2008-06-26

Livro do Emanuel (7 - 12)

De acordo com a edição, este conjunto de capítulos denomina-se Livro da Consolação ou do Emanuel. Em comparação com o anterior, é de interpretação mais difícil, e apresenta um maior número de elementos simbólicos. Em primeiro lugar, situa-se a acção no reinado de Acaz de Judá, que está sob ameaça de invasão por parte da Assíria e Israel; a este propósito, Isaías prediz a derrota de Israel e da Assíria; em seguida, surge um passo fundamental da Sagrada Escritura. Negando-se Acaz a pedir a Deus um sinal, como Este lhe ordenara, Deus responde: «Por isso, o Senhor, por Sua conta a risco, vos dará um sinal. Olhai: a jovem está grávida e vai dar à luz um filho, e há-de pôr-lhe o nome de Emanuel.» Esta promessa é referida por Mateus 1 como a que pronunciava mais claramente o nascimento de Jesus Cristo, da forma: «Eis que a virgem conceberá e dará a luz um filho; e hão-de chamar-lhe Emanuel, que quer dizer Deus connosco». Contudo, poderíamos constatar, numa leitura superficial, que esta promessa se referia, apenas, a um sinal de que se realizaria a destruição de Israel, predita pelo Senhor; este, suponho, é o sentido primário desta profecia. Isto é, ainda, corroborado pela passagem seguinte, que impõe uma limitação temporal: «antes que o menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a terra, que tu [Acaz] temes, será devastada».
De qualquer forma, toda a tradição judaica e a da Igreja, expressa inequivocamente em Mateus, viram nesta passagem o anúncio de Algo bastante mais relevante: o nascimento do Messias - o Deus Connosco. Por isso, devemos atender à enorme riqueza desta expressão. Ao longo deste texto profético, o Emanuel surge bastante associado a um messianismo real, isto é, Ele viria para devolver a liberdade política ao povo, «Sabei, ó povos, que sereis esmagados, (...) pois temos o Emanuel: "Deus-Connosco".»; seria este tipo de messianismo que esperavam muitos dos judeus contemporâneos de Cristo.
O texto prossegue com mais alusões evidentes à vinda do messias, cumpridas por Cristo: «o Senhor cobrirá de glória a Galileia dos gentios», que Mateus aplica ao ministério de Cristo na Galileia, entre outras que serão abordadas posteriormente. Depois, no capítulo 9, o nascimento de Cristo é expresso inequivocamente: «O povo que andava nas trevas viu uma grande luz»; Mateus, mais uma vez, utiliza esta passagem na sua narração. Aliás, o início deste Evangelho contém um número considerável de citações deste Livro do Emanuel que, por vezes, são ligeiramente alteradas. Tal não acontece neste caso. Também «um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado; tem a soberania sobre os seus ombros, e o seu nome é Conselheiro-Admirável, Deus herói, Pai-Eterno, Príncipe da paz. Dilatará o seu domínio com uma paz sem limites». É inútil tentar ver mais além acerca destas palavras: elas são claras, inequívocas, nelas lê-se Jesus Cristo.
Antes do capítulo 11, poema que mais uma vez alude indubitavelmente à vinda de Cristo, o Livro do Emanuel contém algumas profecias mais imediatas, a respeito da queda do reino da Samaria. Neste contexto, como resposta à soberba dos chefes do povo, o profeta anuncia a completa destruição do povo: «A cólera do Senhor faz arder o país e o povo é pasto das chamas». Depois, descreve a Assíria como o instrumento que efectiva esse castigo; no entanto, critica-a pela sua vaidade, que a conduzirá, ela própria, ao castigo. Finalmente, o texto aborda uma vez mais o tema do «resto» de Israel.
No capítulo 11, a vinda do Messias surge novamente, desta vez representada pelo tronco de Jessé: «Brotará um rebento do tronco de Jessé. (...) Sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de temor do Senhor». Aqui há a ter em conta, desde logo, a enunciação do «espírito do Senhor», com os respectivos dons, que o caracterizam: sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência e temor de Deus; segundo a edição, algumas fontes acrescentam o dom da «piedade». Neste contexto, estes dons aparentam ser o que caracteriza o Espírito, embora tal possa ser generalizado aos dons que o próprio Espírito dá.
São descritas duas grandes actuações deste Messias. A primeira, «julgará os pobres com justiça, e com equidade os humildes da terra», é mais espiritual e próxima da do Cristo que se conhece dos Evangelhos. Desta resultará uma paz plena, metaforizada nas imagens bucólicas da harmonia entre os animais, «porque a terra está cheia de conhecimento do Senhor». A segunda, mais próxima do messianismo real esperado pela generalidade dos judeus, é caracterizada pela «raiz de Jessé, estandarte dos povos, que será procurada pelas nações»; aqui, uma atenção especial à utilização do plural. Este messianismo, portanto, preconizava a restauração de Israel.
O Livro do Emanuel termina com um pequeno mas lindíssimo poema em louvor ao Senhor e às Suas obras. Este poema inclui uma promessa singela mas muito significativa pela beleza que encerra: «Tirareis água com alegria das fontes da salvação».