2007-06-23

Conquista de Jericó (2 . 5)

Após a entrada em Canaã (Cisjordânia), o Livro de Josué vai relatar a forma como os israelitas tomaram posse dessa terra, de acordo com as promessas de Deus. É necessário esclarecer, desde já - tal como se referiu no início das conquistas da Transjordânia -, que estas conquistas, com o elevadíssimo número de mortes dos povos pagãos que lhe está associado, devem ser entendidas no contexto do cumprimento das promessas feitas aos patriarcas, da necessidade de preservar a pureza religiosa do povo (que poderia ser contaminada pelas práticas pagãs)reforçados, ainda, pela necessidade de afirmação nacional dos israelitas. De facto, é importante ter em conta que os descendentes de Jacob formam o povo depositário da Aliança, o que torna a sua integridade mais importante que os povos pagãos de Canaã.
A conquista de Jericó - a primeira feita pelos israelitas na Cisjordânia - é bastante interessante e recordada por vários autores literários. Conta o texto que Josué, quando ainda não tinha atravessado o Jordão, mandou dois espiões ao outro lado do rio, para fazer o reconhecimento da terra. Estes, de caminho, «entraram em casa de uma prostituta, de nome Raab, onde se alojaram». Não é explícita - e, alias, parece bastante obscura - a razão pela qual o texto fornece este pormenor; poderá ser, como se verificará adiante, que sirva para mostrar a fé de uma pessoa que se tomaria por pecadora em contraste com os restantes membros da cidade.
De qualquer forma, Raab ocultou os israelitas na sua casa, quando o rei de Jericó os mandou procurar. E a razão pela qual o faz é bastante explícita: «Sei que o Senhor vos entregou esta terra. O Senhor, vosso Deus, é o Deus das alturas, nos Céus e na terra». Tem-se, então, uma pagã a acreditar no Senhor - no fundo, a ter fé -, o que é bastante belo. Ora, embora pareça que esta fé só se deveu aos prodígios que Deus realizou om o seu povo, é interessante verificar que Raab não disse isso; assumiu, antes, pela adesão da sua vontade, que Aquele é o Deus verdadeiro. Por outro lado, em troca da ajuda que dera aos espiões, pediu-lhes que, quando conquistassem a cidade, não destruissem a sua família - o que eles confirmam solenemente. Para tal, Raab deveria identificar a sua janela com um cordão vermelho, e proteger na sua casa quem desejasse. Depois de ajudados a sair da cidade, os espiões regressaram ao acampamento, dizendo a Josué que «O Senhor entregou nas nossas mãos toda esta terra».
Josué organizou, então, a conquista de Jericó. Para tal, ordenou que se fizesse uma procissão à volta da cidade, com os guerreiros à frente, seguidos por sacerdotes tocando trombetas, e com a Arca à rectaguarda. Assim fizeram durante sete dias. No último, por ordem de Josué, o povo começou a gritar com intensidade; então, as muralhas de Jericó caíram e os israelitas conseguiram invadir a cidade. Por ordem de Deus, esta deveria ser votada ao anátema. Esta expressão, que se há-de repetir frequentemente em textos posteriores, significa consagrar algo a Deus; esta consagração, em caso de guerra, fazia-se matando todos os seres vivos - homens e animais - e respectivos pertences, ficando os metais preciosos para o tesouro do santuário. Josué vincou bem que aquele anátema devia ser rigorosamente observado. Refiro, uma vez mais, que esta desumanidade à luz da mentalidade contemporânea é justificada pela necessidade de preservar a pureza do povo depositário da Aliança.
Finalmente, uma palavra para Raab. Com efeito, os israelitas respeitaram a sua vida, mandando-a sair de casa com a sua família. Contudo, mais importante que isto, é o facto de ela se ter efectivamente integrado no povo israelita, passando a fazer parte dele; é por isso que, de acordo com Mateus, 1, o Rei David e Jesus Cristo têm uma ascendente como prostituta. É, também, um sinal precursor da reconciliação com Deus permitida pela fé.