A acção de Eliseu, enquanto sucessor de Elias, começa, naturalmente, de forma simbólica. De facto, de acordo com o texto, «Eliseu apanhou o manto que Elias deixara cair; bateu com ele nas águas (...) e estas separaram-se, e Eliseu passou». Assim, é mais uma vez evidente a legitimidade da sucessão, e a transferência do «espírito de profecia» para Eliseu. A sua acção, como se verá em seguida, deu continuidade à de Elias, mas foi talvez menos misteriosa e mais compreensível; um aspecto bastante evidente é o seu carácter taumatúrgico.
De facto, no seu primeiro contacto com as populações, em Jericó, foi-lhe dito que as águas da cidade eram nocivas, pelo que a terra não produzia. Eliseu deitou-lhes sal e pediu ao Senhor que as tornasse saudáveis - o que definitivamente aconteceu. Por outro lado, sendo ridicularizado por vários jovens, Eliseu amaldiçoou-os e «saíram da floresta dois ursos e despedaçaram quarenta e dois daqueles rapazes». Este pequeno episódio, chocante mas narrado de forma quase irónica, é possivelmente uma forma de incentivar o respeito pela vocação profética - já que à época os profetas apresentavam, por vezes, comportamentos estranhos.
Em seguida, o texto dá conta da subida de Jorão ao trono; este era filho de Acab, e irmão de Acazias, o anterior rei. Tal como estes, «fez o mal ao olhos do Senhor». Entretanto, Jorão desafiou o rei Joacaz de Israel para irem combater Moab, a propósito da quebra duma aliança. Quando, pelo caminho, ficaram sem água, os reis chamaram Eliseu e este, depois de consultar o Senhor, anunciou que não só iria surgir água como também venceriam os moabitas. De facto surgiu água, e os israelitas estiveram prestes a derrotar os moabitas. Contudo, o rei de Moab «tomando o seu filho primogénito, ofereceu-o em holocausto sobre a muralha», num acto de grande desespero e desumanidade; de qualquer forma, vendo isso, os israelitas retiraram-se, «indignados».
As acções de Eliseu assemelhavam-se, em certa medida, às de Elias e prefiguravam, sem dúvida, as de Jesus Cristo, como se verá adiante. Por agora, temos o relato da mulher de um dos profetas que andavam com Eliseu: falecendo esse profeta, ela enviuvara, e temia que um credor viesse tomar os seus filhos como escravos. Então, Eliseu mandou-a pedir emprestado o máximo de ânforas que conseguisse. Quando foi para casa, conseguiu que o pouco azeite que tinha em casa se multiplicasse e enchesse todas as ânforas que arranjara; com o dinheiro da sua venda, conseguiu saldar a dívida. Este milagre tem semelhanças evidentes com um outro operado por Elias (1 Reis, 17), quando também se multiplicou o azeite duma viúva de Sarepta que viria na miséria («A panela de farinha não se esgotará, nem faltará o azeite na almotolia»).
Os dois milagres reltados em seguida também têm semelhanças evidentes com esse milagre da viúva de Sarepta. No primeiro caso, uma mulher chunamita convidou Eliseu para comer em sua casa, chegando mesmo, com o marido, a preparar um quarto para ele repousar, o que fazia quando passava por ali. Como reconhecimento, Eliseu anunciou-lhe que ela teria um filho, promessa de que ela duvidou devido à idade que tinham; o menino veio realmente a nascer. Contudo, um dia acabou por falecer no colo da sua mãe. Esta, com fé, foi a correr chamar Eliseu, que estava no monte Carmelo. Depois de Eliseu aquecer o corpo do menino e de um complexo ritual, este «espirrou sete vezes» e abriu os olhos». A semelhança desta passagem relativamente à da viúva de Sarepta está, evidentemente, na ressurreição de um menino. A respeito desta, considero interessante reparar no facto de o menino espirrar. Tal poderá significar que ele voltou a participar do «sopro da vida» insuflado por Deus (Génesis 2). Este episódio chegou ao conhecimento do rei, quando a mulher veio reclamar as propriedades que deixara quando fugiu duma fome que houve, ao que o rei acedeu.
No segundo caso, descreve-se uma fome na região de Guilgal; estando Eliseu com os «filhos dos profetas» (seguidores com quem, de resto, costumava andar), estes prepararam comida com uma planta desconhecida que, ao provarem, verificaram que era amarga e venenosa; contudo, Eliseu deitou farinha nessa panela onde estava aquela planta, e o sabor amargo desapareceu. Mais uma vez, ecoam as palavras de Elias, «A panela de farinha não se esgotará»; além disso, a farinha é um elemento simbólico que voltará a ser referido nos Evangelhos.
Também como inequívoca prefiguração dos milagres de Jesus está o milagre seguinte. De facto, um homem vinha oferecer algum pão a Eliseu; este, contudo, mandou-o distribuir aos seus seguidores, que eram «cem pessoas». Apesar da incredulidade do homem, o pão multiplicou-se e chegou para todos. Do mesmo modo, todos os Evangelhos relatam como Jesus, apenas com alguns pães, conseguiu alimentar uma multidão inteira.
