O Terceiro Cântico do Servo, pelas suas próprias palavras, caracteriza o cumprimento da missão que foi descrita no Segundo Cântico. Com efeito, começa por explicar como Deus fez da sua palavra «uma espada afiada»: «ensinou-me o que devo dizer, para dar palavras de alento aos desanimados». E, além das palavras de alento, o servo aprendeu também a obedecer ao seu Deus: «O Senhor Deus abriu-me os ouvidos, e eu não resisti, nem recusei». É neste contexto de abertura total à palavra de Deus que o servo cumpre a sua missão.
Para tal, «aos que me batiam apresentei as espáduas, e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me ultrajavam e cuspiam». Nesta passagem, vê-se naturalmente predito o episódio da Paixão do Senhor em que Cristo sofreu estes ultrajes. Além disso, contudo, é ocasião para se reflectir da necessidade deste sofrimento para o cumprimento da missão de levar «a salvação de Deus aos confins da terra». Na verdade, ao contrário do Segundo Cântico, no Terceiro a missão do servo é cumprida no meio dum ambiente adverso e mediante sacrifício deste. A sua necessidade não pode deixar de causar certa perturbação; quanto a mim, só pode ser entendida se se tiver em conta que esse sofrimento não estava nos planos originais de Deus, mas foi necessário devido à maldade e falta de fé dos homens. É esta falta de fé a causa da má recepção de que o servo foi alvo.
De qualquer forma, em contraste com este sofrimento, o servo apresenta em seguida a confiança total que deposita em Deus: «Mas o Senhor Deus vem em meu auxílio; por isso não sentia os ultrajes.» e «O meu defensor está junto de mim». Por esta fé ser tão clara e simultaneamente tão natural, é difícil acrescentar-se o que quer que seja. De qualquer forma, note-se uma vez mais como esta confiança foi completamente manifestada durante a Paixão do Senhor.
Finalmente, na parte final do cântico, um convite bastante interessante: «Quem dentre vós teme o Senhor e escuta a voz do Seu servo? Mesmo que caminhe nas trevas, privado da luz, confie no nome do Senhor e firme-se sobre o Seu Deus». Quem será aquele que, embora tema o Senhor, caminha nas trevas? Provavelmente, somos todos nós, quando a falta de fé nos assola a alma; de facto, «privado de luz» pode bem associar-se a esta falta de fé. Mesmo neste caso, segundo o texto, devemos depositar uma confiança racional no Senhor, tendo esperança no Seu auxílio. É isto que distingue os que «temem o Senhor» dos que «ateiam o fogo», como o texto acrescenta adiante. A estes, o Senhor reserva o castigo: «caireis nas chamas do vosso próprio fogo».
Depois de um exortação aos israelitas fiéis («vós que seguis a justiça, que buscais o Senhor»), para que estejam atentos, pois «a minha vitória está perto, a minha salvação está mesmo a chegar» e «O meu braço governará os povos» - o texto aborda a restauração de Jerusalém, como início do cumprimento destas promessas. Para tornar mais vivo esse conceito de restauração, o texto repete por três vezes a expressão «Desperta! Desperta!», referindo-se, sucessivamente, ao «braço do Senhor», a Jerusalém e a Sião. É pelo júbilo com este facto que o texto canta: «Que formosos são sobre os mones os pés do mensageiro que anuncia a paz, que apregoa a boa-nova e que proclama a salvação!».