2008-01-18

Divisão do reino; Roboão e Jeroboão I (12 - 14 ; 10 - 12)

Depois da morte de Salomão, Roboão, seu filho, preparou-se para lhe suceder no trono. Para tal, deslocou-se a Siquém, onde esperava ser aclamado rei. Contudo, antes de prosseguir, é necessário fazer uma breve contextualização. Como se sabe, David e os seus descendentes pertenciam à tribo de Judá, que ocupava o sul de Israel (Judeia) e, portanto, a cidade de Jerusalém. Para suportar a sua corte, Salomão tinha sobrecarregado com impostos as tribos do Norte, com as quais não tinha grande afinidade, pelo que estas viram na mudança do rei uma oportunidade para exigir melhores condições.
É por isso que o israelita Jeroboão, filho de Nabat, já anteriormente referido como inimigo de Salomão, foi convocado pelas tribos do Norte para exigir a Roboão uma redução de impostos. Este, depois de consultar os anciãos e os seus amigos, acabou por seguir a opinião destes últimos, afirmando que não só não baixaria os impostos, como ainda os aumentaria, de forma a exibir a sua grandeza ("Doravante, já que meu pai vos carregou com um jugo pesado, eu vou torná-lo ainda mais pesado").
É este o pretexto que as tribos do Norte aproveitam para operar a secessão do reino. Como resultado, desde esse momento, a dinastia de David passou a reinar apenas sobre a tribo de Judá, na Judeia, a sul de Israel; uma vez que a esta tribo pertencia a cidade de Jerusalém, também os levitas ficariam na Judeia, bem como as tribos de Benjamim e Simeão que estavam a ser assimiladas por Judá. As restantes tribos, a que se continuará a chamar reino de Israel ou de Samaria, no Norte, teriam uma história dramática de sucessões reais, e acabariam por ser conquistadas pelos Assírios.
Além da separação política, Jeroboão operou também um cisma religioso. De facto, temia que com a manutenção do culto em Jerusalém, o seu povo acabasse novamente submetido à tribo de Judá. Desta forma, «mandou fazer dois bezerros de ouro», e ordenou sacerdotes entre homens que não pertenciam à tribo de Levi - além de tomar ele próprio outras decisões acerca do culto. Desta forma, violava a generalidade das prescrições do Sinai.
Por esta razão, um profeta judeu (de Judá) foi ter com Jeroboão, de forma a adomestá-lo e a mostrar-lhe que estava a fazer grande mal. Depois de realizar sinais, como fazer um altar abrir fendas, esse profeta ia-se embora; esta viagem, contudo, ficou marcada por um episódio curioso. De facto, interpelado por um falso profeta do reino do Norte, o profeta judeu alimentou-se antes de regressar a Judá, desrespeitando o que o Senhor lhe tinha determinado. Como castigo, foi morto por um leão e encontrado pelo falso profeta, que o chorou. Este é, portanto, o tipo de episódio em que quase tudo são sinais; neste caso particular, mostra que a vontade de Deus deve ser cumprida nos seus mais pequenos detalhes. Apesar de Jeroboão ter tido conhecimento disto, não modificou o seu comportamento; desde já, o texto prediz a ruína da sua casa.
Em seguida, isso mesmo é reafirmado pela voz de um profeta, que anunciou o castigo que se abateria sobre Jeroboão e seus descendentes, devido aos pecados cometidos («vou varrer os descendentes de Jeroboão como se varre o esterco até desaparecer»). Mais do que isso, todo o povo seria tambem severamente castigado, como será evidente em textos posteriores («o Senhor arrancará Isreal desta boa terra e o dispersará para além do rio Eufrates»). Segundo o texto, Jeroboão morreu em seguida, depois de vinte e dois anos de reinado, sucedendo-lhe o filho Nadab.
A respeito do reinado de Roboão em Jerusalém, o texto das Crónicas é bem mais benevolente que o dos Reis. De facto, segundo Crónicas, Roboão teve apesar de tudo uma boa acção governativa sobre Judá - fortificou cidades, acolheu os levitas e sacerdotes em fuga do Reino do Norte e espalhou os seus muitos filhos para administrarem o território. Contudo, ambos os textos concordam em que Roboão cometeu muitos pecados de idolatria, «abandonando a Lei do Senhor». Como castigo, Deus enviou o faraó Chichac, que tornou tributário o rei de Jerusalém - «ficar-lhe-ão [ao faraó] sujeitos, para que saibam distinguir entre servir-Me a Mim e servir os reis de outras nações». O sucessor de Roboão, após a sua morte, foi o seu filho Abiam (Reis) ou Abias (Crónicas).
Visto que, deste ponto em diante, a história dos reinos de Israel e o de Judá tomou cursos quase independentes, julgo ser mais adequado abordar cada uma delas sucessivamente, ao invés da forma em paralelo que o livro dos Reis utiliza. Começarei pela história subsequente de Israel, que se encontra em exclusivo no livro dos Reis, e depois voltarei à análise paralela da história de Judá, nos livros dos Reis e das Crónicas.