O juiz de que o texto fala em seguida é, porventura, o mais conhecido. A sua grande relevência é logo prenunciada pelas circunstâncias em que se deu o seu nascimento. De facto, «o anjo do Senhor apareceu à mulher de Manué, da tribo de Dan, que era estéril, e disse-lhe: Tu és estéril e sem filhos, mas conceberás e darás à luz um filho».
As semelhanças deste anúncio, com o dos nascimentos de São João Baptista e de N. S. Jesus Cristo, são evidentes - temos uma mulher estéril, a quem um anjo anuncia o nascimento de alguém com uma missão concreta. O carácter excepcional do nascituro é desde logo reforçado por nascer de alguém que, aparentemente, estava condenada a não deixar descendência. Neste anúncio, que fez à sua mãe, o anjo informou-a logo de que «o menino seria nazarita desde o ventre de sua mãe». Recordemos que o nazariato era uma forma de consagração ao Senhor comum entre os Israelitas, e que requeria a completa abstinência de álcool, não cortar o cabelo, e ainda algumas prescrições relativas à pureza ritual. Tem-se, portanto, que o menino estava destinado a uma missão nobre.
A mulher, depois de ouvir o anjo, foi referi-lo ao seu marido Manué, que orou para que o anjo lhe aparecesse. Este apareceu, e repetiu o que já dissera à mulher. Contudo, esta segunda aparição é importante porque Manué propõe oferecer um sacrifício ao anjo, e a reacção deste é eloquente: «Ainda que tu me retivesses, eu não comeria da tua mesa; mas, se queres fazer um holocausto, oferece-o ao Senhor». Isto é exemplificativo da preocupação em mostrar o papel dos anjos: são mensageiros do Senhor, mas não são criaturas divinas que mereçam ser adoradas. A descrição do sacrifício também é significativa - «Ao subir para o céu a chama do sacrifício, Manué viu que o anjo do Senhor subia também com a chama». De facto, vê-se aqui valorizado, mais do que a morte do animal, o simbolismo da chama, que o anjo leva até Deus.
No final do capítulo, o texto relata que nasceu efectivamente o menino anunciado, a quem puseram o nome de Sansão. Este juiz desempenharia um papel substancialmente diferente do dos outros juízes, como se verá adiante; refira-se, principalmente, que nunca aparece como um chefe nacional, mas antes como um herói que actua individualmente; diz o texto, também, que «o espírito do Senhor se começou a manifestar nele» pouco depois. Ora, esta manifestação consistiu, principalmente, num conjunto de acções e fenómenos que Sansão protagonizou, e que, parecendo bizarras, tiveram uma justificação posterior.
A primeira foi a iniciativa que Sansão teve de tomar uma filisteia como mulher; apesar dos pais estranharem, aceitaram, e foram com ele à cidade de Timna, de forma a falar com a família dela. No caminho, Sansão foi atacado por um leão, «que despedaçou como se fosse um cabrito, sem ter na mão qualquer arma». Depois de a ter pedido em casamento, Sansão deslocou-se, novamente, a Timna para a desposar. Vendo o cadáver do leão que matara, verificou que, na sua boca, estava um favo de mel. Tomou-o, e deu-o a seus pais.
Continua o texto que, no banquete da boda, Sansão propôs aos convivas um enigma, que, consoante acertassem ou não, assim receberiam ou teriam de dar trinta túnicas. O enigma era: «Do que come saiu o que se come, e do forte saiu a doçura». É-nos claro a resposta que Sansão pretendia; contudo, não o era para os convidados, pelo que estes ameaçaram a noiva de que a matariam se ela não lhes desse a resposta. Sansão acaba por dar a resposta à noiva, pelo que os convidados, no último dia dos festejos, acertam o enigma. Enfurecido, Sansão foi a Ascalon, onde matou trinta homens, a quem retirou as túnicas. Depois, voltou à casa dos pais sem a noiva, que acabaria por ser dada a um dos convidados. Quando Sansão regressou para ver a sua mulher, disseram-lhe que esta tinha sido dada a outro. Sansão, mais uma vez irritado, soltou raposas com as caudas a arder nas cearas dos filisteus. Como represália por Sansão ter feito isto, mataram a própria esposa de Sansão, juntamente com o seu pai. Ainda mais uma vez, por vingança, Sansão lutou e derrotou os filisteus. A narrativa prossegue dizendo que Sansão se refugiou numa gruta, ao passo que os filisteus invadiram os israelitas; sabendo que Sansão era a causa da invasão, os israelitas prenderam-no e entregaram-no. Contudo, Sansão acabaria por libertar-se, e «com uma queixada ainda fresca de jumento» matou mil homens. Finalmente, depois de presenciar um milagre em que dum rochedo fendido brotou água, Sansão governou os israelitas por vinte anos.
Como facilmente se verifica, a história de Sansão anda muito à volta de pripécias que relçam a sua força e valentia e que tornam justificadas as suas iniciativas de lutar contra os filisteus. Naturalmente, não é provável que estas sejam verdade em termos históricos. Por outro lado, atendendo à sucessão dos acontecimantos, é perceptível que a narrativa foi construída de forma a fazer de Sansão um grande herói; nota-se, por outro lado, uma preocupação em mostrar que essa valentia se deve atribuir à graça de Deus, e não a méritos pessoais de Sansão. Isto é tanto mais evidente quanto verificarmos que as acções de Sansão não fazem dele propriamente um homem bom; aliás, parece que, muitas vezes, ele agiu procurando apenas o seu interesse pessoal. Vem também nesta linha a referência a uma ida de Sansão a uma prostituta.
O último capítulo aborda o tema que é porventura o mais conhecido: o romance de Sansão e Dalila. Segundo o texto, Sansão apaixonou-se por esta filisteia e foi viver com ela. Os filisteus ofereceram-lhe dinheiro para que esta lhes revelasse donde advinha a força de Sansão. Este, a princípio, mentiu-lhe, pelo que consegiu ir vencendo os filisteus que o atacavam. Contudo, como Dalila insistia a ponto de o fazer «cair em mortal abatimento». Então, Sansão explicou que era nazarita, pelo que a sua força estava no cabelo, nunca cortado devido a esse voto. Sabendo isto, Dalila cortou-lhe os cabelos e chamou os filisteus para o prenderem. Naturalmente, estes conseguiram-no. Referência importante é a que o texto faz: «ignorava Sansão que o Senhor se havia retirado dele»; mais uma vez se torna evidente a origem da força de Sansão.
De qualquer forma, Sansão foi capaz de um último acto de bravura - antes do qual, ainda assim, pediu o auxílio de Deus. Foi levado a um banquete de filisteus para os divertir - prática corrente na altura, já que Sansão fora feito cego. Encostando-se a uma coluna do templo filisteu, Sansão derrubou-a, matando todos os que lá se encontravam. Por isso, diz o texto, «Sansão matou na sua morte muitos mais homens que antes matara em toda a sua vida». Não pude deixar de reparar nesta frase; de facto, parece até que apresenta um segundo sentido - não sei se é intencional ou não, mas encontro um contraste completo com a acção de Jesus Cristo - que com a Sua morte deu vida a muitos mais homens do que fizera em vida.
Enfim, Sansão foi um juíz bastante heterodoxo. Além das circunstâncias particulares do seu nascimento, todas as pripécias em que participou, bem como o tipo de narrativa em que é referido, contribuíram para o tornar célebre e quase mitológico.