O pequeno livro de Rute conta a história de uma moabita justa, que deixa o seu povo para se juntar ao povo de Israel e que acaba por entrar na linhagem de David e de Cristo.
Contextualizando, direi que uma família de israelitas, no tempo dos Juízes, foi viver para Moab, levando dois filhos que desposaram duas mulheres moabitas, uma das quais se chamava Rute. Falecendo todos os homens da família, Noemi, a viúva, dispôs-se a regressar a Israel, sugerindo às suas noras que ficassem em Moab. No entanto, um relato comovente conta que Rute preferiu deixar o seu povo para ir com a sua sogra Noemi para Israel («irei para onde fores, e, onde habitares, eu habitarei. O teu povo é o meu povo, e o teu Deus, o meu Deus»).
Neste ponto, mais que a fraterna decisão de Rute acompanhar a sua sogra, é importante verificar a sua conversão ao Deus israelita. De facto, ao afirmar como seus o Deus e povo de Noemi, Rute estava a tomar uma atitude pioneira e rara no Antigo Testamento. Assim, verifica-se que, para alguém ser israelita, não tinha necessariamente de ser descendente de Jacob. No caso de Rute, bastou-lhe ter fé.
Entretanto, sendo viúva e vivendo com a sogra, também viúva, Rute tornou-se respigadora, vivendo dos cereais que por lapso não eram colhidos pelos proprietários, e que, por lei, estavam atribuídos aos mais necessitados. Rute acabou por ir fazê-lo nos campos de Booz que, encantado por a ter ali, a convidou a permanecer no seu campo; Noemi, então, recordou-se que Booz ainda era seu parente, razão pela qual poderia ter o direito de resgate, de acordo com a lei do levirato (quando um homem morre sem deixar descendência, o parente mais próximo deve tomar a viúva por mulher). É por isso que Noemi pensou numa união entre Rute e Booz, por forma, também, a verem o seu futuro assegurado; para tal, delineou um estratagema que facilitasse essa união.
Depois de se acertarem alguns procedimentos legais (já que Booz não era o parente vivo mais próximo), a boda acabou realmente por acontecer. O povo desejou que Rute fosse «semelhante a Raquel e Lia», com isto se referindo à sua fecundidade e ao valor da sua descendência.
Em apêndice, surge uma genealogia que mostra o rei David como descendente directo de Noemi e Rute: Booz, Obed, Isaí e David. Uma vez que Cristo desdende directamente do rei David, tem-se que na família de Jesus existe uma estrangeira - pelo que seria absurudo pensar que a exclusividade da salvação pertence aos israelitas.
Lisboa, 18 de Setembro de 2007