O último juíz dos israelitas foi Samuel. Como em vários outros casos na Escritura, o seu nascimento foi motivo de grande alegria, porque a sua mãe Ana, estéril, fazia todos os anos uma oração pedindo que Deus lhe desse descendência. Depois duma dessas orações, um sacerdote deu-lhe algumas palavras de apoio e Samuel acabou mesmo por nascer. Todos se rejubilaram com este nascimento. Ana, em especial, ficou muito impressionada e feliz, mantendo-se em oração, e consagrando o seu filho ao Senhor, colocando-o a trabalhar no santuário («O Senhor ouviu a minha súplica. Portanto, eu também o ofereço ao Senhor, a fim de que só a Ele sirva em todos os dias da sua vida»). O capítulo seguinte inclui um cântico de Ana, cujas temáticas andam à volta do louvor e acção de graças a Deus; termina, no entanto, com um versículo nitidamente profético: «O Senhor dará o império ao Seu Rei, / E exaltará o poder do Seu ungido». Possivelmente, esta é a primeira vez na escritura em que surge o conceito de «ungido», o qual posteriormente será amplamente desenvolvido.
Enquanto Samuel servia fielmente no santuário, auxiliando o sacerdote Heli, os filhos deste último eram corruptos e praticavam o mal. Por isso, a voz dum profeta repete a referência ao ungido, desta vez de uma forma mais desenvolvida: «Suscitarei para Mim um sacerdote fiel, que procederá segundo o Meu coração e a Minha vontade. Edificar-lhe-ei uma casa sólida e duradoira, e ele andará sempre diante do Meu ungido». Se por um lado esta passagem teve aplicação imediata aquando da implantação da monarquia, com o ungido sendo o rei, é impossível não ver nela um significado mais profundo; por exemplo, Cristo e o Santo Padre.
Em seguida, temos o episódio bastante conhecido do chamamento de Samuel, que nem por isso perde a sua beleza. Efectivamente, tem-se que Samuel ouviu alguém a chamá-lo várias vezes, mas o sacerdote Heli dizia que não fora ele. Por isso, à quarta chamada, Samuel respondeu: «Falai Senhor, Vosso servo escuta!». Esta resposta, comparável à que a Virgem Santa Maria deu ao Senhor, «Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a Sua palavra», corresponde à atitude que um crente deverá ter face ao chamamento de Deus. Para tal, é necessário vigiar com atenção, para que, de cada vez que esse chamamento ocorre, saibamos entregar-nos a Deus, tal como Samuel se entregou. Logo nesta altura, o Senhor disse a Samuel que iria punir severamente Heli e a sua família, devido à corrupção que os seus filhos praticavam; tal castigo seria partilhado com Israel.
Esse castigo consistiu, imediatamente, numa guerra contra os filisteus. Esta guerra, comandada por Samuel, teve consequências desastrosas já que, além de falecerem os filhos de Heli, a Arca da Aliança foi capturada pelos filisteus. Quando soube disto, Heli também faleceu.
Os filisteus resolveram colocar a Arca no templo dum ídolo a quem prestavam culto. Nas duas noites que a Arca lá passou, o ídolo apareceu tombado e partido. Então, os sacerdotes filisteus decidiram devolver a Arca aos israelitas; no entanto, até o fazerem, a Arca foi levando «tumores e ratos» por todas as cidades em que passava. A descrição da devolução é interessante; de facto, os filisteus fzeram um carro atrelado a duas vacas, colocando a Arca no seu interior, conjuntamente com uma oferta de ouro. Depois, enxotaram as vacas para que estas se dirigissem ao acaso. Quando este carro chegou a território israelita, estes retiraram a arca, e queimaram as vacas em conjunto com o carro, sob a forma de sacrifício, e também para eliminar aqueles materiais impuros.
De qualquer forma, os filisteus mantiveram a ocupação do território de Israel. Interpretando o sentimento do povo, Samuel exortou-o à conversão, pedindo que todos os ídolos fossem destruídos. O povo assumiu as suas culpas («Pecámos contra o Senhor»), pelo que «a mão do Senhor se fez sentir sobre os filisteus», havendo paz. Mais uma vez, portanto, se assiste a Deus concedendo o Seu perdão, mostrando-Se sensível ao arrependimento sincero.