O último oráculo de Ageu refere-se, explicitamente, a «Zorobabel, governador de Judá». Em primeiro lugar, é importante notar que este Zoroababel será, certamente, o mesmo que vem referido repetidas vezes no livro de Esdras - o chefe civil do povo no tempo do regresso do exílio. No entanto, há algumas leituras que o identificam com Sesbaçar - que também é referido no livro de Esdras, como líder da primeira leva de regresso, e que aparentemente descende de Joiaquin; desta forma, seria o herdeiro da casa de David. De facto, Zorobabel vem referido na genealogia de Cristo em Mateus 1.
Esta visão será um bom ponto de partida para se entender o conteúdo do oráculo. Num cenário escatológico («sacudirei os céus e a terra, farei cair os tronos dos reinos»), Deus escolhe Zorobabel: «Eu te tomarei, ó Zorobabel». Esta escolha é tanto mais singular atendendo a que se lhe segue: «e farei de ti o Meu anel de selar, porque foi a ti que Eu escolhi». Desta forma, é inequívoco que Zorobabel aparece como herdeiro pós-exílico das promessas messiânicas a David (2 Samuel 7), mostrando que Deus nunca se esquece do Seu povo. Foi por meio dele, então, que a linhagem de David chegou até Jesus Cristo, em Quem se consumaram as promessas. A propósito de «anel de selar» (na Vulgata, «et ponam te quasi signaculum»), é interessante verificar que esta expressão não é utilizada, em toda a Bíblia, para denominar ninguém mais. O anel de selar era, naturalmente, um símbolo de autoridade e verdade, utilizado por reis. A sua aplicação a Zorobabel associa-se, portanto, ao carácter da sua linhagem como transmissora da Verdade. O selo é, ainda, símbolo da força das promessas divinas: «grava-me como selo em teu coração, porque forte como a morte é o amor, implacável como o abismo é a paixão» (Cântico dos Cânticos 8).
Lisboa, 29 de Abril de 2009