2008-11-24

Segundo Cântico do Servo (49 - 50,3)

Ao contrário do que se passa com o Primeiro Cântico do Servo, o texto põe as palavras do Segundo Cântico na boca do próprio Servo, como se, neste caso, ele já tivesse aparecido; de facto, se o primeiro anuncia a sua vinda, o segundo já trata especificamente da Sua missão.
«Quando ainda estava no ventre materno, o Senhor chamou-me; quando ainda estava no seio da minha mãe, pronunciou o meu nome.» Destas palavras de abertura do cântico, sobressai imediatamente a chamada, um evento que permite antever no servo um grande profeta. De facto, os profetas iniciam geralmente os seus livros com a chamada que Deus lhes fez; neste caso, a diferença está no facto de a chamada ter acontecido logo no seio materno (como se acrescenta mais adiante, «O Senhor declara-me que me formou desde o ventre materno, para ser o Seu servo») - o que está de acordo com a grandeza e a especificidade deste profeta.
Associada à chamada dum profeta, vem a atribuição, da parte de Deus, de uma missão. Neste caso, esta é bastante clara: «Fez da minha palavra uma espada afiada, escondeu-me na concha da Sua mão. Fez da minha mensagem uma seta penetrante, guardou-me na Sua aljava.». Além da óbvia valoração da palavra, é evidente também este pormenor: logo a seguir à atribuição da missão, o servo é paradoxalmente colocado num espaço de resguardo, donde parece não poder exercer a sua missão. Isto está de acordo com o início tardio da vida pública de Jesus Cristo.
No seguimento do Primeiro Cântico, com referência à missão dúplice do servo («aliança de um povo e luz das nações»), este desenvolve essa ideia de forma intensamente expressiva: «Não basta que sejas Meu servo, só para restaurares as tribos de Jacob e reunires os sobreviventes de Israel. Vou fazer de ti luz das nações, para que a Minha salvação chegue aos confins da terra». A clareza desta explicação deixa pouca margem para dúvidas: o servo vem para levar a salvação de Deus a toda a humanidade. É por isso que o cântico refere: «Israel, tu és o Meu servo, em ti serei glorificado»; na verdade, é na salvação de todos os homens que reside a glória de Deus.
Finalmente, temos como que um desabafo do servo, que vem na linha do servo sofredor dos cânticos posteriores: «Em vão me cansei, em vento e nada gastei as minhas forças». A isto, o próprio servo dá a resposta: «o meu direito está nas mãos do Senhor, e no meu Deus a minha recompensa». Esta é a atitude do servo que se submete inteiramente à vontade do Senhor, e não rejeita a missão que lhe foi confiada.
Após o cântico, o texto continua a desenvolver a missão atribuída ao servo; esta é, agora, «dizer aos prisioneiros: "Saí da prisão!" E aos que estão nas trevas: "Vinde à luz!"». Não é difícil reconhecer, neste ponto, a cura do cego operada por Jesus Cristo.
Finalmente, Deus reforça a promessa de restauração de Sião, numa secção que acaba por ter fortes imagens relativas ao castigo dos seus inimigos: «Farei comer aos teus opressores as suas próprias carnes. Que se embriaguem com o seu próprio sangue como se fosse vinho». Por sua vez, estas imagens estendem-se aos próprios judeus, surgindo como castigo para a sua falta de fé: «Olhai: com uma simples ameaça seco o mar, transformo os rios em deserto, por falta de água apodrecem os seus peixes, mortos de sede. Visto o céu de negro e cubro-o com uma veste de luto».