2007-08-03

Gedeão (6 - 8)

Após a paz obtida por Débora, os israelitas voltaram a entregar-se ao pecado e à idolatria, razão pela qual foram subjugados por Madian e Amalec, que lhes extorquiam toda a produção agropecuárua. É neste contexto que será suscitado um novo juíz, Gedeão. Este episódio, que se estende por três capítulos, é extremamente rico em elementos históricos, teológicos e simbólicos.
Desde logo, como resposta aos clamores dos israelitas, Deus enviou-lhes um profeta. Julgo que é a primeira vez, na Sagrada Escritura, que alguém é nomeado desta forma. Os profetas, cuja missão e características serão exaustivamente mostradas nos seus livros, desempenharam um papel fundamental na história do povo israelita, nomeadamente no tempo dos Reis. Esta alusão a um profeta inaugura, então, uma nova forma de Deus comunicar com o Seu povo; de facto, o profeta fala em nome do Senhor. Aliás, a forma como este profeta começou a sua proclamação é clara: «Isto diz o Senhor Deus de Israel». E o que disse Deus, neste caso, é muito simples: recordou os benefícios concedidos em favor do povo, e afirmou que este desobedeceu ao Seu mandamento. Apesar de sintética, seria esta a mensagem de partida de todos os profetas - e também a razão principal da sua missão: a desobediência do povo em relação aos mandamentos do Senhor.
Depois disto, um «anjo do Senhor» anunciou a Gedeão a sua missão. A narrativa deste acontecimento é realmente interessante, desde logo pelas palavras com que o anjo se anuncia ao futuro juiz: «O Senhor está contigo, valente guerreiro!». É impossível não encontrar aqui um evidente paralelo com a anunciação a Maria («Salvé, ó cheia de graça, o Senhor está contigo»). Como se vê, ambas as saudações têm em comum dois núcleos essenciais. Primeiro, uma forma adjectival que designa e qualifica o destinatário - «valente guerreiro» e «cheia de graça» -, o que está de acordo com as características deste. Segundo, a afirmação «o Senhor está contigo». Se pensarmos um pouco, é fácil encontrar uma grande beleza nesta afirmação. Com efeito, que melhor graça podemos desejar senão que o Senhor esteja connosco? «O Senhor está contigo» representa, além da óbvia assistência e protecção de Deus, a certeza de que o Seu Espírito está, de modo especial, com a nossa pessoa - ou seja, no fundo, que podemos participar um pouco da Sua glória.
Contudo, a resposta de Gedeão é quase desconcertante: «Se o Senhor está connosco, porque nos vieram todos estes males?». Esta questão, colocada nas suas diversas formas, é sem dúvida uma das que mais nos incomoda; na verdade, se Deus está connosco, porque passamos por dificuldades e sofrimento? É Deus que, no próprio texto, nos dá uma pista para a resposta: «Vai [Gedeão], e com esta força que tens, liberta Israel». Esta tem de ser a atitude que devemos assumir contra as dificuldades - combatê-las. E para isso, como diz o texto, Deus dá-nos força; cabe-nos a nós fazer valer essa força para vencer os nossos problemas. E julgo que esta será a mensagem principal deste episódio de Gedeão.
De qualquer forma, Gedeão pediu um sinal para acreditar no que lhe estava a ser dito. O tipo de sinal utilizado não é raro ao longo das Escrituras: Gedeão preparou um sacrifício de carne, pão e molho, e o anjo fez surgir fogo que o consumiu. Assim, além do milagre propriamente dito, é também uma forma de mostrar a fidelidade de Gedeão ao Senhor. Como é natural, depois disto, Gedeão acreditou.
Em seguida, Deus indicou a Gedeão que começasse o seu combate. A primeira acção foi destruir, durante a noite, um altar e uma árvore associados ao culto idolátrico da povoação em que vivia. Como é natural, isso levou os restantes habitantes a enfurecerem-se e a tentarem matar Gedeão. No entanto, o seu pai, Joás, teve aqui uma intervenção decisiva: «Se Baal é deus, que se defenda a si mesmo contra aquele que destruiu o seu altar». Com a questão nestes termos, os idólatras ficaram obviamente sem resposta. Ora, como os povos vizinhos se preparavam para combater os israelitas, Gedeão convocou algumas tribos para organizarem a defesa.
