2008-07-28

Oráculos contra as nações (13 - 23)

A profecia de Isaías prossegue com um conjunto de oráculos contra numerosas nações estrangeiras. Nesta parte, as referências messiânicas são bem menos numerosas que nas anteriores, e esperava-se a sua realização mais imediatamente. De uma forma geral, estes oráculos profetizam a destruição das nações estrangeiras, por ordem de Deus.
O primeiro e mais longo dos oráculos, que é posteriormente recuperado no capítulo 21, diz respeito à Babilónia; e é natural que assim seja, uma vez que foi este país que conquistou Jerusalém e deportou os judeus. Refira-se, também, que a Babilónia veio a ser conquistada por Ciro, rei da Pérsia, que permitiu o regresso dos judeus à sua terra. O oráculo começa por descrever a preparação de guerreiros para uma batalha, «Eu mesmo [Deus] dei ordem aos meus guerreiros consagrados: são instrumentos da minha ira (...) para devastar a terra». É neste contexto de punição que surge as primeiras referências bíblicas ao Dia do Senhor: «Estremecei porque o dia do Senhor está perto, virá como açoite do Todo-poderoso. (...) Hão-de encher-se de terror e de angústia, hão-de contorcer-se como as parturientes» e «Olhai: vem o dia do Senhor, dia de furor implacável, de ira ardente, para reduzir a terra a um deserto». Daqui, podemos desde já verificar o carácter judicial do Dia do Senhor: será o dia em que o Senhor julgará os povos consoante as suas obras. Não é de estranhar, portanto, que as descrições deste dia tenham um carácter bivalente, referindo-se mais ao castigo dos maus ou à salvação dos justos. De qualquer forma, este tema será mais desenvolvido em passagens posteriores - que se estendem até ao Apocalipse - e onde passará a ser identificado com o «fim dos tempos».
Como é natural, neste contexto, o dia do Senhor é apresentado como o castigo da Babilónia, embora sejam, desde já, utilizadas as imagens cósmicas comuns às restantes passagens, como «As estrelas do céu e as suas constelações deixarão de brilhar; o Sol há-de obscurecer-se desde o seu nascer, e a Lua não irradiará a sua luz». Como executores mais imediatos do castigo contra a Babilónia, o texto apresenta os Medos, com quem o rei Ciro da Pérsia se aliou para a sua conquista. Finalmente, uma referência aos «sátiros», aqui referidos para reforçar o estado de desolação em que a Babilónia ficaria depois do Dia do Senhor. De acordo com a edição, a tradução literal do seu nome seria «cabeludos», figuras mitológicas que vivem em lugares abandonados, e que possivelmente foram tomadas do folclore dos povos vizinhos pelos judeus.
Depois de uma breve promessa relativa ao regresso dos exilados, o texto introduz um canto satírico contra o rei da Babilónia. Neste, considera-se a Babilónia já derrotada, criticando-se este país, na pessoa do seu rei, pelo seu orgulho e soberba. «Infeliz! Foste precipitado no abismo, no mais profundo do mundo dos mortos.» Este cântico, de resto, está cheio de imagens poderosas, que contrastam o apogeu do império com a sua ruína.
O capítulo 14 termina com dois pequenos oráculos contra a Assíria e os filisteus, este último contendo uma expressão curiosa: «da estripe da serpente nascerá uma víbora e desta nascerá um dragão». Segundo julgo, é a primeira referência bíblica ao dragão, e estabelece uma relação interessante entre a serpente e o dragão - tenha-se em conta que, duma forma geral, todos eles são a materialização do mal. O oráculo contra Moab tem uma aparência mais dinâmica uma vez que, depois de uma lamentação que faz um retrato devastador do país, surgem os moabitas a pedir ajuda aos judeus, os quais, por seu turno, a negam, como castigo pela arrogância de Moab.
Já no capítulo 17, relaciona-se a destruição de Damasco com a destruição de Jerusalém; uma vez mais, um conjunto importante de comparações e alegorias mostram a calamidade que atingiria Israel, «porque esqueceste a Deus, teu salvador; no entanto, como resultado desta desgraça, «o homem olhará para o seu criador, não mais olhará para os altares portáteis que fabricou».
A respeito da Etiópia ou, mais precisamente, de Cuche, o texto assume uma posição ambivalente. Se por um lado parece anunciar castigos futuros, «é então que são cortadas as gavinhas com a podadeira», por outro todo o poema parece elogiar os etíopes, «para um povo esbelto e bronzeado, para um povo sempre temido, para uma nação sempre poderosa e longínqua». Aliás, no final diz-se que «essa nação temida que espezinha os inimigos (...) há-de trazer os seus dons ao Senhor do universo». Talvez isto possa ser devido à crença de que os reis etíopes descendiam de Salomão, ou uma referência ao futuro reino cristão da Etiópia (Axum).
No capítulo 19, o texto enumera as causas da ruína do Egipto; as dissensões internas, as catástrofes naturais e a incompetência dos chefes, como refere a edição, explicam a ruína deste povo, e recordam as pragas do tempo de Moisés. No entanto, segundo o texto, ao Egipto está reservada a possibilidade de se converter; o texto fala num templo no meio do Egipto, que poderá ser uma alusão à grande comunidade judaica de Alexandria. Por outro lado, uma alegoria em que Deus manda a Isaías que se dispa, pretende mostrar que é vã a esperança dos judeus que confiam no Egipto para os libertar da Assíria. Este tema, da confiança nos impérios vizinhos em vez da confiança no Senhor, será mais desenvolvida por profetas posteriores, tal como fora já nos livros históricos.
Em seguida, três breves oráculos, respectivamente contra Edom, a Arábia e Quedar. Depois, um oráculo contra Jerusalém, bastante difícil de interpretar; de qualquer forma, descreve-se Israel como estando numa grande festa, por saber que no dia seguinte ia ser destruída. Segundo o profeta, essa destruição dever-se-ia à falta de penitência do povo que, ao saber que iria ser atacado, preferiu confiar em si próprio e não no Senhor. Além disso, critica-se também Chebna, administrador do palácio real, a quem Deus ameaça que será destituído. Em sua substituição, Deus suscitaria Eliaquim; a respeito deste, «porei sobre os seus ombros a chave do palácio de David: o que ele abrir ninguém fechará, o que ele fechar ninguém abrirá». Como é evidente, existe aqui um notável paralelismo com a fundação da Igreja, descrita em Marcos, 16: «Dar-te-ei [Pedro] as chaves do Reino do Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu».
Finalmente, esta secção encerra com um oráculo contra Tiro e Sidónia. Como causa do seu castigo está, além do orgulho, aquilo que o texto denomina prostituição; nesta passagem, «prostituição» parece referir-se ao comércio com os outros reinos, e não tanto às práticas idolátricas. No entanto, depois do castigo, «os seus ganhos e lucros serão consagrados ao Senhor». Não é muito claro se esta consagração deixa antever uma plena conversão deste povo, ou se se referirá, antes, a um domínio dos judeus sobre eles.