2008-10-22

Primeiro Cântico do Servo (40 - 48)

Esta segunda parte do livro de Isaías - de acordo com a edição, escrita por um profeta diferente do primeiro - vai mais longe na revelação que faz da história da salvação, sendo, portanto, frequentemente citada no Evangelho. Começa logo com a promessa de perdão, «estão perdoados os vossos crimes, pois [Jerusalém] já recebeu da mão do Senhor o dobro do castigo por todos os seus pecados». Em seguida, a passagem que os Evangelhos citam ao introduzir a pregação de João Baptista: «Uma voz grita: "Preparai no deserto o caminho do Senhor, aplanai na estepe uma estrada para o nosso Deus".» Tem-se, assim, o contexto que servirá para apresentar os «Cânticos do Servo», quatro poemas centrais nesta parte do livro. O seu conjunto forma uma inequívoca catequese da missão e vida de Cristo, o «servo do Senhor».
No primeiro cântico, o profeta anuncia, na voz de Deus, a vinda de Cristo: «Eis o meu servo, que Eu amparo, o meu eleito, que Eu preferi». E logo aqui temos duas características essenciais do messias: servo e eleito; de uma forma simplista, é evidente o seu significado. Servo porque veio fazer a vontade do Senhor, e eleito porque, tal como os reis de Israel, é o escolhido, o ungido (messias) do Senhor. Em seguida, vem a sua missão: «Fiz repousar sobre ele o Meu espírito, para que leve às naçoes a verdadeira justiça»; é relevante, aqui, a referência que se faz às nações. Na verdade, isto significa que o servo veio trazer a justiça aos povos pagãos, e não só aos judeus e, neste sentido, a verdadeira justiça será a verdadeira e universal lei. Isso mesmo é reforçado adiante, quando se refere que o servo «estabelecerá na terra o direito, as leis que os povos das ilhas esperam dele». Neste ponto, é interessante esta referência à esperança dos povos pagãos, provavelmente em relação a algo que nem eles sabiam bem de que se tratava.
Retomanto o início do canto, as palavras «fiz repousar sobre ele o Meu espírito» levam-nos imediatamente para a ocasião do baptismo do Senhor, e indicam de forma clara a comunhão espiritual entre o Pai e o Filho. Isso mesmo é apoiado quando se afirma que o seu anúncio será feito «com toda a fidelidade». Finalmente, o texto sublinha bem a ideia de servo manso e sofredor: «Ele não gritará, não levantará a voz, não clamará nas ruas. Não quebrará a cana rachada, não apagará a mecha que ainda fumega.» Enquando que o significado da primeira frase é bastante inequívoco, o da segunda é um pouco mais duvidoso. Ainda assim, permito-me associar o povo judeu à cana rachada e à mecha que ainda fumega. De facto, Jesus não veio para combater os judeus; por outro lado, existem também algumas interpretações que encaram este ponto como uma alusão à parábola do trigo e do joio, que não deverão ser segregados senão quando se puderem distinguir inequivocamente.
Depois de nova referência à justiça, «chamar-te-ei por causa da justiça», o texto nomeia o servo de Deus: «designei-te como aliança de um povo e luz das nações». Em relação a aliança de um povo, verifica-se que o servo, tal como Jesus, é a Nova Aliança, em primeiro lugar com os judeus, e depois com todo o mundo (luz das nações). É interessante esta distinção que o texto faz entre a aliança para os judeus e luz para as nações: se por um lado se mostra o servo como símbolo da aliança ritual, tão importante para os judeus, por outro abre-se a porta a todos os povos para essa aliança, a quem se entrega o servo como modelo (luz). Finalmente, uma descrição da actividade imediata desse servo: «para abrires os olhos aos cego, para tirares do cárcere os prisioneiros, e da prisão, os que vivem ns trevas».
A propósito da cegueira, que é um tema bastante repetido nesta parte do livro, é interessante esta aparente contradição: «Cegos, olhai e vede! Quem é cego senão o meu servo?» e «Tu vias muitas coisas, mas sem as entenderes». Se é fácil associar a cegueira com o povo, tal como o profeta o nomeia, e o que está de acordo com «ver sem entender», já se torna mais difícil perceber porque se diz que é o próprio servo que é cego. Poderá ser uma forma de associar o servo ao próprio povo, mas isso é fonte de mais dificuldades de interpretação. Ainda nesta secção, uma descrição muito feliz da missão do Servo: «O Senhor, por amor ao Seu plano, queria glorificar e engrandecer a sua lei».
Contrapondo-se ao que foi referido no início a propósito da identidade do Servo, nesta parte do livro aquele parece bastante mais associado ao povo israelita: «Lembra-te destas coisas, Jacob, porque és o Meu servo, ó Israel. Formei-te, como Meu servo, ó Israel». Isto vem num contexto de crítica às práticas idolátricas, e é pretexto para abordar a gratuidade dos dons divinos, expressa magistralmente nesta oposição: «Não exigi de ti ofertas, nem te importunei pedindo-te incenso. Antes, me atromentavas com os teus pecados e me cansavas com as tuas iniquidades. Eu, porém, apagava as tuas faltas, por Mim, não me lembrava dos teus pecados». Na verdade, Deus dá desinteressadamente, e é por isso que concedeu ao povo o regresso do exílio da Babilónia.
Como instrumento deste regresso, ponto muito importante na história da salvação, o texto nomeia o rei Ciro, da Pérsia, a quem Deus não hesita em chamar «o Seu ungido». Como já se constatou, foi este rei quem, ao conquistar a Babilónia, concedeu aos judeus que regressassem a Jerusalém. Segundo o texto, portanto, Ciro tornou-se no principal instrumento pelo qual Deus cumpriu as promessas imediatas de regresso do exílio. O facto de Ciro ser um rei pagão, curiosamente, não constitui problema, já que o próprio texto assume, por duas vezes, «embora [Ciro] não Me conheças». Isto pode ser entendido como uma forma de harmonizar a história política com a religiosa, ou é mesmo um sinal de abertura de Deus às comunidades pagãs.
É ainda nesta intervenção de Deus que surgem as célebres palavras «Rorate cæli desuper, et nubes pluant iustum. Aperiatur terra, et germinet salvatorem.», que a edição traduz «Destilai, ó céus, lá das alturas o orvalho, e que as nuvens façam chover a justiça. Abra-se a terra para que floresça a salvação, e germine igualmente a justiça.» Independentemente de se personificar ou não a justiça e a salvação (justo e salvador), a beleza desta prece é considerável; de facto, é uma associação magistral entre a natureza, criada por Deus, e o seu próprio criador. Mas é, sobretudo, uma forma lindíssima de implorar a vinda do Senhor.
Finalmente, o texto reforça longamente a veemente crítica aos deuses pagãos, que contrasta com o Senhor; «Na verdade sois um Deus escondido, o Deus de Israel, o salvador». É bastante interessante esta designação de Deus escondido; ela insere-se na linha de ridicularização dos ídolos, criados por mãos humanas, e completamente distantes da transcendência divina, de um Deus invisível que, ao contrário dos ídolos, consegue manifestar o Seu poder.