A profundidade teológica do milagre seguinte deve-se ao facto de este perfigurar de duas formas os milagres de Jesus: primeiro, a cura da lepra, depois, a conversão de um gentio. Ora, Naaman era general do exército sírio e, sendo leproso, ouviu falar de um profeta da Samaria. Falando com o seu rei, Naaman levou uma carta de recomendação para o rei de Israel, para tentar chegar à fala com o profeta. Contudo, o rei de israel reagiu com desconfiança, pensando que o rei sírio o queria provocar; esta atitude, vinda de um israelita, contrastava com a fé do gentio. De qualquer forma, Eliseu mandou que Naaman fosse ter com ele, e disse-lhe para se lavar no Jordão. Apesar de estranhar que Eliseu não realizasse um ritual mais elaborado, Naaman acabou por fazer o que ele lhe mandou, e ficou curado. Então, disse a Eliseu: «Reconheço agora que não há outro Deus em toda a Terra, senão o de Israel». Esta conversão tem relevância por ser das poucas narradas no Antigo Testamento, e por ocorrer no contexto de um javismo muito ortodoxo, como o praticado por Eliseu. Um pormenor importante diz respeito ao pedido que Naaman fez a Eliseu: «Roga ao Sennhor o seguinte: quando o meu soberano entrar no temblo de Rimon para adorar, apoiando-se no meu braço e eu também me postrar no templo de Rimon, que o Senhor perdoe esse gesto ao teu servo». A resposta de Eliseu, «vai em paz», acaba por ser surpreendente, se atendermos à reprovação generalizada do texto para com as práticas idolátricas. Esta atitude tolerante mostra, portanto, a preponderância que a fé assume para Eliseu, em detrimento dos procedimentos externos. No final desta secção, o texto ainda apresenta um episódio exemplar. Naaman quisera oferecer alguns presentes a Eliseu pela sua cura, mas este recusou. Contudo, Guizei (servo de Eliseu) foi secretamente atrás de Naaman, pedindo-lhe alguns presentes, que este ofereceu. Quando Guisei regressou para junto de Eliseu, este puniu-o com uma maldição, fazendo com que a lepra de Naaman passasse para ele. Exemplifica-se assim, mais uma vez, o carácter gratuito dos dons de Deus.
Os prodígios de Eliseu prosseguiram na mesma linha, sendo narrado um outro, talvez de menor importância, em que ele ajuda um dos seus seguidores a apanhar o machado que caíra à água; de facto, quando Eliseu tocou na água, o machado passou a flutuar. Talvez, aqui, uma alusão a Cristo, quando este caminhou sobre as águas.
O episódio seguinte é interessante pela visão que encerra: o rei da Síria mandou perseguir Eliseu, porque este comunicava ao rei de Israel as movimentações do seu exército. Quando o servo de Eliseu se assusta, ao ver-se cercado pelos sírios, «o Senhor abriu-lhe os olhos e o servo viu o monte repleto de cavalos e carros de fogo». É, naturalmente, uma visão mística dos «exércitos» do Senhor.
A acção de Eliseu - e o benefício da sua presença para o povo - são evidentes quando o rei sírio mandou cercar a cidade de Samaria. Chegou-se a um ponto em que a fome na cidade era imensa: duas mulheres combinaram matar os seus filhos para os comerem. Contudo, interpelado pelo rei, Eliseu prometeu que, no dia seguinte, toda a fome estaria terminada, «mas não [rei] comerás». Efectivamente, por intervenção do Senhor, os sírios tinham fugido do seu próprio acampamento, deixando todos os seus bens. A boa nova foi dada aos samaritanos por uns leprosos que viviam fora da cidade. De facto, nos termos da lei, os leprosos estavam obrigados a manter-se distantes da restante sociedade; por isso, eles optaram por se dirigir ao acampamento sírio, já que não teriam nada a perder. Quando lá chegaram verificaram que aquele estava abandonado, e correram a dizê-lo aos samaritanos, que não acreditaram ao início. No entanto, após confirmarem, saquearam o acampamento dos sírios, e cumpriu-se a predissão de Eliseu, até no que respeita ao rei: morreu esmagado pelo seu povo, que saía da cidade. Sublinho aqui o papel dos leprosos - desfavorecidos e rejeitados pela sociedade - como detentores da boa-nova: de facto, é pronúncio do que acontecerá no Novo Testamento.
Posteriormente, o texto aborda a segunda das três missões confiadas a Elias a ser cumprida: «ungir Hazael como rei da Síria». Ora, acontecia que o rei Ben-Hadad da Síria estava doente; sabendo que Eliseu estava em Damasco, mandou o seu servo - precisamente Hazael - para o consultar. Quando Eliseu falou com Hazael, além de lhe dizer que Ben-Hadad morreria em breve, disse também que ele, Hazael, seria rei da Síria, e que haveria de fazer um grande mal a Israel; nisto, começou a chorar. De facto, a unção de Hazael tinha precisamente como objectivo que este castigasse os israelitas com a morte, devido à sua idolatria. Aproveitando-se da debelidade física de Ben-Hadad, Hazael asfixiou-o no dia seguinte, utilizando um cobertor ensopado em água.
