A unção de David, de qualquer maneira, parece ter-se mantido oculta até à sua aclamação pelo povo. De facto, apesar de Deus ter deposto Saul, este manteve-se como rei até à morte. No entanto, o final do seu reinado foi marcado por sucessivos revéses e sofrimento da sua parte. Por essa razão, os seus servos sugeriram que fosse chamado alguém para o animar. A escolha recaiu sobre David, já que este, como se referiu, sabia tocar bem harpa. Saul ficou bastante agradado com a escolha, tornando David seu escudeiro.
Um episódio bastante conhecido é aquele que trata do combate entre David e Golias. Contextualizando, consta que, numa invasão que os filisteus fizeram, um dos seus combatentes, o gigante Golias, desafiou os israelitas a enviarem-lhe um deles, para um combate individual. Nenhum deles tomou a iniciativa de o enfrentar, pelo que David decidiu fazê-lo, no que foi desaconselhado por Saul - de facto, de acordo com a descrição, David era um «jovem, louro e de delicado aspecto». No entanto, David recordou que, enquanto pastor, conseguiu matar vários ursos e leões que atacavam as suas ovelhas; por isso mesmo, sentia-se capaz de vencer Golias.
Desta forma, David «tomou o seu cajado e escolheu no regaço cinco pedras lisas, pondo-as no alforge de pastor que lhe servia de bolsa. Depois, com a sua funda na mão, avançou contra o filisteu. Meteu a mão no alforge, tomou uma pedra, e arremessou-a com a funda, ferindo o filisteu na testa. Assim venceu David o filisteu, ferindo-o de morte com uma funda e uma pedra». Esta vitória não é surpreendente. Com efeito, nas palavras do próprio David, «[Golias] vinha a mim de lança e escudo; eu, porém, ia a ele em nome do Senhor dos exércitos». No fundo, este é mais um caso em que a intervenção providencial de Deus em favor do Seu povo é bem evidente. Talvez a elegância e simbolismo da descrição tenham sido os factores que tornaram este episódio famoso. Também o seu valor metafórico - o fraco a vencer o forte, a inteligência / ciratividade a vencerem a rudeza são elementos que o tornam actual.
Os capítulos seguintes mostram o contraste entre as tentativas de Saul matar David, e a amizade que este último estabelece com Jónatas. Aliás, as palavras com que esta amizade é expressa são realmente fortes, permitindo antever uma forma de amizade especial: «a alma de Jónatas uniu-se estreitamente com a alma de David, e Jónatas começou a amá-lo como a si mesmo». «David e Jónatas contraíram então grande amizade, pois este amava David como a si mesmo»; com efeito, se não é uma forma subtil de descrever homossexualidade (as almas «unidas estreitamente»), é pelo menos a descrição duma amizade superior.
Entretanto, Saul pensava em formas de matar David. Primeiro, tentou por duas vezes cravá-lo na parede com uma lança; vendo que David estava protegido por Deus, pois escapava com facilidade, Saul pensou noutra forma de conseguir o que pretendia. Saul, então, decidiu que a melhor maneira de matar David era fazê-lo combater os filisteus. Para tal, prometeu-lhe a sua filha Mical como esposa. E o texto relata como David obtinha sucesso nas empresas militares em que se envolvia, e que o tornavam ainda mais respeitado à vista dos israelitas.
Os dois capítulos seguintes tratam ainda da perseguição que Saul moveu contra David, procurando sempre matá-lo. De qualquer forma, David sobreviveu sempre, ajudado por Jónatas. Seria Jónatas, também, a sugerir a David que este fugisse, pois Saul estava realmente determinado a matá-lo. A despedida de Jónatas e David é comovente: «beijaram-se mutuamente, chorando juntos». Excluindo a carga erótica desta expressão, é de qualquer forma reveladora da grande amizade entre eles; além disso, esta despedida é também ocasião para reafirmarem o juramento de entreajuda que tinham feito.