Elias, «o tisbita», foi um importante profeta que desempenhou a sua missão no reino de Israel. Acerca dele, o texto não faz grandes comentários pessoais, apresentando-o logo a ameaçar o rei Acab com uma temporada de seca; depois disso, foi para o deserto, onde «os corvos traziam-lhe pão e carne e ele bebia a água da torrente». Em seguida, foi para perto de Sidónia, pedindo água e comida a uma viúva. Ora, esta viúva respondeu que «não tinha pão cozido, mas apenas um punhado de farinha e um pouco de azeite», acrescentando que, quando obtivesse lenha, prepararia aquele resto para si e para o filho, «e depois morreremos». Contudo, Elias disse à viúva para ficar tranquila; ela fez-lhe «um pãozinho» e «nem a farinha se acabou na panela, nem o azeite faltou na almotolia».
Só por este milagre, já é evidente a existência de um paralelo entre a actividade de Elias e a de Jesus Cristo: de facto, além do diálogo de Jesus com uma Samaritana, pedindo água, também existem narrados vários milagres de multiplicação da comida. Mas este paralelismo fica ainda mais evidente se atendermos ao que se segue. Com efeito, o filho da viúva acabou por morrer; mas «Elias estendeu-se três vezes sobre o menino e invocou o Senhor. O senhor ouviu o clamor de Elias, e a alma do menino voltou a ele e ele recuperou a vida.» Temos, então, o Senhor a fazer Elias ressuscitar um homem; segundo me parece, é a primeira vez que se narra uma ressurreição na Escritura. Como resultado natural, a viúva reconheceu que estava perante um «homem de Deus» - o que sucedia também depois dos milagres de Jesus.
Tempo depois, Deus decidiu enviar a chuva, já que a seca tinha causado uma grave fome. Antes, contudo, quis uma vez mais mostrar que era o único deus. Para tal, Elias mandou o rei Acab convocar os «profetas de Baal e de Achera», desafiando-os a prepararem o holocausto de um novilho; em seguida, Elias fez o mesmo. Desta forma, consoante o holocausto que se incendiasse espontaneamente, assim se saberia qual era o verdadeiro Deus. Depois dos profetas pagãos invocarem, sem resultado, os seus deuses, Elias invocou o Senhor; «de repente, o fogo do Senhor caiu do céu e consumiu o holocausto, a lenha, as pedras». O povo acreditou, como sempre acredita quando Deus lhe dá um sinal. Por ordem de Elias, os profetas pagãos foram capturados e mortos, vingando a morte dos profetas do Senhor operada anteriormente. Finalmente, e como resposta de Deus à fé do povo, «cobriu-se o céu de nuvens negras, o vento soprou e a chuva começou a cair torrencialmente» - terminando, desta forma, a longa seca.
Ora, a morte dos profetas levou a que a rainha Jezabel, mulher de Acab, procurasse matar Elias; por isso, este fugiu para o deserto. Aqui, Elias desesperou, pedindo a Deus a morte, quando se encontrava debaixo de um junípero (zimbro); como em situações semelhantes, a resposta de Deus foi um desafio: «levanta-te e come, pois tens ainda um longo caminho a percorrer». De facto, enquanto Elias dormia, Deus tinha feito surgir pão e água. «Reconfrtado com aquela comida, andou quarenta dias e quarenta noites, até chegar ao Horeb». Não se pode deixar de atender à forte carga simbólica desta passagem. Estes quarenta dias são certamente uma alusão aos quarenta anos que durou o Êxodo; e também Jesus Cristo passou quarenta dias no deserto. Elias, com João Baptista (os quais, segundo Cristo [Mateus 11] são a mesma pessoa), estabelece então a ligação entre as duas principais etapas da história da salvação. Também o Horeb (ou Sinai), onde foi dada a Lei a Moisés, pode ser compreendido como uma tentativa de Elias buscar a pureza da sua religião, numa altura em que esta estava fortemente corrompida.
No Horeb, o Senhor anuncia a Elias que «vai passar». A descrição desta teofania é de uma grande beleza e profundidade. Com efeito, é referido que passou «um vento impestuoso e violento», um tremor de terra, e fogo; contudo, em nenhum deles se encontrava o Senhor. Depois, «ouviu-se o murmúrio de uma brisa suave. Ao ouvi-lo, Elias cobriu o rosto». Esta forma ternurenta de Deus se apresentar, comparada com o fogo e as nuvens negras com que se apresentara naquele mesmo local a Moisés, são reveladoras do carinho que Deus nutria por Elias - e é também uma alegoria para o seu infinito Amor.
