2008-04-09

Príncipes de Judá até Acaz (I Rs 15,1-15,24 . 22,41-22,51 . II Rs 8,16-8,29 . 9,27-9,29 . 11 - 12 . 14,1-14,22 . 15,1-15,7 . 15,32 - 16 ; 13 - 28)

Ao contrário do que se passou no Reino de Israel, com frequentes usurpações e mudanças de dinastia, no Principado de Judá reinou sempre a família de David. De facto, apesar dos pecados deste, Deus prometera a David, por meio do profeta Natan, que «a sua casa e o seu reino permaneceriam para sempre diante de Si» (2 Sam 7). Isso mesmo recorda o texto logo que trata do início do reinado de Abiam (II Rs) ou Abias (II Cr), filho de Roboão: «por causa de David, Deus concedeu-lhe uma lâmpada em Jerusalém, suscitando-lhe um filho». Este conceito de «lâmpada» para a casa de David será frequentemente referido ao longo da históia do Principado e, como se verá, terá uma enorme importância na história dos judeus, funcionando mesmo como símbolo da dinastia davídica.
Enquanto que o livro dos Reis refere apenas que «o coração de Abiam não foi integralmente fiel ao Senhor», o das Crónicas dedica-lhe um capítulo completo. Além de dar conta de uma guerra de Abias contra Israel, o texto também apresenta um longo discurso do príncipe, em que este procura justificar essa guerra. Neste discurso, bastante interessante, Abias refere a legitimidade do seu reino como «reino do Senhor», contrastanto a sua fidelidade «o Senhor é o nosso Deus e não o abandonámos» com a idolatria de Israel. O texto diz, ainda, que Abias venceu Israel e se tornou poderoso, por forma a realçar aquele contraste.
O reinado de Asa, filho de Abiam, merece da parte dos dois textos fortes elogios. «O coração de Asa manteve-se íntegro diante do Senhor»: em primeiro lugar, agiu de forma determinada contra a idolatria, eliminando os ídolos e perseguindo os que os veneravam. Mais importante, «ordenou aos filhos de Judá que seguissem o Senhor, e pusessem em prática a Lei e os mandamentos». Por outro lado, promoveu a defesa militar dos judeus, mandando para tal fortificar cidades e organizar o exército. Temos, assim, os dois principais eixos da acção de Asa: o militar e o religioso. A respeito do primeiro, os textos contam que ele venceu uma invasão de etíopes, e que moveu uma guerra ao Reino de Israel. Para tal, fez uma aliança com o rei Ben-Hadad da Síria, enviando-lhe consideráveis presentes. Este foi um motivo das críticas que o texto faz a Asa, já que Deus proibira o Seu povo de fazer alianças com os pagãos.
A respeito do aspecto religioso, além de castigar o culto pagão, Asa estabelecu também uma aliança com o Senhor: «obrigaram-se, por uma aliança, a seguir o Senhor, com todo o seu coração e com toda a sua alma». Pelos textos posteriores, verifica-se-á que em Judá, depois de períodos de infidelidade, vêm reis que estabelecm reformas relgiosas - ao contrário do que se verificava em Israel.
A Asa sucedeu Josafat, seu filho, como príncipe de Judá. O texto das Crónicas faz uma apreciação globalmente positiva do seu reinado, nomeadamente pela sua fidelidade ao Senhor, promovendo a pureza do culto. Contribuindo para tal, Josafat empreendeu uma importante reforma ao nível do ensino da Lei. Assim, «enviou os seus altos funcionários para ensinarem nas cidades de Judá, levando consigo o livro da Lei do Senhor, instruindo o povo». É muito interessante esta medida tomada por Josafat - uma medida precursora, de resto -, que além de fortalecer a fé dos judeus, tornava-os um povo culto e instruido. O texto, portanto, refere que isto motivou o período de prosperidade em que o principado viveu. Além desta reforma religiosa, Josafat empenhou-se também em fazer uma reforma na administração civil: para tal, estabeleceu juízes, um pouco à semelhança de Moisés, e encorajou-os a praticar a sua missão com correcção.
