções a que tinha direito por ser governador.
No capítulo 7, o livro apresenta uma lista, semelhante à de Esdras 2, enumerando os judeus que tinham regressado do exílio. É de notar, por exemplo, o reduzidíssimo número de levitas que, aparentemente, perderam grande parte da importância que tinham logo após a saída do Egipto. Por outro lado, na linha da ortodoxia deste período de restauração, dá-se conta de alguns sacerdotes que, «por não conseguirem descobrir a sua genealogia, foram excluídos do sacerdócio». Da mesma forma que em Esdras 2, isto também resulta da incapacidade de os sacerdotes poderem consultar os urim e os tumim (dados sagrados).
Os capítulos 11 e 12 são quase inteiramente dedicados a genealogias, tanto dos habitantes da cidade de Jerusalém, segundo as suas classes, como a distribuição daqueles que optaram por habitar no campo. Aqui, é relevante o facto de, face à reduzida populaçao de Jerusalém, se ter decidido sortear um décimo dos habitantes das aldeias para a virem povoar.
O final do livro descreve mais algumas medidas tomadas por Neemias, como questões tributárias, organização dos levitas e a expulsão dos estrangeiros que viviam entre o povo, porque «ao ler-se o livro de Moisés, se descobriu um texto que ordenava que o amonita e o moabita jamais deviam ingressar na assembleia de Deus.
É neste contexto que o livro termina criticando, uma vez mais, a questão dos casamentos mistos. De facto, para Neemias, esta era uma questão extremamente importante: estava em causa a pureza do povo («purifiquei o povo de todo o elemento estrangeiro»), e os casamentos com gentios tinham sido, precisamente, o que motivara a ruína de Salomão («não foi este o pecado de Salomão?»).
No que respeita ao aspecto religioso, nos capítulos 8 a 10, o texto relata-nos aquilo que muitas vezes é tomado como modelo de uma celebração da palavra. Com efeito, começa-se por fazer a leitura da Lei: «o sacerdote Esdras apresentou a lei diante da assembleia de homens e mulheres e de todos quantos eram capazes de a compreender». Esta foi uma leitura solene, como o indica a descrição - «Esdras abriu o livro à vista de todo o povo, pois achava-se num lugar elevado acima da multidão». Além disso, e provavelmente pela primeira vez de forma tão clara, mostra-se veneração e reverência pelos textos sagrados: «Quando o escriba abriu o livro, todo o povo se levantou. Então, Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e todo o povo respondeu, levantando as mãos: "Amen! Amen!". Depois, inclinaram-se e prostraram-se diante do Senhor, com a face por terra.» Além da leitura propriamente dita, os levitas «explicavam a lei ao povo, lendo clara e distintamente o livro da Lei de Deus». Para celebrar esse facto, «o povo entregou-se a grandes alegrias, porque tinha entendido o sentido das palavras que lhes tinham sido explicadas». Como referi, esta celebração apresenta uma diferença fundamental em relação a formas de culto anteriores: com efeito, enquanto anteriormente os sacrifícios assumiam um papel preponderande, aqui é a própria palavra de Deus que tem o papel central.
Embora ainda não tenha sido referido, toda esta celebração veio no contexto da festa dos Tabernáculos, antiga solenidade que recordava os tempos passados no deserto e dava graças pelas colheitas. A sua forma de celebração primitiva exigia que os israelitas pernoitassem em tendas durante uma semana, costume que os judeus recuperaram nesta ocasião.
Associada a esta festa, dois dias após o seu último dia, surge o Yom Kippur, ou festa da Expiação. É por isso que o capítulo 10 inclui uma longa meditação, sob a forma de oração, acerca da situação miserável a que o povo chegara. Começa-se por nomear a Deus como único criador, para logo se recuperar a história do povo israelita desde Abraão - «Encontraste nele um coração fiel e fizeste com ele uma aliança, prometendo dar à sua posteridade a terra dos cananeus (...), e cumpriste a Tua palavra porque és justo». Depois, enumeram-se as bênçãos concedidas durante o Êxodo, e recorda-se a promulgação da Lei - «Desceste sobre o monte sinai, falaste-lhes do alto do céu e deste-lhes ordens justas, leis de verdade, preceitos e mandamentos excelentes»; aqui, atente-se na caracterização que se faz da Lei, na linha da veneração prestada à palavra evidente na celebração anterior. Como contraponto, o texto mostra que a resposta do povo consistiu em «encher-se de orgulho, endurecer a cerviz», ao que o «Deus de perdão, clemente e compassivo», por Sua vez, respondeu com misericórdia. Este é o esquema geral que a oração segue, passando por vários momentos importantes do Êxodo, como a distribuição do maná e da água no deserto e a conquista da terra prometida. De novo, a reacção do povo, longe de gratidão, passou por infidelidade religiosa («rejeitaram a Tua Lei, mataram os Teus profetas»), que o conduziu a um ciclo de pecado - castigo - perdão, culminando no exílio babilónico e na perda da independência: «Hoje somos escravos nesta mesma terra que deste aos nossos pais». É, portanto, com fé, que se termina pedindo a Deus que «não seja indiferente a todos os sofrimentos que nos têm afligido».
Na sequência desta longa oração, foi feito «um pacto consignado por escrito e assinado» pelos chefes civis e religiosos. Esse pacto, com a determinação geral de «caminhar segundo a Lei de Deus», centrava-se, especificamente, nalguns pontos principais. Em primeiro lugar, o respeito pela pureza do povo, com a responsabilidade de não se fazerem casamentos mistos. Em segundo lugar, a observância do descanso nos dias obrigatórios e dos anos sabáticos; aliás, Neemias veio a tomar medidas rigorosas para impedir todo o comércio ao sábado, mesmo por parte de estrangeiros. Finalmente, o dever de colaboração com as despesas e organização do templo. É fixado o valor de alguns tributos, como também se definem as funções específicas de grupos de sacerdotes e levitas.
Enfim, o livro de Neemias dá conta do início dum período de estabilidade na história do povo santo. Apesar de dependerem dos reis da Pérsia, os judeus mantinham uma considerável autonomia e viviam em paz.
Castelo Branco, 11 de Julho de 2009