2009-01-02

Terceiro Isaías (56 - 66)

A edição designa desta forma os últimos capítulos do livro de Isaías, já que as evidências apontam para que tenha sido escrito por um profeta distinto dos dois anteriores. De qualquer forma, o seu conteúdo enquadra-se em dois temas principais: a salvação / perdão dos crentes e o julgamento / castigo dos infiéis.
Desde o início, é importante esta referência a crentes em vez de judeus; de facto, mostra-se uma grande abertura de Deus aos que crêem n'Ele - «aos eunucos que guadaram os Meus sábados, que escolheram o que me é agradável e se afeiçoaram à minha aliança, dar-lhes-ei (...) um monumento e um nome eterno que não perecerá. Quanto aos estrangeiros que se converterem ao Senhor, para O servirem e amarem e serem Seus servos, se guardarem o sábado sem o profanar e forem fiés à Minha aliança, hei-de conduzi-los ao Meu santo monte, hei-de cumulá-los de alegria na Minha casa de oração. (...) "Hei-de reunir ainda outros aos que já foram reunidos"». Tendo em conta esta última parte, é evidente o desejo de Deus abrir a Sua salvação desde logo aos não-judeus. Obviamente, seria Jesus Cristo a vir cumprir definitivamente estas palavras.
Por contraposição aos crentes, o texto critica os pagãos e os judeus idólatras, a quem promete um castigo duro («A vingança é a Sua veste de guerreiro»). No entanto, também a estes é deixada a esperança de reconciliação: «Não quero contender eternamente, nem me irritar para sempre». Para tal, é necessária uma verdadeira conversão, «O jejum que Me agrada é este: libertar os que foram presos injustamente, (...) quebrar toda a espécie de opressão, repartir o pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar os irmãos.» e «se te abstiveres de trabalhar ao sábado, (...) consagrando-o à glória do Senhor; se o solenizares (...), então, encontrarás a tua felicidade no Senhor». Na verdade, centrando os deveres do crente em dois, para com os seus irmãos (o jejum), e para com o Senhor (o sábado), o texto deixa-nos bastante próximo dos ensinamentos de Jesus Cristo.
A parte final do livro anuncia, duma forma emocionada, a restauração gloriosa de Jerusalém: «Levanta-te e resplandece, Jerusalém, que está a chegar a tua luz! A glória do Senhor amanhece sobre ti!». A esta nova cidade afluiriam muitos povos («os navios de Társis abrem a marcha, para trazer de longe os teus filhos»), que teriam nela o seu modelo («as nações caminharão à tua luz»). Como motor de tudo isto estaria o Senhor («O Senhor será a tua luz eterna, o teu Deus será o teu esplendor»), movido pela Sua pura bondade («Eu sou o Senhor, e tudo isto em breve o realizarei»).
É este o ponto do texto que contém a passagem que Jesus Cristo aplicou a Si próprio quando abriu a Escritura na sinagoga (Lucas 4): «O espírito do Senhor Deus está sobre Mim, porque o Senhor Me ungiu: enviou-Me para enviar a boa-nova aos que sofrem, para curar os desesperados, para anunciar a libertação aos exilados e a liberdade aos prisioneiros; para proclamar um ano da graça do Senhor, o dia da vingança da parte do Nosso Deus; para consolar os tristes, para coroar os aflitos de Sião (...)». Como se verifica, isto é a síntese da vida pública de Jesus. Não é de espantar, portanto, que surja numa altura em que o texto descrevia a restauração de Jerusalém, uma vez que dessa restauração fazia parte, necessariamente, uma nova esperança para os que mais sofriam. A este propósito, é bastante adequado o cântico com que o próprio profeta celebra a sua missão: «Rejubilo de alegria no Senhor, e o meu espírito exulta no meu Deus, porque me revestiu com as vestes da salvação e me envolveu num manto de triunfo. Como um noivo que cinge a fronte com o diadema, e como uma noiva que se adorna com as suas jóias.».
Esta imagem do casamento de Deus com Jerusalém, Sua noiva, é central nas próximas passagens. Além da evidente beleza, é também uma forma de justificar e descrever as motivações de Deus para com Jerusalém: Deus ama o Seu povo, representado pela sua capital(«Por amor de Sião, não me calarei»), e é por isso que quer recuperar a sua glória, enviando-lhe «o salvador».
Os capítulos seguintes assumem um tom bastante mais negativo. Em primeiro lugar, Deus mostra-Se como «o vingador», que «pisa os povos com a Sua ira e os esmaga com o Seu furor». Uma longa meditação histórica explica, precisamente, por que isto é necessário. De facto, apesar de Deus ter, em tempos, «conduzido o Seu povo, conquistando para Si um nome glorioso», o povo deixou de lhe responder. E é notável a ansiedade do profeta, «Porquê, Senhor, nos deixas extraviar dos Teus caminhos? Porque permites que o nosso coração se endureça para não te respeitar?»; mais adiante, o texto reforça esta ideia com a falta de fé, «Ninguém invocava o teu nome, nem se esforçava por se apoiar em Ti» e com o consequente sentimento de abandono («Murchávamos como folhas secas, e as nossas maldades arrastavam-nos como o vento»).
A isto, Deus responde, com elegância, que «estava à disposição dos que não me consultavam», e «estendia as mãos todos os dias a um povo rebelde», passagem citada na Epístola de São Paulo aos Romanos. De facto, Israel era culpado da sua falta de fé, tal como foi, mais tarde, culpado pela falta de fé em Jesus Cristo - daí que Este passasse a levar a boa-nova aos pagãos. Apesar desta culpa - e esta é uma ideia repetida exaustivamente ao longo do livro -, «de Judá sairá o herdeiro das Minhas [de Deus] montanhas», «por amor aos Meus servos», ao pequeno número dos que acreditavam n'Ele.
É neste contexto que, na parte final do livro, se anuncia «Olhai, Eu vou criar um novo céu e uma nova terra (...) uma Jerusalém cheia de alegria e um povo cheio de entusiasmo», ao que se contrapõe o Senhor a «desafogar a Sua cólera num incêndio e a Sua ameaça em chama ardente». Portanto, o livro de Isaías termina mostrando este contraste sempre presente entre os que crêem, e serão recompensados, e os infiéis, e respectivo castigo (fortíssima imagem final, «Os seus vermes não morrem e o fogo que os devora não se apaga»). A propósito da recompensa, surge ainda uma bonita personificação de Sião («Antes das contracções do parto, ela deu à luz, antes de sentir dores, teve um filho») que, reportando-se neste caso à geração de um novo povo de Israel, poderá ser também uma alusão velada à gravidez da Virgem Maria. E é interessante esta analogia com que o livro termina: «assim como os novos céus e a nova terra, que vou criar, subsistirão diante de Mim, assim também subsistirá a vossa posteridade e o vosso nome».
Lisboa, 20 de Fevereiro de 2009