2007-11-15

Revoltas de Absalão e de Seba (II Sam 13 - 20)

O castigo com que Deus puniu David começou logo a produzir os seus efeitos. Assim, o texto conta que um dos filhos de David, Amnon, se apaixonou pela sua meia-irmã Tamar, também filha de David. Por isso, depois de preparar uma estratégia para ficar a sós com ela, violou-a, e logo em seguida passou a odiá-la. Tamar sentiu-se, naturalmente, muito triste, e acabou por dizer ao seu irmão Absalão o que acontecera; David também o veio a saber.
Ora, depois de algum tempo em que o assunto esteve adormecido, Absalão decidiu convidar todos os seus irmãos e meios-irmãos para a tosquia das suas ovelhas. Então, mandou os seus servos matarem Amnon, de forma a vingar Tamar, e fugiu para uma cidade de refúgio. David sofreu muito com a morte do filho e, ao que parece, procurava matar Absalão. No entanto, Joab, chefe do exército, quis evitá-lo; para isso, mandou que uma mulher contasse uma parábola a David, mostrando que a morte de Absalão não era, de todo, uma boa solução. Essa mulher teve, a este respeito, uma frase interessante: «Quando morremos, somos como a água que, uma vez derramada na terra, não mais se pode recolher». E esta frase, a respeito da vida terrena, não deixa de ser verdade. De qualquer forma, mais uma vez, é evidente que ainda não se tinha formado na consciência dos israelitas a crença na ressureição. David ficou sensibilizado com o que a mulher lhe disse, e mandou que Absalão regressasse; contudo, só passados dois anos o admitiu à sua presença e perdoou.
Entretanto, o tempo que passou isolado e a vontade de suceder a David no trono levaram a que Absalão começasse a criticá-lo publicamente, e a suscitar intrigas entre os israelitas, enquanto os ajudava na resolução de conflitos. Assim, «conquistou os corações dos israelitas». Quatro anos depois, Absalão foi para Hebron onde se proclamou rei, tal como fizera seu pai. Uma vez que as forças fiéis a Absalão eram grandes, David optou por sair de Jerusalém com os seus partidários, de forma a refugiar-se no deserto. Absalão ocupou Jerusalém e abusou das concubinas do seu pai David, de forma a mostrar que lhe sucedia.
No deserto, David mandou que os levitas retornassem com a arca a Jerusalém: queria mostrar que se submetia à vontade de Deus e que O respeitaria se o Seu desejo fosse substituí-lo no trono. Depois, «subiu, chorando, o Monte das Oliveiras, com a cabeça coberta e os pés nus», e fez uma oração. De lá, pediu ao seu amigo Husai que fosse para Jerusalém, de forma a colaborar com Absalão para depois o trair. Foi isso que Husai fez, tornando-se conselheiro de Absalão, em conjunto com Aitofel que lhe era fiel. Ora, quando chegou a altura de darem conselho ao rei acerca do que seria melhor fazer, Atiofel recomendou que um pequeno exército tentasse capturar David, enquanto Husai aconselhou Absalão a chefiar ele próprio um grande exército que combatesse as forças fiéis a David: com isto, procurava que Absalão morresse em combate. E este seguiu a opinião de Husai, que mandou informar David sobre o que se ia passar. Entretanto, ao ver que o seu conselho não fora seguido, Aitofel suicidou-se, enforcando-se. Este é o único caso de suicídio narrado no Antigo Testamento, à excepção dos guerreiros que, vendo-se perdidos, se matam. Por isso, parece-me relevante referi-lo.
As forças de David venceram as de Absalão numa batalha muito violenta, em que David não esteve presente. Ainda assim, pedira que a vida do seu filho fosse poupada. Ora, segundo o texto, «a cabeleira de Absalão ficou presa nos galhos de um grande carvalho, de modo que ficou suspenso entre o céu e a terra». Ao vê-lo, Joab, o chefe do exército, «tomou três dados na mão e cravou-os no coração de Absalão. E como ainda palpitasse com vida, suspenso no carvalho, dez jovens escudeiros de Joab, cercaram-no e deram-lhe os últimos golpes». Nesta descrição é evidente algum paralelismo com a crucificação de Jesus. De facto, o moribundo ficou «suspenso entre o céu e a terra», tal como Jesus, e tal como Ele também ficou suspenso em madeira: numa árvore ou numa cruz. Nova semelhança também é evidente quando se verifica a perfuração do peito; com a diferença natural que, neste caso, não jorrou sangue e água.
De qualquer forma, Absalão fora morto. Sabendo da reacção de David em casos semelhantes, o chefe do exército mandou que fosse um imigrante a dar-lhe a notícia. David entristeceu-se muito, o que mais uma vez reforça o seu bom carácter, e ficou de luto. Mas o chefe do exército, Joab, convenceu David a apresentar-se ao povo, para que este o voltasse a reconhecer, chegando mesmo a ameaçar que, se não o fizesse, os israelitas deixariam de o seguir. Atendendo à dureza de Joab, David procurou afastá-lo da chefia do exército, mas só Salomão o conseguiria fazer. O final do capítulo narra a reconciliação de David com todas as tribos, não deixando, no entanto, de referir que o clima de animosidade entre as duas se ia agravando.
É, ainda, narrada mais um revolta, desta vez causada por Seba, benjamita. Este também conseguiu unir as tribos israelitas contra os judeus. Contudo, depois de matar à traição um inimigo pessoal, Joab consegiu vencer Seba, que se tinha refugiado numa cidade fortificada.
Como é evidente, estava eminente a secessão das tribos israelitas do Norte, que já só um chefe carismático, como David, conseguia manter unidas às de Judá.