2007-08-16

Abimelec: primeiro rei de Israel (9)

O capítulo anterior referia que Gedeão tivera setenta filhos, de várias concubinas. Um deles, Abimelec, depois da morte do seu pai, ganhou pretensões de reinar sobre os israelitas. Para isso mesmo, foi ter com os seus familiares perguntando: «qual será melhor para vós: serdes dominados por setenta homens, todos filhos de Gedeão, ou que um só homem seja vosso rei?». A resposta positiva a esta questão veio da parte dos habitantes de Siquém, donde a mãe de Abimelec era natural. Conseguindo o seu apoio, Abimelec assalariou homens que mataram sessenta e oito dos seus irmãos, para que estes não se opusessem ao seu reinado. Desta forma, Abimelec foi proclamado rei de Israel em Siquém. Foi, portanto, o primeiro rei de Israel.
Ora, como referido anteriormente, a ideia de monarquia foi sempre recusada pelas elites israelitas, dada a natureza especial desse povo. Por isso, Jotam (o único irmão que Abimelec não tinha conseguido matar) foi contar uma alegoria aos siquemitas: segundo essa alegoria, as árvores decidiram um dia eleger uma delas para reinar; foram perguntando qual estaria disponível para isso, mas as árvores iam recusando com respostas idênticas. Tomemos o exemplo da videira: «Poderia eu renunciar ao meu vinho, que é a alegria de Deus e dos homens, para me colocar acima das outras árvores?». A única árvore a aceitar foi o espinheiro. Isto mostra bem a ideia que Abimelec tinha da monarquia: o rei é um ocioso, que o quer ser apenas para não ter ocupações úteis à sociedade, como era o caso da videira. Jotam, portanto, pediu aos siquemitas para pensarem nisto e, depois de o dizer, fugiu para Beer.
Entretanto, passado algum tempo, os siquemitas e outros começaram a sublevar-se contra iuAbimelec. Este consegue ir submetendo várias cidades que se revoltavam. No entanto, em Tebes, os habitantes refugiam-se numa torre fortificada. Quando a sitiava, Abimelec foi atingido na cabeça pelo pedaço de uma mó, atirado por uma mulher. «Para que não se dissesse que fora morto por uma mulher», pediu ao seu escudeiro que o matasse com a espada.
Este final, trágico, é mais um bom exemplo da opinião do autor sagrado acerca da monarquia. Com efeito, além do castigo lógico por todos os crimes que cometeu, a morte de Abimelec foi também como que um aviso para que os israelitas ponderassem adequadamente se necessitavam na verdade de ter um rei.