Estando Saul estabelecido como rei de Israel, o texto prossegue com a narrativa do seu conturbado reinado. Em primeiro lugar, descreve-se um grande feito militar de Saul, com a conquista de Jabes, que os amonitas tinham conquistado. Foi uma forma de afirmação do poder real, que levou a uma nova aclamação popular do rei, com a oferta de sacrifícios pacíficos.
Em seguida, tem-se a comovente despedida de Samuel. Com Saul elevado à realeza, Samuel decidiu apresentar contas ao povo acerca do seu governo. Como se pôde verificar ao longo de todo o texto, aquele foi impecável, o que povo confirma, sob juramento. Como resposta, numa grande anamnese, Samuel referiu os pecados do povo no passado, as acções de Deus em favor deste, e o mal que para Ele representava a existência dum rei. Este último facto foi reforçado pela visão dum milagre. De qualquer forma, Samuel tranquilizou o povo, referindo que «o Senhor, por amor do Seu grande nome, não abandonaria o Seu povo, porque jurou fazer de vós [o povo] uma nação própria». Esta afirmação também é interessante porque mostra bem o que é um juramento: é invocar o nome do Senhor, ou seja, tomá-Lo por testemunha do que se afirma. Por esta razão, Deus cumpre o juramento por amor do Seu próprio nome.
De novo se retoma o reinado de Saul, desta vez a propósito duma invasão dos filisteus. Isto vem a propósito duma questão importante para o final do reinado de Saul que consiste numa falta que este cometeu. Ora, aparentemente, e segundo o capítulo 13, esta falta correspondeu à oferta de um sacrifício de forma irregular (apesar de, em capítulos posteriores, a falta parecer ser outra). De qualquer forma, como consequência, Deus decidiu retirar o reino a Saul: isso mesmo lhe diz Samuel, acusando-o de não cumprir os mandamentos. Entretanto, o texto faz uma referência alargada aos feitos heróicos de Jónatas, filho de Saul, e do respectivo escudeiro. A invasão dos filisteus, por outro lado, foi ocasião para mostrar outra falta grave de Saul: enquanto o sacerdote consultava o Senhor, Saul impacientou-se e tomou a decisão de atacar os filisteus. Ainda assim, obteve a vitória.
Acontece que, acerca desse combate, Saul ordenara que só quando terminasse é que os israelitas poderiam alimentar-se. No entanto, o seu filho Jónatas comeu mel, referindo mesmo que Saul «fizera muito mal à terra»; o significado desta afirmação não me é claro. Por outro lado, o povo, esfomeado, acabou por matar e comer animais que tinham resultado do saque. Ofendido, Saul ordenou que esses animais fossem oferecidos em sacrifício, para que o povo não incorresse em pecado. Ora, vendo que Deus não atendia à oração do sacerdote, Saul supôs que alguém tivesse cometido um pecado; de facto, após o sacerdote lançar as sortes, verificou-se que era o seu próprio filho. Apesar da sua determinação em matar Jónatas, Saul foi demovido de fazê-lo pelo povo, atendendo às qualidades militares daquele. Estas vieram a confirmar-se num combate posterior. Sendo assim, este capítulo é estranho, não sendo clara a mensagem que quer transmitir. Com efeito, se o propósito fosse mostrar maus procedimentos por parte de Saul ou do seu filho, não relataria as suas vitórias militares em seguida.
Novamente é retomada a questão da falta. Neste caso, esta está associada ao não comprimento de uma ordem de Deus, segundo a qual o povo dos amalecitas, com os seus pertences, deveria ser votado ao anátema. Tal não aconteceu, apesar de Saul referir que os animais poupados se destinavam a um sacrifício. De qualquer forma, Deus reafirmou a Samuel a intenção de destituir Saul do Reino de Israel. Além disso, é referido que não são tanto os sacrifícios e culto externo que agradam ao Senhor, mas principalmente a obediência às Suas ordens. Uma vez que Saul não as cumpriu, merecia ser castigado.
Outro aspecto importante deste capítulo é a afirmação de Deus: «Arrependo-Me de ter feito rei a Saul». E é importante porque mostra uma faceta de sensibilidade num Deus que, no Antigo Testamento, Se mostra habitualmente severo e transcendente. «Arrepender-Se», de qualqer forma, não significa necessariamente que Deus tenha errado; mas não há dúvida de que Ele mudou de opinião. Por estranho que isso possa parecer, num Ser omnisciente, é um facto que reforça a evidência de que a liberdade que Deus dá aos homens é real e efectiva - neste ponto, talvez se tenha sobreposto à Sua própria vontade.