2009-02-20

Regresso do Exílio (1 - 2)

O Segundo Livro das Crónicas termina com o édito de Ciro, que abria a possibilidade dos judeus regressarem do seu exílio, de forma a construírem um templo ao Senhor. O livro de Esdras começa, precisamente, pelo mesmo édito, citado em maior detalhe.
Em primeiro lugar, é importante recordar que o rei Nabucodonosor da Babilónia deportara os judeus de Jerusalém para a Babilónia, como descrito em 2 Crónicas; entretanto, Ciro II, o Grande, tornou a Pérsia independente do Império dos Medos, e acabou por conquistar também o Império da Babilónia, que incluia a Judeia. Em termos históricos, o seu reinado, bem como o dos seus sucessores, caracterizou-se por uma considerável liberdade religiosa e política, o que contribuia para manter a paz e a unidade do Império. É neste contexto que surge a publicação do seu édito.
O livro de Edras começa por referir que «para que se cumprisse a palavra do Senhor pronunciada por Jeremias, o Senhor inspirou Ciro, o qual mandou publicar em todo o seu reino o seguinte decreto». De facto, em Jeremias 29 refere-se que «Quando se cumprirem os setenta anos na Bablónia, Eu vos visitarei, a fim de realizar a promessa que vos fiz de vos trazer de novo a este lugar». Ora, esta inspiração de Ciro assume uma grande importância, já que o torna um instrumento de Deus («Digo a Ciro: "És o Meu pastor", e ele cumprirá em tudo a Minha vontade», Isaías 44).
O édito, propriamente dito, consiste em duas partes. Na primeira, Ciro apresenta-se mandatado por Deus («o Senhro, Deus do céu») para «Lhe construir um templo em Jerusalém». Na segunda, os judeus («os que pertencem ao Seu povo») são incitados a «subir a Jerusalém e construir o templo do Senhor», para o que deveriam ser «providos pelos habitantes das localidades onde se encontram» de ofertas voluntárias. Aparentemente, as suas instruções foram integralmente cumpridas. De facto, «os chefes das famílias, os sacerdotes e levitas e todos aqueles a quem Deus movera os corações, prepararam-se para ir reedificar o templo do Senhor», e «todos os que viviam nas redondezas ajudaram-nos». Para atestar a veracidade destes factos, o texto apresenta em seguida uma longa lista dos chefes dos judeus que se puseram em marcha, e que totalizavam «quarenta e duas mil e trezentas e sessenta pessoas».
A respeito deste regresso à Judeia, importa sobretudo fazer três considerações essenciais. Em primeiro lugar, este regresso significa o cumprimento da promessa geral de restauração - promessa muito frequentemente repetida na globalidade dos livros proféticos - em Isaías, por exemplo, «O Senhor terá compaixão de Jacob, voltará a escolher Israel e os estabelecerá na sua terra» - e exemplo claríssimo da misericórdia divina. Mais especificamente, é o cumprimento dos setenta anos (os «anos sabáticos» de 2 Crónicas 36) que vêm referidos, originalmente, em Jeremias 25 - «Esta terra converter-se-á em deserto e desolação e, durante setenta anos, estas gentes servirão o rei da Babilónia. Decorridos esses setenta anos, castigarei o rei da Babilónia (...)». Esses anos sabáticos correspondiam aos anos em que a terra deveria descansar das impurezas causadas pelos seus habitantes. A restauração, portanto, surge como um grande movimento de purificação e peregrinação do povo judeu.
É neste sentido que surge a segunda consideração, e que diz respeito à relação deste regresso à Judeia com o Êxodo. Efectivamente, além da semelhante marcha para tomarem posse da sua terra, verificam-se outras situações paralelas, como «farei este povo encontrar benevolência aos olhos dos egípcios; e assim, quando partirdes, não ireis de mãos vazias» (Êxodo 3), e «Todos os que viviam nas redondezas ajudaram-nos, dando-lhes ofertas voluntárias» (Esdras 1). Como outro paralelismo, vejamos como em ambos os casos o povo se encontrava cativo, e foi o próprio dominador quem ordenou que partisse.
Finalmente, numa ordem mais prática, e como se verá posteriormente, este regresso foi também marcado por duas características importantes: as dificuldades no estabelecimento e na própria organização do povo, por um lado, e por outro um excesso de zelo religioso, o que nestes capítulos se manifesta logo quando alguns sacerdotes foram excluídos das suas funções «por não terem encontrado a sua genealogia».