2007-09-04

Guerra contra a tribo de Benjamim (19 - 21)

O segundo episódio, por sua vez, ainda nos incomoda mais que o anterior, porque envolve uma enorme desumanidade e falta de moral. Conta o texto que um levita de Efraim, depois de a sua mulher ter adulterado e fugido para a casa do seu pai, em Belém, foi a essa cidade para tentar trazê-la de volta. Ao que parece, o pai da sua mulher alegrou-se muito por ter o levita presente, detendo-o insistentemente por vários dias. De qualquer forma, como a viagem de regresso era longa, optaram por pernoitar na cidade de Gibeá, pertencente a Benjamim.
Nessa cidade, foram recebidos por um ancião que não era natural de lá; este convidou-os a ficarem na sua casa, o que aceitaram. Contudo, os benjamitas da cidade, «cercando a casa, bateram violentamente à porta dizendo: Traze cá para fora o homem que entrou em tua casa, para que o conheçamos.» Se existissem dúvidas quanto ao sentido deste verbo «conhecer», estas seriam dissipadas pelo relato posterior; de facto, os benjamitas queriam abusar sexualmente do visitante.
A resposta do ancião, bem como a acção do hóspede efraimita, são por si só incómodas para nós. O ancião disse: «Aqui está a minha filha virgem e a mulher deste homem; eu vo-las trarei, e vós podereis fazer delas o que quiserdes; somente vos peço que não cometais contra este homem esse crime contra a natureza». Por sua vez, o levita «trouxe a sua mulher» e deu-a aos benjamitas. Para se entender as motivações destes dois homens, é necessário ter em conta diversos aspectos. Em primeiro lugar, parece que a homossexualidade era socialmente bem mais repulsiva que a fornicação heterossexual. Por outro lado, segundo a edição, os deveres de hospitalitade entre os orientais eram levados ao extremo, pelo que o ancião procurava a todo o custo preservar o seu hóspede. Isto poderá explicar a sua iniciativa de dar a própria filha virgem, embora não deixe de ser muito duro pensar nisso. Mais difícil será entender que em alternativa ele apresente a mulher do hóspede - o qual a entrega, de facto, à luxúria dos benjamitas. Só uma enorme falta de consideração pela mulher - contrária ao sentir de várias passagens anteriores - poderá explicar esta atitude.
O mais chocante, no entanto, é o que se segue no texto. Com efeito, ao amanhecer, a concubina do levita estava prostrada à porta do ancião; quando o seu esposo a tentou acordar, verificou que estava morta. Imaginemos o sofrimento desta mulher, abusada sexualmente por uma cidade inteira, e com tanta brutalidade que viria a falecer... O levita, então, «tomou um cutelo, dividiu o cadáver da sua mulher, membro por membro, em doze partes, e enviou-as a todas a tribos de israel». Esta acção, tão rude, foi provavelmente uma forma de mostrar a revolta e o inconformismo da parte do levita, que desejava suscitar em todo o povo solidariedade para com o que lhe sucedera.
Tal aconteceu realmente, pelo que os chefes do povo se reuniram em Mispa, e pediram ao levita que lhes contasse o que tinha acontecido. Ficando solidários para com o levita, tomaram a decisão de pedir aos benjamitas para entregarem a cidade de Gibeá, de forma a que os seus habitantes fossem extreminados. Como os benjamitas, além de não o fazerem, ainda se reuniram para proteger os habitantes da cidade, os israelitas preparam-se, também, para o combate. Este deu-se, com vantagem inicial para os benjamitas; contudo, os israelitas acabaram por vencer e extreminar a tribo. De facto, de vinte e seis mil habitantes, apenas sobraram seiscentos. Temos, então, que esta guerra constituiu uma forma de genocídio, já que procurou eliminar a totalidade de um povo; a sua justificação é discutível, mas foi sem dúvida uma forma de corresponder ao terrível crime com que a tribo de Benjamim concordara.
De qualquer forma, os israelitas acabaram por lamentar a falta de uma tribo. Como todos tinham jurado que nenhuma das suas filhas seria dada aos benjamitas - e tendo consciência de que não podiam quebrar o juramento -, pensaram numa forma de ultrapassar esse problema. Então, recordaram-se que os habitantes de Jabes-Gilead não se lhes juntaram nem fizeram juramento; assim, tomaram a decisão de os punir por esse facto, matando-os, mas tomando as virgens para as dar aos benjamitas. Por outro lado, como este número ainda não era suficiente, sugeriram aos benjamitas que capturassem as raparigas que iam participar na festa de Silo. A narração dá, portanto, a entender que este grupo, que prestava culto em Silo, ou não era israelita, ou não tinha participado no juramento. De qualquer das maneiras, é estranha a sua condescendência para com eles.
Como refere o último versículo do livro, estes dois episódios relatam o estado de decadência a que as tribos chegaram e que, segundo o autor, se devia à ausência de um chefe nacional («Naquele tempo não havia rei em Israel; e cada um fazia o que lhe apetecia»).
Preparava-se, assim, o caminho para a instauração da monarquia.
Abrantes, 8 de Setembro de 2007, Festa da Natividade de
Nossa Senhora