2007-06-19

Travessia do Jordão e entrada em Canaã (1 . 3 - 5)

O livro do Deuteronómio terminou com a morte de Moisés, sucedendo-lhe Josué na chefia dos israelitas; será este, por isso, quem os haverá de levar a atravessar o Rio Jordão. Assim, Deus exorta-o a ser forte e corajoso na sua missão.
Josué ordenou, então, que o povo se preparasse para a travessia, recordando às tribos da Transjordânia o seu compromisso de auxiliarem as outras tribos na conquista de Canaã. Desta forma procura-se, também, criar um certo sentimento de unidade nacional.
Depois do regresso de uns espiões - dos quais se há-de falar posteriormente -, Josué comunicou ao povo a forma como deveria ser feita a travessia; nomeadamente, que a Arca deveria ir na dianteira, e que eles deveriam «santificar-se, porque amanha o Senhor fará coisas maravilhosas no meio de vós». Este convite mostra bem a solenidade e importância do evento que se aproximava.
Uma preocupação presente desde o início do livro é a de mostrar a legitimidade de Josué como sucessor de Moisés; neste sentido, o Senhor afirmou que o «começaria a exaltar» no meio do povo, por forma a que se verificasse que povo continuava protegido pelo Senhor.
A travessia do rio Jordão é descrita, pelo texto, da forma seguinte: «No momento em que os sacerdotes [que transportavam a Arca] molharam os seus pés na beira do Rio Jordão, as águas que vinham de cima pararam e amontoaram-se numa grande extensão; e as águas que desciam para o Mar Salgado [Mar Morto] ficaram completamente separadas. Os sacerdotes, que transportavam a Arca da Aliança, conservaram-se de pé sobre o leito seco do Jordão, e todo o Israel o atravessou, sem se molhar.»
Como é evidente, esta narração tem alguns paralelismos com a da travessia do Mar Vermelho. Destacam-se a presença de um chefe carismático (Moisés ou Josué) e a travessia a seco de um local onde existia água (o Mar Vermelho ou o Rio Jordão). Esse milagre, como se verifica, marca o início e o fim do Êxodo dos israelitas. Para o caso do Rio Jordão, a edição [com «edição» pretendo referir-me às notas que acompanham a minha edição da Bíblia Sagrada (19.ª edição pela Difusora Bíblica da «Versão dos textos integrais por uma Equipa de peritos»)] explica que, por um fenómeno natural de desabamento de terrenos, este rio pode ficar temporariamente obstruído. Não creio que seja necessário, neste ponto, explicar o facto em termos científicos. A narração de um milagre, tal como no caso do Mar Vermelho, pretende evidenciar o estado de especial protecção que Deus dispensava ao Seu povo. Por outro lado é, também, um recurso que permite reforçar o carácter épico do Êxodo, conferindo-lhe a dimensão de um acontecimento essencial na vida do povo israelita.
Tendo o povo, portanto, atravessado o Jordão, Deus ordenou que retirassem do seu leito uma pedra por cada tribo; com estas pedras, os israelitas construiram um monumento comemorativo. A construção deste monumento teve alguma importância já que, como referiu Josué, permitia «que todos os povos da terra soubessem que a mão do Senhor é poderosa, e que [o povo] conservasse sempre o temor do Senhor». Mais uma vez, o texto acrescenta que todos os israelitas respeitaram Josué «como haviam respeitado Moisés.»
O passo seguinte, ainda no dia em que atravessaram o Jordão, foi a circuncisão de todos os homens. Devemos recordar-nos que, por vontade de Deus, nenhum dos israelitas que saíra do Egipto conseguiu entrar em Canaã (à excepção de Josué e Caleb). Ora, por alguma razão desconhecida, a prática da circuncisão foi abandonada durante a viagem; este facto é bastante estranho, sobretudo se se atender a que a circuncisão era praticada desde Abraão, como condição da sua aliança com Deus. Depois deste ritual, o povo acampou uma semana naquele local, que se passou a chamar Guilgal.
Foi ainda em Guilgal que se fez a primeira celebração da Páscoa em Canaã. Isto tem um interesse particular porque, pela primeira vez, ofereceram-se em sacrifício os «frutos da terra», mostrando que também esta promessa de Deus - a fertilidade da terra - estava cumprida. É, ainda, por esta razão, que o maná deixou de cair; devemos recordar-nos que o maná foi o alimento exclusivo dos israelitas durante a travessia do deserto.
Finalmente, é importante assinalar um encontro místico que Josué teve por esta altura. Diz o texto que ele «viu diante de si um homem de pé, segurando na mão uma espada desembainhada», que se anuncia como «um príncipe dos exércitos do Senhor». Esta narração tem semelhanças com algumas anteriores, por exemplo, Génesis 18, e é, outra vez ainda, sinal de que Deus assiste Josué de uma forma muito especial.