2008-05-03

Ezequias (18 - 20 ; 25 - 33 ; Is 36 - 39)

Depois do período muito negativo que se apresentou anteriormente, Ezequias subiu ao trono de Judá. O início do seu governo ficou marcado por uma importantíssima reforma religiosa, que veio combater o sincretismo dos reinados anteriores. Para tal, começou por destruir-se tudo o que estivesse relacionado com os cultos pagãos, como ídolos, altares e lugares altos. Destruiu-se, mesmo, a serpente de bronze (Neustan) que Moisés construira, porque os judeus passaram a prestar-lhe cultos idolátricos. A importância simbólica desta serpente é bastante elevada, já que, tal como referi a propósito de Números 21, e de acordo com o Novo Testamento, ela podia ser entendida como uma prefiguração de Cristo na cruz. A sua destruição, neste contexto, surge naturalmente como resposta drástica às práticas idolátricas que os judeus tinham em relação a ela, esquecendo o seu significado profundo.
Depois, procedeu-se à purificação do templo; esta tornou-se necessária porque, nos reinados anteriores, o templo fora encerrado e desprezado. Então, os levitas purificaram o templo e respectivos utensílios em oito dias, o que possibilitou o restabelecimento do culto: numa importante cerimónia litúrgica, os sacerdotes ofereceram sacrifícios na presença de Ezequias e dos seus súbditos. Em seguida, foram preparadas as importantes celebrações da Páscoa e dos Ázimos. Para tal, o rei Ezequias mandou convocar não só os seus súbditos, mas também os israelitas do Norte que tinham escapado à deportação. A respeito da pequena parte destes israelitas que foi a Jerusalém, o texto conta que apesar de terem comido o cordeiro em estado de imporeza, o Senhor perdoou-os por misericórdia. Finalmente, o texto retoma a questão da reforma do culto, e explica como Ezequias reorganizou as tarefas e os meios de subsistência dos sacerdotes. Frequentemente, tecem-se elogios à acção deste rei, comparando-a à de Salomão.
Em seguida, o texto aborda a expedição dirigida por Senaquerib, rei da Assíria, contra Judá; sabendo que Jerusalém ia ser atacada, Ezequias mandou realizar importantes obras de fortificação, construindo, também, um canal de abastecimento de água. De início, Ezequias pagou tributo a Senaquerib, mas este mandou enviados para dizerem que a conquista estava eminente. No seu discurso, o povo foi intimidado, com uma alusão à extrema miséria pela qual passariam se resistissem: «multidão que está sobre a muralha, obrigada a comer os seus excrementos e a beber a sua urina».
Assustado, Ezequias mandou chamar o profeta Isaías, que o tranquilizou, referindo que o Senhor o livraria do rei da Assíria; depois, Ezequias dirigiu-se ao templo para orar. Nesta belíssima oração, Ezequias começa por afirmar a omnipotência de Deus, pedindo, depois, a sua atenção; em seguida, justifica o facto dos outros povos terem perecido, porque «os seus deuses não são deuses, mas apenas objectos». Finalmente, termina pedindo a salvação: «salva-nos agora das mãos de Senaquerib, a fim de que todos os povos da Terra saibam que Tu, o Senhor, és o único Deus». É bastante frequente, ao pedir-se vitórias militares, considerar que tal é uma prova do poder de Deus.
O livro dos Reis inclui, em seguida, um oráculo do profeta Isaías, que está presente também no livro da sua própria autoria. Neste, pronunciado «contra Senaquerib», Judá é personificada como a «virgem, filha de Sião», que sofre uma invasão. No entanto, esta invasão é justificada como o cumprimento dos planos de Deus, «desde há muito planeei e agora realizo», que está pronto a castigar Senaquerib pela sua soberba. Este castigo chegou pouco depois, com Senaquerib a ser assassinado pelos seus filhos. Ainda neste oráculo, temos uma referência ao «resto», temática importantíssima na história bíblica subsequente, e que será desenvolvida sobretudo por este profeta, Isaías. No seu livro (Isaías 6), este escreve, a propósito do resto: «acontecerá como ao terebinto e ao carvalho, que uma vez cortados, deixam um rebento. Este rebento será uma semente santa». Temos, então, que o resto surge associado ao pequeno número dos que ficam fiéis a Deus, e que por isso permitem a purificação do povo; de qualquer forma, debruçar-me-ei mais sobre este tema na literatura profética.
O relato deste reinado termina com a doença do rei Ezequias, que acaba por ficar curado depois de orar. Como prova da sua cura, Ezequias pediu que a sombra num relógio de sol recuasse dez graus, o que segundo o texto veio efectivamente a acontecer. O livro de Isaías inclui, ainda, um cântico atribuído a Ezequias por ocasião da sua cura. Este cântico é de uma profunda beleza; envolve, em primeiro lugar, uma lamentação que traduz o pensamento do rei enquanto doente, «enrolei a minha vida como um tecelão, mas acabou-se-me por falta de fio». A isto é contraposta a cura operada por Deus, «A minha amargura converteu-se em paz, quando preservaste a minha vida do túmulo vazio».
Finalmente, conta-se que Ezequias recebeu uma embaixada do rei da Babilónia, apresentando-lhe o seu palácio; isto serviu para predizer, uma vez mais, que a ruína de Judá se aproximava.