Entretanto, para confirmar que Deus continuava «consigo», Gedeão pediu-Lhe mais «provas». De forma sucinta, pediu que, numa noite, um velo de lã (porção de pele de ovelha com a respectiva lã) deixado ao relento fosse molhado pelo ovalho, mantendo-se seca a terra em redor; na noite seguinte, pediu que acontecesse o inverso: o velo ficasse seco, e a terra em redor, húmida. Tudo isto aconteceu efectivamente. Ora, a importância e profundidade deste episódio é provada pelas sucessivas interpretações a que foi sujeito. Pessoalmente, não me agrada procurar significados escondidos onde estes provavelmente não estarão. De qualquer forma, confio em que mistérios futuros se encontram velados no Antigo Testamento. Desta forma, refiro apenas uma das interpretações que encontrei: O velo de lã é o povo israelita; a terra em redor são todos os outros povos; o orvalho é a palavra de Deus. Neste sentido, então, o sinal prenuncia que, primeiro, a palavra de Deus é anunciada apenas aos israelitas, para, num segundo momento (com Jesus Cristo) ser anunciada sobretudo aos povos pagãos. Esta imagem, do orvalho como palavra de Deus, encontrará paralelos, por exemplo, quando Jesus é associado ao rochedo do qual brota água.
Estando Gedeão já revestido de fé, Deus anunciou-lhe que iria derrotar os madianitas. Contudo, para que Israel «não se gloriasse à Sua custa», Deus fez uma selecção de apenas trezentos homens, através dum processo curioso. E Gedeão, contrastando drasticamente com a sua atitude anterior - cheio de dúvidas -, agora mostrava-se confiante, apesar da escassez dos seus homens. Além disso, quando, por ordem de Deus, fora espiar o acampamento inimigo, verificara que um combatente contara a outro um sonho, que o interpretara dizendo que os israelitas teriam uma vitória estrondosa.
Motivado por isto, Gedeão organizou os seus trezentos homens para o combate. Ao início, estes tinham numa mão uma tromebeta e, na outra, uma ânfora com uma tocha acesa dentro. Seguindo as ordens de Gedeao, os combatentes partiram a ânfora e tocaram a trombeta, gritando: «Pelo Senhor e por Gedeão!». De acordo com o texto, quando isto aconteceu, os madianitas começaram a combater entre si, acabando por fugir. Depois, Gedeão perseguiu-os, tendo-se-lhe juntado homens de várias tribos. Em estilo bélico, são narradas as suas vitórias, que incluem vinganças sobre povos que os não quiseram ajudar. Desta forma, com os madianitas dizimados, Israel voltou a ter quarenta anos de paz.
Entretanto, motivados pelo carisma que Gedeão exibia, os israelitas pediram-lhe que se tornasse seu rei. Gedeão recusou: «Não reinarei sobre vós, nem reinará meu filho: é o Senhor que será o vosso rei.» Em seguida, Gedeão construiu um objecto comemorativo da vitória, com os metais preciosos saqueados. Tal objecto levou a que os israelitas lhe prestassem culto idolátrico. Ora, este episódio reveste-se de grande importância histórica. Em primeiro lugar, porque é a primeira vez que aparece espressa a ideia de monarquia no seio do povo - o que será bastante desenvolvido posteriormente. Contudo, Gedeão deu uma resposta que resume a perfeitamente ideia do autor sagrado, ao longo deste livro e seguintes: Deus é rei de Israel, pelo que não é necessário qualquer homem que desempenhe o Seu papel. Isto vem na linha da ideia de nação eleita corporizada por Israel. De facto, a existência de chefes temporais é sempre vista negativamente e como uma forma de corrupção, tal como posteriormente se verificará. Por outro lado, é novamente destacada a questão da idolatria; efectivamente, por influência dos povos vizinhos, os israelitas manifestaram sempre uma tendência para adorarem um objecto concreto, sendo-lhes muito difícil aceitar a existência de um Deus transcendente. É por esta razão que a Sua Revelação foi feita de forma progressiva.
Enfim, tal como aconteceu com os outros juízes, toda esta narrativa bélica teve como intenção manifestar o castigo da idolatria, seguida pelo perdão de Deus através dum envio do libertador. No fundo, mais um apelo à nossa confiança na Providência divina, e uma condenação veemente de todas as formas de culto que se desviem daquela que foi proposta pelo Senhor.