Terminada a conquista conjunta da terra de Canaã, e tendo as tribos transjordanas «observado fielmente o mandamento do Senhor» de auxiliar as restantes, Josué convocou-as para lhes referir que podiam regressar em paz ao seu territótio. Ao despedi-las, Josué recordou-lhes que deveriam manter-se fiéis aos Senhor, e fá-lo desta forma: «tende grande cuidado em praticar os mandamentos e leis que vos prescreveu Moisés, amando o Senhor, vosso Deus, guardando os Seus mandamentos, unindo-vos a Ele e servindo-O com todo o vosso coração e com toda a vossa alma». Considero uma expressão bastante elegante do que significa amar a Deus; em especial, a ideia de «união»: amar a Deus, com efeito, significa estar unido a Ele - unir, por iniciativa própria, a nossa vontade à d'Ele. Josué recordou, também, que eles deveriam partilhar com quem não foi à guerra as riquezas provenientes dos saques.
Ora, depois deste regresso, os habitandes daquela margem do Jordão construíram junto deste rio «um grande altar». Tal facto levou os israelitas da Cisjordânia a prepararem-se para os combater. Antes disso, porém, enviaram alguns delegados civis e religiosos para averiguar o que se passava; a resposta dos transjordanos não poderia ser mais clara: «construímos um altar, não para oferecer holocaustos e sacrifícios, mas para que ele seja um testemunho entre nós e vós, de que servimos o Senhor». Isto é, procurava evitar que os da Transjordânia fossem marginalizados pelos restantes israelitas, por viverem afastados do santuário. Esta questão, a dos altares alternativos ao do santuário, vai revestir-se de alguma importância no tempo dos Reis, principalmente após a construção do templo de Jerusalém. Efectivamente, o culto dos israelitas tendia, porque isso era necessário, à centralização; a existência de outros alteres levaria, como se verá mais adiante, a desvios e incumprimentos na prática religiosa - daí a grande preocupação manifestada neste caso.
A última parte deste livro consiste em dois discursos de Josué. No primeiro, este começou por recordar que Deus foi fiel às suas promessas como, de resto, se pode verificar ao longo do livro. Em seguida explicou que a única resposta do povo a essa fidelidade tem de ser o amor a Deus, cumprindo as Suas leis. «Da mesma forma que se realizaram todas as promessas que o Senhor vos [ao povo] fez, assim cumprirá contra vós as palavras com que vos ameaçou, até que vos faça desaparecer desta terra fértil». Esta ideia será central ao longo de todos os livros históricos.
No seu segundo discurso, em Siquém, que corresponde a uma renovação da aliança, Josué traçou a história do povo eleito desde a ida de Abraão para Canaã, passando pelo estabelecimento dos israelitas no Egipto, o Êxodo dirigido por Moisés e Aarão e a conquista da Terra Prometida. É por isso que Josué interpelou o povo: queria adorar ao Senhor, ou os deuses pagãos? A resposta do povo é eloquente: «Nós serviremos ao Senhor, e obedeceremos à Sua voz». Como recordação desta promessa solene, é erigida «uma grande pedra».
No final, o livro narra a morte e sepultura de Josué na sua cidade de Timnat-Sera, de Eleazar, em Guibeá, e a sepultura, em Siquém, dos ossos de José, que tinham sido trazidos do Egipto.
Lisboa, 25 de Julho de 2007