Nessa ocasião, o Senhor conferiu a Elias três missões: «ungir Hazael como rei da Síria, Jeú como rei de Israel, e Eliseu como profeta em teu lugar». Em seguida, relata-se logo como Elias cumpriu esta última: ao encontrar Eliseu, «Elias aproximou-se e lançou o seu manto sobre ele» - desta forma conferindo-lhe parte da sua vocação. Eliseu foi despedir-se da sua família, ofereceu um sacrifício, e «seguiu Elias para o servir». Eliseu seria, portanto, o sucessor de Elias, acabando por cumprir em seu lugar uma destas missões, como o texto relatará posteriormente.
Outro episódio exemplificativo da acção de Elias diz respeito à morte do rei Acazias. De facto, apesar da incredulidade deste, Elias predisse a sua morte, como castigo por ter consultado um deus pagão. Quando Acazias mandou tropas para consultarem Elias, este mandou que viesse fogo do céu e os consumisse: tal aconteceu por duas vezes. Apenas o terceiro grupo enviado conseguiu falar a Elias, e o rei acabou por morrer quando lhe deram a notícia.
O final da história de Elias não é, propriamente, um final. De facto, o capítulo começa logo por «quando o Senhor quis arrebatar Elias ao cé, num redemoinho»; ou seja, não se alude à sua morte. Com efeito, a morte, ou o que aconteceu a Elias no final da sua vida, é uma questão em aberto. Vejamos, então, o que diz o texto. Na companhia de Eliseu, Elias dirigiu-se para a margem do Jordão, encontrando, de caminho, vários grupos de profetas. Estes alertam Eliseu de que o Senhor iria «levar o seu amo por sobre a sua cabeça» - dando a entender, tal como a primeira expressão, que Elias não morreria, mas antes seria levado para junto de Deus no seu próprio corpo. Na margem do Jordão, «Elias tomou o seu manto, dobrou-o, e bateu com ele nas águas, que se separaram, de modo que passaram os dois a pé enxuto». Este facto, além do evidente paralelismo com a travessia do Mar Vermelho, mostra também um desejo de isolamento e reserva. Estando com Eliseu, Elias disse-lhe: «Pede o que quiseres, antes que seja separado de ti», ao que Eliseu respondeu: «Seja-me concedida uma porção dupla do teu espírito». A isto Elias responde que, se Eliseu o visse a «ser arrebatado», teria o que pedia. É interessante a forma como isto se processou. De facto, para mostrar que o «espírito de profecia» vem de Deus, Eliseu não disse «concede-me», mas antes «seja-me concedido»; também Elias não responde assertivamente, mas antes deixa essa decisão dependente de Deus.
«Um carro de fogo e uns cavalos de fogo separaram-nos um do outro, e Elias subiu ao céu num redemoinho. Eliseu VIU tudo isto e exclamou: "Meu pai, meu pai! Carro e condutor de Israel!" E não o voltou a ver mais.» A profundidade teológica desta narração é realmente significativa. De facto, o que quer que tenha acontecido a Elias é diferente e incomum, só encontrando paralelo na literatura profética. Qual será, então, a simbologia do «carro» e dos «cavalos»? Vemos que estes elementos aparecem por duas vezes: quando Eliseu é separado de Elias, e quando aquele atribui esses mesmos atributos a Elias. «Condutor de Israel» é uma metáfora fácil e compreensível, quando atendemos ao que ela nos diz. Elias foi o condutor de Israel porque o guiou, ou tentou conduzir, numa etapa importante da sua história: precisamente no tempo em que a sua infidelidade e falta de fé eram maiores. Esta característica, para Eliseu, é ainda mais relevante, uma vez que Elias foi o seu mestre espiritual e lhe transmitiu a sua vocação. Elias também foi condutor por oposição ao rei Acab: enquanto este usava a sua autoridade para guiar o povo para seu proveito, Elias procurou que o povo se convertesse, servindo a sua autoridade, conferida por Deus, para esse efeito.
A respeito da expressão «carro de Israel», torna-se mais complicado encontrar um significado que não seja complementar do anterior. De qualquer forma, se se observar com atenção, «carro» não é quem conduz, mas o espaço onde se é conduzido. Por isso, a expressão talvez pertenda significar que Elias também soube defender Israel do paganismo envolvente; «carro», portanto, seria aqui um sinónimo de protecção. «Carro e condutor» é, ainda, o objecto frequente das visões proféticas - Ezequiel, por exemplo, utiliza estes elementos para a descrição do trono de Deus.
Enfim, por tudo isto se conclui que o desaparecimento de Elias foi, pelo menos, tão misterioso quanto a sua vida. Parece que ele não morreu, nada nos diz que ele morreu, ao contrário do que acontecera com Moisés. Por isso, a Elias terá sucedido algo comparável ao final da vida de Henoc (Génesis 5): foi «arrebatado» ao céu, em corpo e alma. Isto poderá ser considerado, portanto, uma perfiguração da Ascensão de Cristo e da Assunção de Sua Mãe.