Depois de algumas imagens interessantes a predizer a ruína da Samaria («Ai da Samaria, coroa soberba dos ébrios de Efraim! Ai da flor caduca, jóia do seu atavio, que está na cabeça de um fértil vale»), esta secção contém alguns temas com importantes repercussões no Evangelho. Em primeiro lugar, críticas aos sacerdotes e profetas judeus (que «cambaleiam por causa do álcool»), já que não ouvem a voz do profeta - «Quem julga ele que está a ensinar?». Isto é, naturalmente, comparável à atitude soberba dos fariseus, que ignoravam os ensimanentos de Cristo confiantes na sua própria erudição. Talvez por isso, «é com uma linguagem balbuciante, com uma linguagem estranha que o Senhor falará a esse povo»; também as parábolas de Jesus Cristo eram, para os judeus, essa linguagem estranha, como se verá na devida altura.
Em seguida, desenvolve-se outro tema de grande preponderância no Evangelho: a pedra angular, que já tinha sido introduzida no capítulo 8 - e que terá novas referências ao longo dos livros proféticos. No capítulo 8, diz-se: «O Senhor do universo será um santuário, mas também a pedra de tropeço, a rocha de precipício. Muitos tropeçarão nela, cairão e serão despedaçados». Ao mesmo tempo, o Senhor é qualificado também de «laço e cilada», no qual muitos «serão enredados e ficarão presos». Temos, portanto, que uma característica importante desta pedra é, precisamente, a de pôr à prova ou seja, testar / julgar; pelas evidências, verifica-se que é uma prova difícil («muitos tropeçarão»), ou um julgamento exigente. No entanto, também podemos interpretar doutra forma, e que se associa mais à linha do Evangelho: não é a prova que é difícil; é, antes, a disposição dos que recebem a mensagem do Senhor que os coloca numa situação de dificuldade, por falta de fé.
No entanto, é o capítulo 28 que apresenta a dimensão positiva desta pedra: «Vou colocar em Sião uma pedra que vos ponha à prova. Será uma pedra preciosa, angular, bem firme. Aquele que confiar nela não tropeçará». Desta forma, além de se reforçar que a pedra irá por à prova os seus destinatários, mostra-se que, quem confiar nessa pedra, não «tropeçará». Tenha-se em conta que a pedra angular consiste na última pedra que se coloca ao construir um arco e que, portanto, fica a suportar toda a estrutura. Assim, esta pedra serve de apoio a quem nela acredita, transmitindo-lhe segurança e estabilidade. Por outro lado, veja-se a qualificação de preciosa, que por sua vez se enquadra na linha da realeza de Jesus Cristo.
É à luz destas passagens, e de outras posteriores, que devemos considerar o Salmo 118, que por sua vez será citado e aplicado a Si próprio por Jesus Cristo, questão a que atenderemos na devida altura.
O capítulo possegue com dois temas principais: com o castigo dos pecados dos israelitas e, depois, com uma alegoria muito interessante, ao estilo da literatura sapiencial, em que se associa a acção correctiva de Deus com a actividade dos agricultores. De facto, enquanto se apresentarem algumas técnicas agrícolas («Depois de ter aplanado a terra, não semeia a nigela e o cominho... ?») como fruto dos ensinamentos do Senhor («É o seu Deus quem o instrui e o ensina como deve fazer»), aproveita-se para justificar os castigos que Deus aplica ao seu povo: «Quanto ao trigo, tem que ser debulhado, mas sem ser triturado em demasia». Assim, mostra-se que a intenção de Deus é a de tornar o seu povo mais puro, ideia que será retomada, posteriormente, por Jesus Cristo.
O capítulo 29 prossegue com temas comuns ao Evangelho. De facto, a propósito do cerco de uma cidade que o texto nomeia Ariel, profetiza-se que «Qualquer visão será para vós como um livro selado», o que encontra eco no Apocalipse e também na profecia, «Ouvireis e não compreendereis». Nesta etapa, utilizam-se algumas imagens bastante ricas, como: «as tuas palavras serão como voz de fantasma proveniente do solo», e «como se dissipa um pesadelo e uma visão nocturna, assim desaparacerá a multidão das nações que atacam Ariel». Depois, uma crítica ao ritualismo hebraico, «Este povo aproxima-se de Mim só com palavras, pois o seu coração está longe de mim e o culto que me presta é apenas preceito humano e rotineiro». Estas palavras, que encontram reflexo nas críticas de Jesus aos fariseus, são também uma importante interpelação para o culto dos nossos dias. Finalmente, o capítulo termina com a promessa da restauração de Israel, vivida num ambiente de grandes prodígios - «os surdos ouvirão as palavras do livro, e, livres da obscuridade e das trevas, os olhos dos cegos verão».
Os capítulos seguintes criticam especificamente a política de alianças dos judeus, a qual conduziria ao seu castigo. No entanto, é logo aberta a possibilidade de conversão («o Senhor espera para se apiedar de vós, porque o Senhor é um Deus justo, e ditosos os que nele esperam»). É nesta perspectiva que surge a referência: «já não se esconderá mais o teu mestre. Tu o verás com os teus próprios olhos (...) Este é o caminho a seguir». Apesar do texto posterior remeter para um futuro próximo, não deixa de ser evidente a alusão à vinda de Cristo. Também nesta linha, o capítulo 32 inicia-se com «Olhai: virá um rei que reinará segundo a justiça, e os príncipes governarão com equidade (...) os olhos dos que vêem não estarão fechados, e os ouvidos dos que ouvem estarão atentos».
Enfim, o capítulo 33 aborda uma vez mais o colapso da Assíria e a restauração futura de Jerusalém. A este propósito, é muito interessante referir uma passagem que, além do valor do seu ensinamento, é também curiosa porque inclui uma enumeração bastante evidente dos três poderes políticos, neste caso concentrados em Deus: «Porque o senhor é o nosso juiz, o Senhor é o nosso legislador, o Senhor é o nosso rei, Ele é a nossa salvação». Assim, por um lado, mostra-se que devemos confiar no Senhor, uma vez que Este nos julga segundo a lei que Ele próprio nos ensina - e seguir essa lei que nos conduzirá à salvação. Por outro lado, é também um convite a que quem desempenha essas funções na terra, saiba que deverá fazer procurando a «salvação» ou, neste caso, o bem-estar, dos povos que governa.