O início do livro de Isaías consiste num conjunto de «oráculos» contra Judá e Jerusalém. Depois da leitura dos livros históricos, a leitura dos Profetas mostra um grande contraste, quer ao nível do estilo, quer ao nível do conteúdo. No que respeita ao estilo, pelo menos este início de Isaías, e de uma forma geral os restantes livros, consiste em vários cânticos ou poemas, riquíssimos em comparações e outras figuras de estilo, que lhes conferem grande beleza. Quanto ao conteúdo, este começa por reforçar o cenário de desolação causado pelas guerras em que os judeus se envolveram («Tudo são feridas, confusões, chagas vivas», «Ficou apenas Sião, como cabana numa vinha» - imagem belíssima para o isolamento de Jerusalém). Em seguida, Deus mostra-Se «farto de holocaustos de carneiros, de gordura de bezerros»; esta frontalidade causa alguma estranheza depois da leitura dos livros históricos, mas mostra bem que para Deus o importante é «cessar de fazer o mal e aprender a fazer o bem; procurai o que é justo, socorrei os oprimidos, fazei justiça aos órfãos, defendei as viúvas»: ou seja, a pureza de coração, em vez do purismo ritual.
Como resposta aos pecados dos judeus («Como se tornou numa prostituta a cidade fiel!»), Deus afirma «purificar-te-ei no crisol, eliminarei de ti todas as escórias»; ou seja, Deus castiga com uma intenção educativa. De acordo com a profecia, esta purificação haveria de estender-se aos povos não-judeus: «Acorrerão a Jerusalém todos os povos», «Deus dará as suas leis a muitos povos, os quais transformarão as suas espadas em relhas de arados».
Depois surge uma primeira referência ao «Dia do Senhor», que será abordado posteriormente; neste caso, é apenas explicitado como um dia em que a acção correctora de Deus terá lugar de um modo especial, em que «o Senhor será exaltado». Por outro lado, também se introduz um tema importantíssimo: «o rebento do Senhor», que fará com que o «resto (...) seja chamado santo».
Também de bastante interesse é uma alegoria que descreve as relações de Deus com o povo como a de um agricultor com a sua vinha: o agricultor «esperou que lhe desse boas uvas, mas ela só produziu agraços». Por isso, ele anuncia que a vai arrancar, já que não deu fruto; uma alegoria semelhante será utilizada por Jesus Cristo em João 15, com uma pequena diferença: «o Pai corta todo o ramo que não dá fruto em Mim e poda o que dá fruto, para que dê mais fruto ainda».
Depois de uma maldição contra os ambiciosos, e de uma nova predição da invasão dos Assírios, o texto dá conta da vocação de Isaías. Esta inicia-se com uma teofania: «vi o Senhor sentado num trono alto e elevado; as franjas do seu manto enchiam o templo. Os serafins estavam diante dele e cada um tinha seis asas: com duas asas cobriam o rosto, com duas asas cobriam o corpo, com duas asas voavam». É interessante ter em conta esta visão para que possa ser comparada com outras posteriores; de notar, principalmente, a solenidade de que se reveste a presença de Deus, bem como a presença dos serafins. Estes seres, que a tradição posterior associou a uma classe de anjos, são mencionados na Escritura esta única vez. De acordo com algumas fontes, e como se pode observar pelo texto, estes seres estavam junto de Deus, anunciando a Sua glória: «clamavam uns para os outros: "Santo, santo, santo, o Senhor do Universo! Toda a terra está cheia da Sua glória"»; esta aclamação viria a tornar-se parte do Sanctus.
Isaías escreve que um desses serafins tomou uma brasa e tocou-lhe nos lábios com ela, de forma a purificá-los. Em seguida, Isaías dialoga com Deus, e oferece-se para ser ele próprio o Seu enviado. Como resposta, Deus enviou-o com uma missão: «endurecer o coração do povo (...), até que as cidades fiquem devastadas». Finalmente, apresenta-se de forma muito clara o tema do resto: «Expulsarei os homens para longe. (...) Se restar um décimo da população, esse será também cortado. Mas acontecerá como ao terebinto e ao carvalho, que uma vez cortados deixam um rebento. Esse rebento será uma semente santa». Esta ideia, que já acompanha a leitura há algum tempo, e que há-de manter-se evidente ao longo dos livros proféticos, é de um profundo significado teológico. Efectivamente, depois do Êxodo e da ocupação do território pelos Israelitas, estes mostraram não merecer o bem que Deus lhes concedera, pelo que a história da Salvação segue outro rumo. Agora, Deus procura, primeiro, castigar o povo pelos seus pecados, através do exílio («Expulsarei os homens para longe»). Mas esse exílio, além de procurar o castigo do povo, tem uma finalidade bem mais significativa, expressa de forma clara pela elegantíssima comparação, «acontecerá como ao terebinto e ao carvalho, que uma vez cortados, deixam um rebento. Esse rebento será uma semente santa». Na verdade, é a purificação do povo que Deus deseja, e o exílio será o meio pelo qual esta será atingida. No entanto, é evidente que o alcance destas palavras não fica por aqui. Jesus Cristo chamou-Se «semente» que morreu para dar fruto: é pela Sua morte, então, que crescerá o rebento de um povo mais puro e mais santo.