Temos, finalmente, o cumprimento da última parte da missão, «ungir Jeú como rei de Israel», tendo também como finalidade o castigo aos israelitas em geral e à casa do rei Acab em particular. Como se verá em seguida, a punição da casa de Acab consistiu num conjunto de assassinatos em série. Ora, esta parte da missão não foi cumprida por Elias nem por Eliseu, mas antes por um enviado deste. Esse «filho dos profetas» procurou Jeú e ungiu-o como rei de Israel, dando-lhe como missão, precisamente, aniquilar a descendência de Acab.
Esta missão sangrenta começou com o assassinato do rei Jorão, de Israel, bem como de Acazias, rei de Judá. De facto, tal aconteceu quando Jorão recuperava de ferimentos de guerra, e Acazias o tinha ido visitar. Jeú dirigiu-se à cidade de Jerzael, onde os reis se encontravam, e estes saíram ao seu encontro, caindo numa emboscada. Jorão foi morto por uma flecha, e Acazias veio também a morrer. O corpo de Jorão, conta o texto, foi «atirado ao campo de Nabot»: recorde-se que este campo fora adquirido por Acab de uma forma fraudulenta, o que o levou, com a sua descendência, a incorrer numa maldição. Também no seguimento desta maldição, Jeú mandou matar Jezabel, esposa de Acab, cananeia que era em grande parte responsável pelas suas más acções. A sua morte ocorreu em condições humilhantes («o sangue dela salpicou as paredes e os cavalos e estes esmagaram-na com as patas»), também cumprindo a maldição feita por Elias. A acção sanguinária de Jeú não ficou por aqui. Com efeito, ele iria agora extreminar toda a descendência de Acab, no cumprimento da maldição que Deus lhe dirigira. Assim, Jeú mandou matar a totalidade dos filhos e parentes de Acab, não restando nenhum.
Jeú procurou, também, erradicar o culto a Baal, que fora tão promovido por Acab; para tal, reuniu todos os seus profetas, sacerdotes e fiéis a pretexto da oferta dum grande sacrifício. No entanto, aproveitou essa ocasião para os matar a todos, à traição, derrubando também o altar. Com isto procurava agradar a Deus, marcando a diferença para com os seus antecessores. Para o fazer, contou com a ajuda de Jonadab, filho de Recab. Este foi o organizador do grupo dos recabitas, cujo valor no história israelita será verificado, por exmplo, em Jeremias. A identidade e origem dos recabitas é actualmente motivo de debate. Aquilo que a consulta dos textos sagrados e de alguma bibliografia sugere é que os recabitas eram um ramo da família dos quineus (I Cr 2); no entanto, torna-se mais duvidoso descobrir de quem se tratavam os quineus. Pelo nome, poder-se-ia pensar que são descendentes de Caim. Por outro lado, existem passagens - nomeadamente as que se referem ao sogro / sogros de Moisés - que associam os quineus a uma tribo madianita ou edomita (Ex 2; Jz 1), outras que os têm como descendentes de Judá (1 Cr 2). Se estes estiverem, efectivamente, associados a Jetro, sogro de Moisés, poderá haver evidências de que os quenitas terão transmitido aos israelitas o seu monoteísmo. De qualquer maneira, os recabitas eram um grupo que adorava o Senhor mas que tinha mantido o nomadismo, ao contrário dos restantes israelitas que se sedentarizaram. Por outro lado, praticavam um javismo fervoroso, como será mostrado em Jer 35 - razões que levaram Jeú a contar com o seu auxílio.
O texto refere que Jeú foi melhor para o Senhor que os seus antecessores: ainda que aparente ter mais motivos além dos religiosos, Jeú tentou promover o culto ao Senhor e erradicar os restantes. Isto levou Deus a prometer-lhe que a sua descendência ficaria no trono «até à quarta geração», ainda que a sua fidelidade não tivesse sido completa.
Tal aconteceu realmente, sucedento a Jeú o Joacaz, Joás, Jeroboão II e, finalmente, Zacarias, que seria assassinado, cumprindo a palavra do Senhor. No reinado destes, Israel ainda conheceu alguma prosperidade e êxitos militares, apesar da constante infidelidade dos seus reis.
Esses êxitos seriam eles próprios preditos por Eliseu no momento da sua morte. De facto, estando Eliseu doente, Joás foi ter com ele e usou a mesma forma que Eliseu usara a respeito de Elias: «Meu pai! Meu pai! Carro e condutor de Israel». A utilização, aqui, desta expressão, mostra bem a continuidade que existiu entre as missões de Elias e Eliseu. Contudo, ao contrário de Elias, Eliseu morreu e foi sepultado; de qualquer forma, o texto conta que um morto, atirado ao túmulo de Eliseu, voltou à vida quando «tocou nos seus ossos».
Enfim, estes dois grandes profetas, Elias e Eliseu, marcaram a história de Israel, e foram um sinal de esperança no meio da enorme infidelidade desta monarquia.