Não será abusivo considerar-se que, no Quarto Cântico, se medita na consumação da missão do servo, que acaba por ter um carácter surpreendente. Na verdade, começa logo com uma imagem fortíssima e, simultaneamente, paradoxal: «Olhai, o meu servo terá êxito, será muito engrandecido e exaltado.» - exaltação que, no entanto, é feita com «rosto desfigurado e aspecto disforme». De facto, são estas «coisas inenarráveis e inauditas» - completamente inesperadas para os que aguardavam a sua vinda - que levam o texto a perguntar, «Quem acreditou no nosso anúncio?».
Tomando isto como ponto de partida, o cântico tenta explicar por que razão terá Deus querido submeter o servo a tamanhas provações («vimo-lo como alguém cheio de dores, habituado ao sofrimento»), para logo o justificar com «na verdade, ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores». De facto, «foi ferido por causa dos nossos crimes, esmagado por causa das nossas iniquidades». E é neste ponto que é expressa, de forma sublime, a verdadeira missão do servo: «Aprouve ao Senhor espagá-lo com sofrimento, para que a sua vida fosse um sacrifício de reparação.» e «O castigo que nos salva caiu sobre ele».
Na verdade, até aqui a missão do servo era expressa em termos de levar aos povos a salvação; daqui em diante, sabe-se que o servo, mais que quem dá a conhecer a salvação, é ele próprio essa salvação. E o texto explica-nos como: Deus aceita a vida do servo como um «sacrifício de reparação», que suportou as culpas de todos os homens. Recorde-se a importância que era dada nesta época aos sacrifícios rituais. E é este o principal elo entre a história da salvação pré e pós-cristã - Jesus Cristo é o cordeiro de Deus, prometido pelos profetas e que, pelo Seu sacrifício voluntário, veio redimir a Humanidade e levar a todos os homens a salvação - «foi contado entre os pecadores, tomando sobre si os pecados de muitos».
De resto, este Quarto Cântico é riquíssimo em passagens que encontraram a sua realização plena no Evangelho, nomeadamente nas narrativas da Paixão. É o caso da alusão às chagas («fomos curados pelas suas chagas»), da Sua morte entre dois ladrões («foi-lhe dada uma tumba entre os malfeitores»). É o caso, finalmente, da própria Ressurreiçao, «por causa dos trabalhos da sua vida verá a luz».
Quanto ao mais, a restante parte do livro retoma alguns temas que já foram abordados. Merece especial destaque, contudo, uma secção mesmo no final deste segunto livro. Em primeiro lugar, apresenta uma elegante afirmação da transcendência divina, «Tanto quanto os céus estão acima da terra, assim os Meus caminhos são mais altos que os vossos, e os Meus planos, mais altos que os vossos planos».
Em segundo lugar, uma bela caracterização do Verbo divino e respectiva missão, que encontra paralelo no Evangelho: «Assim como a chuva (...) não volta para o céu senão depois de empapar a terra, de a fecundar e fazer germinar, (...) o mesmo sucede à palavra que sai da Minha boca: não voltará para Mim vazia, sem ter realizado a Minha vontade e sem cumprir a Minha missão». Estas palavras lembram-nos a parábola do semeador, quando Jesus explica que «aquele que recebeu a semente em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende: esse dá fruto (...)». Apesar da diferença na finalidade própria de cada alegoria, é notável constatar-se que a missão da palavra é fazer germinar, ou dar fruto. Na verdade, enquanto a primeira o afirma textualmente, a segunda dá-o por adquirido, e acrescenta uma condição para que a palavra cumpra a sua missão: que quem a recebe seja a «boa terra» - ou seja, que esteja disposto a praticá-la. De facto, Deus propõe-nos - sem nos impor.