2007-07-29

Otoniel, Aod, Samgar e Débora (3,7 - 5)

O primeiro juiz de Israel foi Otoniel, casado com a filha de Caleb - ao qual, recorde-se, tinha sido atribuída uma cidade em particular. A sua principal acção, nos quarenta anos de governo, foi derrotar Cusan-Risataim, rei de Aram-Naarim, sob cujo poder Israel tinha caído.
Depois de nova ocupação, desta vez por parte de Eglon, rei de Moab, Deus «suscitou» o juiz Aod para libertar o povo. Este serviu-se duma estratégia pouco correcta para derrotar o rei ocupante: a traição. Com efeito, após ganhar a confiança do rei, pediu para estar a sós com ele; em seguida, cravou-lhe a espada no ventre. Ora, estando os moabitas sem rei, foi fácil aos israelitas derrotarem-nos. Como se pode verificar, as personagens e o tipo destes episódios têm como principal função transmitir uma verdade religiosa: Deus dá liberdade ao povo; quando este abusa dessa liberdade, o Senhor castiga-o (nestes casos, com um rei estrangeiro); e quando, devido ao castigo, o povo se arrepende, o Senhor perdoa-o e envia um libertador. É sobretudo sobre esta última parte que nos devemos deter: podemos ter toda a confiança em que um arrependimento sério do pecador leva a que Deus lhe conceda o perdão.
Do juiz seguinte, Samgar, apenas se refere que derrotou os filisteus.
Nos dois capítulos seguintes o texto ocupa-se dum episódio bastante desenvolvido e interessante. Desta vez, os israelitas eram dominados por Jabin, rei de Hasor, cujo chefe do exército era Sísera. A exercer as funções de juiz tinham uma mulher: a profetisa Débora; este aspecto é bastante relevante, pois é um dos poucos casos em que é atribuído a uma mulher um papel central. Assim, apesar de os israelitas formarem uma sociedade patriarcal, as mulheres eram tratadas com respeito e, consoante as circunstâncias, podiam mesmo desempenhar funções de responsabilidade, como é este caso de Débora e o de Atália, raínha de Judá. De qualquer forma, o chefe do exército israelita era Barac, a quem Débora mandou que atacasse Sísera. Como é natural, os israelitas venceram.
Contudo, Sísera conseguiu fugir, e pediu refúgio em casa de uma mulher, Jael, pertencente a um povo aliado do seu. Jael aceitou mas, quando Sísera adormeceu, matou-o à traição. Segundo o texto, a forma como o fez foi muito cruel: «Jael tomou um prego da tenda e o martelo e, aproximando-se devagarinho, enterrou o prego na fronte de Sísera, a ponto de penetrar na terra». Ainda mais que no caso de Aod, esta morte torna-se chocante. Devemos, de qualquer forma, compreender que o objectivo do texto é evidenciar o auxílio divino, e exaltar o povo israelita. Tal, neste caso, faz-se humilhando hiperbolicamente o povo inimigo, colocando o seu chefe morto à traição por uma mulher.
No capítulo seguinte figura um cântico, esteticamente muito agradável, que celebra esta vitória. Nesse cântico, retoma-se a infidelidade de Israel com o consequente castigo («Israel escolheu novos deuses, e logo a guerra lhe bateu às portas; estavam desertos os caminhos»); depois, comenta-se a atitude de cada tribo face ao combate, e valoriza-se a atitude de Jael («Bendita entre as mulheres seja Jael. Pediu [Sísera] água e ela deu-lhe leite, numa taça de honra lhe serviu a nata. Tomou com a esquerda o prego, e com a direita o martelo bem pesado, e feriu Sísera, trespassando-lhe a cabeça»). O cântico termina com um desejo final: «Assim pereçam, ó Senhor, os inimigos» - o que resume a funcionalidade narrativa deste episódio.