No final da sua vida, Samuel decidiu resignar em favor dos seus filhos, constituindo-os como juízes. No entanto, como estes eram incompetentes e corruptos, os anciãos do povo pediram a Samuel que fosse estabelecido um rei em Israel, «como o têm todas as nações». Este pedido desagradou, naturalmente, a Samuel e também a Deus; recorde-se que a questão da monarquia já tinha sido colocada antes mas Deus recusara sempre, já que só Ele era rei de Israel. No entanto, neste caso, Deus condescendeu, avisando, de qualquer forma, que a existência dum rei seria nociva, enunciando as suas desvantagens mais imediatas. Ainda assim, o povo manteve o pedido, já que o rei «administrará a justiça, marchará à nossa frente e combaterá por nós em todas as guerras».
O capítulo seguinte apresenta Saul, da tribo de Benjamim, realçando a sua beleza física. Em seguida, narra as circunstâncias que a Providência dispôs para que Saul se encontrasse com Samuel, tendo eles, depois, uma conversa. Esta conversa terminou com a unção de Saul. Este ritual assumiu, desde o início, um grande importância em Israel, sendo sinal do carácter sagrado da função real. «Samuel tomou um pequeno frasco de óleo, derramou-o sobre a cabeça de Saul e beijou-o, dizendo: "O Senhor te ungiu príncipe sobre a Sua herança"».
Creio não errar se disser que é a primeira vez em que aparece a descrição duma unção; este ritual manter-se-á até à actualidade, sendo sinal (sacramento) da consagração a uma função. Depois, Samuel enumerou os sinais que Saul viveria e que denotavam a presença do Senhor. Entre esses, destaco: «o Espírito do Senhor apoderou-se de Saul e ele pôs-se a profetizar no meio deles [dos profetas].» Após estes rituais em privado, entre Samuel e Saul, este foi apresentado ao povo. A sua selecção foi feita por sortes, o que poderá denotar uma tradição narrativa diferente da anterior. De qualquer forma, desde este momento, Saul era o legítimo rei de Israel.