2009-03-23

Organização da comunidade judaica por Esdras (7 - 10)

A última parte do livro dá conta, mais especificamente, da missão de Esdras enquando organizador da comunidade judaica regressada a Jerusalém. Por essa razão, este é apresentado com algum detalhe, quer mostrando a sua linhagem sacerdotal, quer qualificando-o de «sacerdote e escriba, versado no conhecimento do texto da Lei do Senhor e das suas prescrições»; aparentemente, Esdras desempenhava funções de escriba na corte de Artaxerxes II. É por isso que este rei «o enviou para fazer uma inspecção em Judá e Jerusalém e ver como está a ser observada a Lei do seu Deus». A acompanhá-lo, levava uma carta de Artaxerxes que, além de manter a autorização para o regresso dos judeus, incluía tambem a afirmação expressa de que a lei do Pentateuco deveria vigorar naquela região: «Todo aquele que não observar a Lei do teu Deus [de Esdras] e a lei do rei será castigado rigorosamente»; além disso, determinava que fossem «estabelecidos juízes e magistrados para fazerem justiça a todo o povo». Finalmente, reforçava o apoio do tesouro real para a manutenção do templo, e decretava a isenção de impostos por parte dos sacerdotes. Com tudo isto, além de se seguir a linha de Ciro e Dario, dotava-se os judeus de um sistema político organizado, que lhes permitia viver segundo as suas antigas leis no seio do Império Persa.
O capítulo seguinte descreve a viagem de Esdras para Jerusalém, começando por enumerar os «chefes de família» e os sacerdotes que o acompanharam. A viagem de Estras é notável por ser reveladora de um grande espírito de fé, o que é visível, desde logo, no jejum que antecedeu a viagem: «proclamei um jejum a fim de nos humilharmos diante do nosso Deus e de Lhe implorarmos uma feliz viagem». A realização dum jejum, gesto habitual nos profetas, assume aqui as duas dimensões que ainda representa hoje em dia: por um lado, é um acto de penitência perante Deus e de reconhecimento do Seu poder; por outro lado, é um gesto de oração, de forma a que quem o pratica se torne mais agradável perante Deus e, assim, alcance o Seu favor. Aliás, aquele espírito de fé é reforçado quando Esdras refere: «envergonhei-me de pedir ao rei uma escolta para nos proteger, porque tínhamos dito ao rei: "A mão do nosso Deus protege, com a Sua bondade, todos aqueles que O procuram"». De facto, no fim da viagem, Esdras pôde afirmar que «a mão do nosso Deus protegeu-nos e defendeu-nos durante o trajecto». Enfim, a chegada a Jerusalém é principalmente marcada pela deposição, no templo, de numerosas ofertas voluntárias (que o texto enumera) e pelo cumprimento das ordens dadas pelo rei.
O livro termina com a questão dos casamentos mistos. De facto, numerosos israelitas repatriados casaram com mulheres pertencentes aos povos que entretanto tinham sido deportados para a Judeia. Para o autor sagrado, o problema é que «a raça santificada misturou-se com a dos habitantes do país»; isto vai na linha, profusamente repetida, da necessidade dos israelitas / judeus, enquanto depositários da Aliança, se preservarem como um povo autónomo. Estava em causa a manutenção da Lei e das promessas messiânicas, numa circunstância em que o cativeiro na Babilónia ocorrera até recentemente e fora devido, precisamente, aos comportamentos do povo em matéria de fidelidade a Deus. Quando os chefes do povo deram conta disto a Esdras, este reagiu com um dramatismo comparável ao dos reis e profetas antigos: em primeiro lugar, rasgou as suas vestes e, em seguida, fez uma oração. Nesta, Esdras assumiu as culpas de todo o povo, «Meu Deus, estou envergonhado e confuso, ao levantar a minha face para ti», para depois recordar todo o passado de infidelidades deste e, apesar dele, a benevolência que Deus lhes concedera no exílio, «nós somos escravos, mas o nosso Deus não nos abandonou no nosso cativeiro». Finalmente, mostra a sua incapacidade de merecer o perdão de Deus, «Eis-nos aqui, diante de Ti, como culpados, sem podermos, por isso, subsistir na Tua presença».
Esdras, então, reuniu com os chefes do povo; depois de voltarem a confessar o pecado, assumido como colectivo, é decidido «mandar embora todas essas mulheres e seus filhos». Para tal, e após Esdras passar algum tempo «sem comer nem beber, porque chorava os pecados dos sobreviventes do cativeiro», o povo reuniu-se em Jerusalém, onde se pôs em prática o que Esdras decidira. Para o auxiliar nessa tarefa, também se definiu que os transgressores de cada cidade se deveriam apresentar aos respectivos anciãos.
Para terminar, o capítulo apresenta uma lista dos judeus que tinham casado com mulheres estrangeiras. Pelo que foi dito acima, compreende-se que todo este procedimento, aparantemente xenófobo, foi realizado com as melhores intenções e segundo a mentalidade que lhe era contemporânea. É por isso que, para se introduzir a decisão de expulsar mulheres estrangeiras, se refere: «Façamos, agora, uma aliança com o nosso Deus». De facto, uma acção tão veemente só pode ser entendida no contexto de um esforço colectivo para evitar, logo de início, que se reinstalassem os hábitos que tinham sido, precisamente, aquilo que quebrara a aliança, com o consequente castigo da deportação.
Abrantes, 3 de Abril de 2009