Reinando já em paz sobre Israel, Salomão, casado com uma princesa egípcia, dirigiu-se a Guibeon para oferecer um sacrifício. Deus, então, interpelou-o acerca do que lhe poderia dar: «Pede! Que posso eu dar-te?» E esta oferta de Deus tem o seu quê de comovente. De facto, Deus não coloca nenhuma condição, nenhuma contrapartida para a Sua oferta. Face a este dom gratuito do Senhor, a nossa reacção tem de ser necessariamente, além de uma grande gratidão, uma abertura de espírito suficiente para sabermos aquilo de que realmente precisamos mais; a resposta de Salomão vai precisamente nesse sentido. De facto, depois de recordar os benefícios que o Senhor concedera a David, Salomão teve a humildade de pedir aquilo que a história recorda como o seu maior atributo: «Terás de conceder ao Teu servo um coração cheio de entendimento para governar o Teu povo, para discernir entre o bem e o mal». Essa humildade foi muito bem acolhida por Deus, «dou-te um coração sábio e perspicaz, tão hábil que nunca existiu nem existirá jamais alguém como tu. Dou-te também o que nem sequer pediste: riquezas e glória». E esta é das maiores evidências que Deus sabe escutar as nossas orações, e dá-nos mais do que precisamos se soubermos o que é melhor para nós.
O texto do Livro dos Reis prossegue mostrando o exemplo mais conhecido dessa sabedoria; muito brevemente: duas prostitutas tiveram um filho quase em simultâneo. Uma delas, sufocou, inadvertidamente, o seu bebé durante a noite, pelo que o trocou pelo da outra, que dormia; quando esta acordou, deu conta do sucedido, e por este facto ambas debatiam a quem pertencia o bebé vivo. A decisão salomónica de Salomão foi: «cortai o menino vivo em dois e dai a cada uma a sua metade». Como é natural, a mãe real do bebé pediu que o bebé fosse dado à outra prostituta, pois preferia isso a vê-lo morto. Assim, o rei Salomão concluiu facilmente a quem dar o bebé. Esta espécie de parábola, bastante expressiva, além da famosa sabedoria do rei Salomão, mostra também como ele a utilizava em proveito do seu povo.
Também com o mesmo propósito, vem em seguida uma descrição da prosperidade que existia em Israel durante o seu reinado. Além da abundância de bens de que dispunha a sua corte, descrita através de numerosas hipérboles, fala-se também do bem-estar do povo: «vivia em segurança cada um debaixo da sua vinha e da sua figueira». Todo este sucesso era possível, repita-se, graças à sabedoria de Salomão, que soube levar o progresso para o reino de Israel, nomeadamente fazendo dele um importante entreposto comercial. De facto, são referidas as actividades mercantis dos israelitas, tanto com as regiões vizinhas, como também por mar.
Por outro lado, o texto também descreve a importância da sabedoria de Salomão na definição duma política externa eficaz: além de vencer alguns povos inimigos, estabilizando o reino e fundando novas cidades, Salomão fez alianças com o rei de Tiro (que lhe financiou a construção do templo e do palácio), com o faraó do Egipto (casando com a sua filha) e com a rainha de Sabá, o que também contribuiu para o sucesso comercial. A respeito desta última, ambos os textos falam numa importante visita que a rainha realizou à corte de Salomão. Esta visita é descrita como um acontecimento especial, dando-se grande atenção ao fausto que chegada. A rainha de Sabá vinha «pôr Salomão à prova por meio de enigmas», e «nenhuma questão foi tão enredada que o rei não lhe desse solução». Como se pode verificar, esta visita é mais um meio de que o texto dispõe para evidenciar a sabedoria e o prestígio de Salomão.
Enfim, por aqui se pode ter uma ideia acerca do período do apogeu da história de Israel. No Antigo Testamento, é neste passo que se verifica com maior fidelidade o cumprimento das promessas do Senhor.