O texto das Crónicas repete o de I Reis 22, abordando a aliança que Josafat estabeleceu com o rei Acab de Israel - e que viria a resultar na morte deste último. Esta aliança, com um rei que os textos caracterizam como mau e infiel, é motivo para que o profeta Jeú critique Josafat, embora acabe por louvá-lo depois.
Finalmente, o texto trata de uma importante vitória militar que Josafat conseguiu. Para esta, contribuiu fortemente a sua fé, manifestada por um jejum e uma oração ao Senhor, feita juntamente com o povo. Um profeta tranquilizou-os, dizendo que venceriam - «o Senhor está convosco». Tal como a Edição refere, a preparação para esta vitória tem quase as características de uma liturgia: de facto, o rei, como chefe do povo, consulta a Deus e suplica-lhe a vitória, faz-se um jejum, e um profeta anuncia-lhes o sucesso. Este veio a acontecer, segundo o texto, porque os povos que se preparavam para combater os judeus se desentenderam entre si, e acabaram por se aniquilar. Assim, os judeus puderam saquear os seus despojos e «entraram em Jesusalém, no templo do Senhor, ao som das harpas, das cítaras e das trombetas» - reforçando assim também o carácter litúrgico.
A este rei, seguiu-se um período de crise na história de Judá. De facto, a Josafat sucedeu Jorão, que além de induzir a idolatria também matou todos os seus irmãos. Por isso, o profeta Elias dirigiu-lhe palavras duras, e ameaçou-o com uma doença que o viria a matar. Este rei foi casado com Atália, que era filha do rei Omeri de Israel; Atália deu-lhe o filho Acazias, que lhe sucedeu no trono. Tal como descrito anteriormente, Acazias foi morto por Jeú, quando este perseguia também o rei de Israel.
Ora, vendo o seu filho morto, Atália mandou extreminar os outros possíveis herdeiros do trono, incluindo, ao que parece, os seus próprios filhos. Contudo, um dos filhos de Acazias, Joás, foi salvo pela sua irmã, que o escondeu de Atália; esta, entretanto, começou a governar. Joás, portanto, ficou no templo do Senhor, onde terá sido educado pelo Sumo Sacerdote Joiadá. Foi este que, mais tarde, preparou uma revolta com que colocou Joás no trono, matando Atália.
Assim, verifica-se já a importância que este Sumo Sacerdote teve ao longo do reinado de Joás. De facto, ele foi o impulsionador de uma reforma que toma mesmo o nome de aliança, «entre ele, o rei e o povo»; além disso, foi ordenada também a recontrução do Templo, que contou com numerosas ofertas populares. No entanto, com a morte de Joiadá, Joás passou a praticar a idolatria, arrastando o povo, e chegando mesmo a matar o filho de Joiadá. Por estas razões, o reino foi invadido e Joás assassinado.
Sucedeu-lhe o filho Amacias, que apesar de algumas boas acções religiosas, foi derrotado por Joás de Israel e veio a ser morto devido a uma conspiração interna. Azarias, ou Uzias, seu filho e sucessor, começou o seu reinado com importantes êxitos militares. No entanto, «o seu coração encheu-se de orgulho», e foi ao templo para oferecer incenso, usurpando as funções dos sacerdotes; por esta razão, foi castigado com uma lepra que o afectou até à morte. Por isso, era o seu filho Jotam quem geria os assuntos do reino, vindo a suceder-lhe no trono. O texto das Crónicas elogia bastante este reinado, falando em vitórias militares e num grande poder.
O rei Acaz, filho de Jotam, foi provavelmente aquele que mais danos causou ao seu povo. De facto, vendo a inevitabilidade da conquista assíria, Acaz propôs tornar-se vassalo do rei da Assíria, esperando, desta forma, ser poupado. Para tal, mandou retirar os metais do templo, de forma a poder oferecê-los. Tanto o texto dos reis como das Crónicas criticam vivamente esta sua atitude: de facto, ao procurar ajuda no estrangeiro e praticando a idolatria, Acaz fez precisamente o que o Senhor ordenara que não fosse feito. Como resultado, o próprio rei da Assíria Tiglat-Falasar combateu-o; mesmo isto não foi suficiente para que Acaz voltasse à fé no Senhor. Com isto, Acaz preparou o fim de Judá.

Castelo Branco, 3 de Maio de 2008, vésperas da Ascensão do
Senhor